terça-feira, 30 de dezembro de 2014

António

Chegaste de mansinho. Um dia entrei em Cimélios e tu estavas lá, sentado naquela que haveria de se tornar a tua cadeira. Não me lembro quando foi a primeira vez que te vi. Lembro-me da andar a instalar o software e te pedir desculpa pelo incómodo, sempre a entrar e sair da sala e a falar com a colega, num espaço tradicionalmente votado ao silêncio.

Depois comecei a encontrar-te quando saía a correr, sempre atrasada, para almoçar. Por essa hora, tu já tinhas almoçado e estavas ali pelo átrio, a falar com os colegas. Todos pareciam conhecer-te e todos me vinham fazer pedidos:
"Podemos deixar entrar o Dr. António antes das 9 e meia? Ele precisa de aproveitar o tempo."
"Podemos deixar os documentos do Dr. António na passagem na sexta-feira à noite? Ele assim aproveita o sábado de manhã para trabalhar"
"Podemos digitalizar alguns fólios para o Dr. António? Ele mora tão longe, vai a casa, precisa de levar material para trabalhar".
E um dia,"podemos convidar o Dr. António para o jantar da Biblioteca? Ele está cá sozinho..." E tu foste e acabaste a noite a tentar convencer-me que ficar sozinho não é opção. Mas era a minha opção.

A seguir foram os convites para um café. Hoje não, porque estou cansada. Hoje não, porque tenho que fazer. Hoje não, porque tenho visitas. Hoje não, porque não posso. Hoje não, porque não tenho coragem. Mas não desististe, nem mesmo quando eu insistia em complicar as coisas.

Sim, sei que te estás a rir por eu ter escrito esta frase no passado. Eu ainda complico as coisas, não é? Ainda tenho medo, ainda acho que estas coisas não me acontecem, ainda vou, no meio dos dias felizes, buscar as minhas pedras e reconstruir a minha muralha. Mas esbarro em ti, porque tu estás lá.

Parabéns!  Um beijo.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Férias e não só

Depois de 14 dias de férias"oficiais" mas muito pouco reais, chega por fim o dia em que vou verdadeiramente descansar, curiosamente quando passa precisamente um ano sobre o dia em que mudei a minha vida para Évora.

Só  tive um ano tão bom como este e dificilmente terei outro assim. Não tenho coragem de pedir um ano melhor. O ano novo trouxe-me o trabalho pelo qual esperei a vida inteira e o Verão trouxe-me a vida à qual julgava já não ter direito. Estou pronta para o novo ano, cheia de vontade de "fazer o que ainda não foi feito".

A todos os amigos e conhecidos desejo Festas Felizes e que 2015 seja tão bom e generoso para todos como este 2014 foi para mim. Saúde!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Convite | Apresentação de livro

A Biblioteca Pública de Évora convida-o/a para a apresentação em Évora do novo livro CRÓNICAS DE DIAS DE DESESPERO, da autoria do Professor Santana Castilho, que decorrerá na Sala de Leitura da BPE, no dia 17 de Dezembro de 2014, entre as 16h30 e as 18h30.

A apresentação é uma organização da Comissão de Curso da Licenciatura em Ciências da Educação da Universidade de Évora, da Biblioteca Pública de Évora e Edições Pedago.

Contamos com a sua presença!


sábado, 13 de dezembro de 2014

Bonecos de Santo Aleixo na BPE



A Biblioteca Pública de Évora orgulha-se de apresentar os Bonecos de Santo Aleixo. Os espectáculos decorrem de 15 a 20 de Dezembro (segunda a sábado) sempre às 18:30 horas. Do reportório a apresentar destacamos o “Auto do Nascimento do Menino Jesus” e o “Passo do Barbeiro”, peças que integram o reportório tradicional, transmitido à “família” de bonecreiros do Cendrev pelo Mestre António Talhinhas que com eles trabalhou durante mais de quarenta anos.

Michel Giacometti referia-se aos bonecos nos seguintes termos: “Os Bonecos de Santo Aleixo pertencem a um tipo que é antepassado de toda a espécie, se bem que as actuais figuras de pau não sejam senão a cópia, datando apenas de 1940, dos modelos originais de que se conservam os caracteres arcaicos até na movimentação executada quase exclusivamente por meio de um varão. Na verdade, nada se conhece comparável a este espectáculo, pelo menos na Europa Ocidental, onde as famosíssimas marionetas que sobrevivem na Bélgica e na Sicília não possuem a tal ponto estas qualidades de rigor e fantasia na expressão, nem tão pouco esta virtude rara de salutar agressividade.”

