segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Anel de fogo

O blogue de Santo Amador chamava a atenção para a notícia:

À uma da tarde, com o sol a pino, nem um cão se vê nas ruas de Santo Amador, pequena aldeia a cerca de 10 quilómetros de Moura. O lugar faz parte do "anel de fogo", conjunto de aldeias vizinhas de Amareleja, onde os termómetros superam, com frequência, os 45 graus Celsius.


Está a chegar a hora da calma - como se diz no Alentejo -, período do dia em que o calor mais aperta. Até onde a vista alcança a paisagem está preenchida de amarelo torrado, a cor que o restolho das searas apresenta, pintalgada de tons verdes do arvoredo disperso.

Debaixo de uma azinheira, um rebanho com algumas dezenas de ovelhas compacta-se para beneficiar da sombra que a árvore de copa larga oferece. Não se houve um balido ou o toque de chocalho. Os animais estão completamente imóveis para manter alguma frescura.

Na beira da estrada que liga Moura a Safara, José António Vieira Beato, de 56 anos, também se acolhe à sombra de uma árvore, tentando descansar um pouco em cima do tractor que manobra na recolha de fardos de palha. Está na hora do almoço. "Este calor põe-nos malucos", desabafa. Vai ter de manobrar a máquina, suportando uma temperatura ambiente acima dos 40 graus.

Desde os 10 anos de idade que faz o mesmo, ou seja, o que aparece de trabalhos na agricultura. "Se o dia é ruim, a noite não melhora as coisas. Deixa-nos a cabeça avariada, porque não se dorme nada de jeito", observa José Beato. "As pessoas andam a dormir em pé", ironiza. É um tempo complicado para quem é velho e sofre de doenças crónicas. No espaço de meia hora, o PÚBLICO viu duas ambulâncias do INEM na estrada que liga Moura a Safara.

Já dentro de Santo Amador, Maria Cândida Martins, de 56 anos, aguarda ansiosa que lhe instalem um aparelho de ar condicionado. Com este calor "vive-se muito mal e a gente não pode estar em lado nenhum". O rosto afogueado é disso sinal.

"Quando andava trabalhando no campo, na apanha da azeitona, no plantio e apanha de tomate e de melões, não sentia tanto calor", confessa. Nunca lhe custou tanto como agora suportar os dias de Verão. Quando se chega ao final do dia o corpo pede cama. O problema está em conseguir dormir. "As condições da casa ajudam, mas não é tanto como se pensa", assegura Maria Martins, referindo-se às dificuldades que encontra em ter um sono normal. " São voltas e mais voltas na cama." Levantar e deitar é uma constante. Por vezes há o recurso a um banho para refrescar, mas rapidamente a transpiração transforma a cama num forno."

Segundo os médicos, o facto de as temperaturas mínimas se manterem elevadas, acima do chamado nível de conforto (que ronda os 21, 22, 23 graus), torna difícil para o organismo recuperar do stress térmico a que foi sujeito durante o dia. Ou seja, o corpo não consegue arrefecer.

Dificuldades que são comuns também nos mais jovens. Hugo Ramalho, de 12 anos, explica: "Não consigo dormir logo à primeira. Ando nervoso e sempre a implicar com todos."

Fábio Mondragão, de 21 anos, e o seu colega Pedro Ramos estão a montar o aparelho de ar condicionado na casa de Maria Martins. "Com o calor, aumentam as vendas e as dores nas costas" a montar os aparelhos. Nestas últimas semanas têm sido instalados uma média de 20 por semana.

Nas ruas de Santo Amador não se vê ninguém, mas quando o PÚBLICO entrou no pequeno Café Sol Nascente contou 21 pessoas no seu interior. "Vêm para aqui por causa do ar condicionado", diz Ana Maria Ramos, proprietária do estabelecimento. Fazem pouca despesa. Estão quase todos desempregados. "Por volta das 14 horas recolhem todos às suas casas e só regressam depois das 18 horas e mantêm-se até à meia-noite ou duas da manhã", refere Maria Ramos, frisando que "pesadelo maior que o calor só o desemprego".


José Manuel, de 48 anos, está sem trabalho, suporta mal o calor e soma umas atrás das outras noites sem dormir. "O senhor nem sabe o que se sofre nestas condições. É duro, muito duro", observa este homem que diz passar o tempo no café por causa do "fresquinho". Mas o que mais queria era andar a trabalhar, "mesmo que fosse à torreira do sol. Até dormia melhor", acredita.

Para ler no Público do passado dia 30 de Julho.

Há uns anos (muitos...) quando trabalhava no Posto de Turismo, lembro-me de um casal do Porto que veio cá passar o fim-de-semana. Quando chegaram, ao final de uma tarde de verão, estavam tão satisfeitos com a luminosidade e o sol sempre a brilhar! "Lá no Porto não é assim, está sempre nublado."

No Sábado à tarde, depois de almoço, ali estavam eles, à procura da frescura do Posto de Turismo:
- Como é que vocês conseguem dormir? Como é que conseguem trabalhar?
- É simples - disse eu - Evitamos mexer-nos. É por isso que temos a fama que temos.

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