As práticas artísticas continuadas e consequentes são determinantes para o desenvolvimento cultural dos povos e, se essas práticas enquadrarem também matrizes da nossa própria identidade, os processos de trabalho ganham, seguramente, sentidos redobrados uma vez que se preserva a memória colectiva, ou seja, o nosso património cultural.

As marionetas ocupam mais uma vez lugar de destaque no meio dos livros. Esta acção é uma parceria entre o Cendrev e a Biblioteca e conta com o apoio do INALENTEJO, no âmbito do projecto Bonecos de Santo Aleixo – Um Património a Preservar.

O PASSAPORTEATRO, na versão estudante e também na versão assinatura, é válido para estes espectáculos. As reservas podem ser feitas através do telefone 266 703 112 e têm de ser levantadas uma hora antes de cada sessão. Os bilhetes podem ser adquiridos no Teatro Garcia de Resende ou na Biblioteca Pública de Évora2.

Contamos com a sua presença!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Convite | Apresentação de livro

A Biblioteca Pública de Évora apresenta o livro “A Árvore que Paria Meninos”, de Marco Taylor, no próximo dia 13 de Dezembro, pelas 16h30.

Contamos com a sua presença!


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A Primeira Guerra Mundial e a Sociedade Portuguesa: Evocar e Conhecer

A Biblioteca Pública de Évora acolhe amanhã, 12 de Dezembro, o Colóquio “A Primeira Guerra Mundial e a Sociedade Portuguesa: Evocar e Conhecer”, organizado pelo Departamento de História da Universidade de Évora.

Além do Colóquio, assinalando a passagem do centenário sobre o início da I Guerra Mundial, a cidade de Évora acolhe, a partir de 12 de Dezembro e até 31 de Janeiro, uma Exposição partilhada sobre os “Ecos da Grande Guerra”, que conta com núcleos na Sala de Exposições da Biblioteca Pública de Évora, no Arquivo Distrital de Évora e na Direcção do Comando de Instrução e Doutrina do Exército Português.

Contamos com a sua presença!


Casa à procura de dono

Rua de Arouche, Moura

5 quartos, sala, cozinha, casa de banho, arrecadação/lavandaria e 2 arrecadações no quintal. O melhor de tudo são as tangerinas doces, doces que a tangerineira do quintal dá.
Há por aí interessados? 
Contactos, esclarecimentos e visitas através da Predial Alentejana Mediação Imobiliaria (Praça Sacadura Cabral, em frente à Câmara Municipal de Moura, ou através do telefone 919385103).

Reboot

Que este blogue anda abandonado, já se sabe... Não sei se recuperará, mas é um projecto que gostava de manter.

O facto de não escrever faz-me pensar no que me motivava antes. Por que razão não continuo a falar sobre os mesmo temas?

É simples: deixou de fazer sentido. Sempre que penso em escrever alguma coisa, acabo por desistir. Afinal de contas, que importa aos outros o que penso sobre isto ou aquilo? Sou apenas uma entre sete biliões, a quem interessa a minha opinião?


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Convite - VIII Conferências do Cenáculo

Na próxima quarta-feira, 29 de Outubro, às 18h30, José Manuel Rodrigues e Jorge Calado dialogam e comentam algumas das fotografias e alguns dos fotógrafos das suas vidas.




domingo, 26 de outubro de 2014

Respostas



Explico-lhes que se uma publicação apresentar a data referente a um calendário não gregoriano, devem registá-la, seguida da data correspondente num calendário gregoriano. Não reagem, mas percebe-se que alguns não fazem ideia do que estou a falar. Falo-lhes no calendário muçulmano. Nunca ouviram falar. Fazemos uma pausa e "googlamos" o assunto. Vejo a luz que se acende nas suas caras quando compreendem, por exemplo, as referências feitas ao Ramadão nos noticiários.

Duas ideias em que fiquei a pensar:
1. A curiosidade sempre foi o melhor motor da aprendizagem.
2. Ser bibliotecária é isto. Tem uma pergunta? Nós arranjamos a resposta.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Qu'é isto?

Eu sei que a minha vida dava um livro, mas... não é este. O autor é que me mata. Bom, e a fotografia de capa também.


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Convite


Prazer da paisagem? Paisagens de prazer.
Aurora Carapinha (Arquitecta Paisagista, Professora da Universidade de Évora)

O prazer da paisagem leva à criação de paisagens de prazer. Os jardins históricos do Alentejo feitos de heranças diversas no tempo longo e exemplos da sabedoria da simplicidade são o tema central desta conferência.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

...

Fui a Brinches. Fui ver a casa da minha avó, cá de fora da estrada. Arrancaram a parreira do pátio e substituiram a porta castanha de madeira por uma porta de alumínio. Já não é a casa da minha avó, essa já só existe cá dentro.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

20 anos

Há precisamente 20 anos, este era o meu primeiro dia como bibliotecária. Vinte anos de uma luta constante contra a ignorância, a indiferença e o comodismo. Vinte anos de derrotas e de pequenas vitórias que fazem tudo valer a pena.

Ainda não estou cansada. Ainda tenho muito para fazer e sobretudo, muita vontade de trabalhar, se é que ainda se pode chamar trabalho a isto que sou com toda a minha convicção.




sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Pérolas

Caminhavam à minha frente. Ele vinha de chinelos e mãos nos bolsos dos calções, ela trazia o braço esquerdo enfiado no braço dele e com a mão direita segurava a menina. Ele olhou para cima e disse com o ar de enfado que caracteriza quem é muito mais esperto do que os outros todos:

- Estes gajos estão a fazer obras e não substituem as madeiras das janelas.

Ela ainda ergueu o queixo, mas o assunto não lhe interessava, pelo que nem se dignou responder. Ao lado, a menina deu uns saltinhos e disse:

- Eu já vim a esta biblioteca, com o ATL!

Ninguém reagiu. A criança repetiu:

- Eu já vim a esta biblioteca, com o ATL!

Nada. Mais uma tentativa:

- Olha, olha! Eu já vim a esta biblioteca com o ATL!

A mãe finalmente abriu a boca e ditou a sentença:

- Deves ter vindo sozinha! Com isto da internet, quem é que quer ir à Biblioteca? Deve estar vazia.

Escusado será dizer que lhe respondi. Está de facto vazia de gente ignorante e que não quer aprender.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Crónica dos dias que passam na BPE #2

Ao segundo dia, a sala que estava cheia de livros ficou cheia de ecos. Do outro lado, o imenso mar cresceu até não caber mais. Primeira fase concluída, cerca de 27 mil livros retirados das prateleiras e arrumados ordenadamente no chão. Os pedidos que entretanto nos chegaram através dos pólos testaram o sistema e comprovaram o que eu estou sempre a dizer: só os bibliotecários conseguem dar ordem ao caos.


A sala do serviço de empréstimo, vazia e pronta para ser alargada.

Sala do serviço de empréstimo, já vazia.

Perspectiva da colecção do empréstimo domiciliário a ocupar a sala de leitura.
Seguiu-se a segunda fase: Transferência dos serviços técnicos para o piso térreo, permitindo a libertação do espaço que ocupavam no primeiro andar e que assim, pode ser acrescentado ao serviço de empréstimo domiciliário. 

Esta operação exigiu a criação de uma nova sala de tratamento técnico documental que ocupou o espaço anteriormente destinado à digitalização, também ela "deslocalizada". 

Ao final do segundo dia, tudo corre como previsto. Amanhã continuamos.

Nova sala de tratamento técnico documental, com capacidade para seis pessoas a realizarem tarefas de catalogação, classificação e indexação em simultâneo.

Novo posto de digitalização.

Funcionários e voluntários, ainda todos vivos.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Crónica dos dias que passam na BPE #1

No primeiro dia foi assim. Livros retirados das estantes e metodicamente organizados num outro espaço para que possam ser encontrados caso alguém precise deles. 8 horas de trabalho, quase 20 mil livros mudaram temporariamente de localização.


Serviço de empréstimo, antes da intervenção

Serviço de empréstimo, antes da intervenção

Inìcio da transferência dos livros


Primeira fila do "Mar de livros" que ocupou a Sala de Leitura

Sala do serviço de empréstimo, com 2/3 das estantes já vazias

Sala do serviço de empréstimo, com 2/3 das estantes já vazias

O Mar de Livros em que se transformou a colecção de empréstimo domiciliário

O Mar de Livros em que se transformou a colecção de empréstimo domiciliário



quarta-feira, 23 de julho de 2014

quarta-feira, 16 de julho de 2014

É festa!

De repente, deixei de ser uma mourense que acompanha a chegada dos arcos, a montagem das barraquinhas, que acorda com o barulho da rua a pôr-se bonita para ver passar a procissão, para ser uma daquelas pessoas por quem se espera nestes dias, os tais da diáspora mourense.

É estranho saber que hoje já se ouviram os morteiros às 8 da manhã. A festa a começar e eu ainda nem sequer vi os arcos da Rua de Serpa...!

Em princípio, estarei lá na Sexta-feira. Lá, naquele lugar que por estes dias é o centro do mundo, onde está a minha família e os amigos que tanta falta me fazem. Lá, naquelas ruas de que tenho saudades, no bom dia e boa tarde constantes de uma terra pequena onde todos se conhecem.

Chegou a Festa, vamos matar saudades.


sexta-feira, 4 de julho de 2014

Crónica dos dias que passam

Os meus "dias de Évora" completam por esta altura uns extraordinários seis meses. 180 dias de descoberta, de preocupações, de incertezas, muitas dúvidas e total deslumbramento.

As peças foram encaixando a pouco e pouco e, embora estes meses me tenham ensinado a estar preparada para esperar o inesperado, o caminho a seguir foi progressivamente ficando definido.

A abertura dos pólos de Valverde e Guadalupe em Abril, aos quais se juntam, já no próximo dia 12, os pólos da Senhora da Saúde e do Bacelo têm vindo a permitir um desdobrar dos serviços da Biblioteca, ao encontro dos seus utilizadores. Entretanto, há ainda o pólo de documentação jurídica que será inaugurado já no dia 10 de Julho no Tribunal da Relação de Évora, num processo de cooperação inédito. No horizonte (previstos para Outubro) estão o pólo da Horta das Figueiras e um Quiosque do Livro na Malagueira. Estão também a ser definidas estratégias de cooperação com a Junta de Freguesia do Centro Histórico para a criação de uma nova modalidade de serviço ao utilizador, de que darei conta em devido tempo. Estamos também a desenvolver formas de cooperação com várias escolas do concelho disponibilizando, a título de empréstimo, conjuntos de livros para reforço das colecções das bibliotecas escolares, também elas sufocadas pela crise financeira.

Para que a utilização dos serviços fosse facilitada, alargámos o horário de funcionamento, abrindo a biblioteca à hora do almoço e ao Sábado de manhã. Sabemos que este alargamento fica ainda muito aquém das necessidades do público e do que seria a nossa vontade, mas é o que o quadro de pessoal existente nos permite fazer no momento.

Criámos também um serviço de devolução de livros 24/7, que dá aos nossos utilizadores a possibilidade de devolverem os livros que requisitaram 24 horas por dia, 7 dias por semana. O acesso online à base de dados da BPE foi complementado com uma plataforma de interacção que permite ao utilizador pesquisar, reservar e renovar o empréstimo de documentos, de forma cómoda, a partir da sua casa ou local de trabalho.

A nível interno, o trabalho de formiguinha que é o alicerce de uma biblioteca também tem sido intenso. A juntar ao processo de inventariação da documentação patrimonial, está a decorrer um esforço de catalogação sistemática das colecções, em duas frentes simultâneas: a documentação recente, com o registo do depósito legal actual e um processo de catalogação retrospectiva que permitirá converter as fichas manuais, integrando os registos bibliográficos no catálogo colectivo da BPE. A substituição do sistema informático por um software de gestão de bibliotecas que permite a gestão dos pólos e a multiplicação de operadores foi determinante para este processo.

Esta conjugação de esforços permitiu a integração de 4836 novos documentos só nos últimos dois meses.

Nem tudo são rosas. Este ano, devido à necessidade de reorganização dos serviços, a BPE estará encerrada ao público durante o mês de Agosto. Esta situação obrigou também ao encerramento do espaço da hemeroteca, já no mês de Julho, embora os serviços prestados naquele sector continuem a funcionar em pleno, tendo sido apenas deslocados. Também não nos é possível levar a cabo o habitual ATL de verão e as actividades de animação e promoção da leitura têm sido condicionadas pela disponibilidade dos recursos humanos necessários para as levar a cabo.

Segue-se o processo de reorganização interna da Biblioteca. O alargamento do serviço de empréstimo domiciliário planificado para Agosto será seguido pelo reacondicionamento da documentação patrimonial e o realojamento do depósito geral. A colaboração empenhada de outras entidades, designadamente a Câmara Municipal de Évora e a Direcção Regional de Cultura do Alentejo, permitirão a curto prazo a organização do fundo documental actualmente depositado no espaço dos Celeiros e o seu digno reacondicionamento.

Se este texto parece um presta-contas é porque é mesmo um presta-contas. Quem trabalha para uma comunidade tem esse dever.

Tanto o que já decorreu como o que está planeado só é possível graças ao empenho e entusiasmo dos funcionários da Biblioteca e do inestimável grupo de voluntários que se juntou a nós. Não há heróis solitários, só em equipa se conseguem atingir resultados. A todos, muito obrigada.


Deixo aqui aquela que deve ser a minha primeira fotografia enquanto bibliotecária aqui em Évora. Foi numa actividade da semana da leitura, em Março, na Escola Básica de São Mamede.


5 de Julho, às 18h30, na Biblioteca Pública de Évora

Esperamos por si!


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Amanhã, às 18h30, na BPE!


Apresentação do autor e do livro a cargo de Mário Rufino (jornalista do Público) e José Russo (actor).




"E assim nasce um excelente escritor.

“Mal Nascer” (Casa das Letras) confirma a capacidade de Carlos Campaniço (Safara; 1973) em criar personagens marcantes e ambientes envolventes. A possibilidade de “Os Demónios de Álvaro Cobra” ser um sucesso irrepetível é negada por “Mal Nascer”. Não há realismo mágico, nesta obra, mas existe o mesmo labor na escrita, igual complexidade psicológica das personagens, um ambiente sugestivo e um enredo capaz de seduzir o leitor.

Em tempos de contenda entre liberais e absolutistas, o Doutor Santiago Barcelos regressa à aldeia onde passou a sua dura infância. Vindo de Lisboa, o médico foge de ameaças de morte e da obsessão de uma mulher. Na aldeia, onde lhe semearam ódios, não há espaço para nada além da sobrevivência. O pouco de dignidade existente é património dos mais abastados, personificados por Albano Chagas, e da igreja. Os outros sofrem devido à fome e obedecem aos que ostentam riqueza.

Com início no regresso do médico Santiago Barcelos, que substituiu o apelido paterno de Bento por o apelido do padrinho Barcelos, Carlos Campaniço constrói a narrativa em dois tempos intercalados (infância/juventude e idade adulta). O passado mais remoto é um afluente da acção principal. O autor alentejano conta a causa para exponenciar os efeitos dramáticos da consequência. A razão de Bento em se manter escondido noutro nome reside em acontecimentos dramáticos acontecidos na sua infância. O todo-poderoso Albano Chagas impõe que  Santiago e os seus amigos assumam uma culpa inexistente devido a um acidente que vitimou o seu primogénito.

O leitor assiste tanto à evolução do problema (passado) como da resolução (presente).
Apesar de já terem passado muitos anos após a sua partida, Santiago reconhece o ambiente inabitável da sua infância, onde a inocência morreu perante a violência doméstica. A sua ingenuidade infantil deu lugar às dores dos dias de trabalho, e o riso das brincadeiras foi trocado pelos seus lamentos de criança num hostil mundo de adultos embrutecidos.

“Não posso impedi-lo, nem sei se a minha mãe sobreviverá a mais esta bestialidade. A última vez que lhe supliquei para que não lhe batesse arriou-me como nunca, com mais força ainda com que lhe batia a ela. Levo as lágrimas postas num rosto de infortúnio e parece não ser curiosidade para ninguém, porque não há um único que me pergunte sobre o sucedido” Pág. 61

Ele foi obrigado a crescer demasiado depressa. O ódio foi aumentando dentro do seu peito. Mas, ao contrário de Álvaro Cobra, personagem do anterior romance de Carlos Campaniço, o protagonista suplanta a pobreza e a miséria moral. Ao tornar-se médico, é aceite pela mesma classe social que mantém a maioria da população na pobreza.

Os habitantes não reconhecem no médico a criança pobre que ele fora. É tempo de ajustar contas com o passado. Mas apesar de tudo o que não fizeram por ele e pela sua mãe, Santiago cura as pessoas das respectivas doenças. E se não o fizeram é porque a dor de muitos deles não era menor. A culpa pesa como uma cruz nas costas de um povo condenado a viver com a perda e a solidão.

O enredo montado possibilita diversos desenvolvimentos da acção e aprofundamentos na caracterização psicológica das personagens secundárias. No entanto, Carlos Campaniço opta por não desenvolver tanto quanto poderia. A narração numa primeira pessoa possibilita o conhecimento mais aprofundado da psique dos intervenientes principais, mas impõe limitações no progresso dos “subenredos”. Em consequência, a perspectiva do leitor é mantida no essencial à condição de logro e de dominado pelo ódio em que se encontra o Dr. Santiago Barcelos.
De certa forma, Santiago é cativo daquela aldeia: o ódio prende-o ao passado e o amor por Sebastiana, sua assistente no consultório, prende-o ao presente. Ele terá de escolher um caminho.

Carlos Campaniço continua a demonstrar a qualidade já presente em “Os Demónios de Álvaro Cobra”. A sua temática tem-se construído, até agora, assente em assuntos como a luta entre classes sociais, a pobreza como influência decisiva na formação do ser humano e sobre o poder do Clero na Moral e nos costumes.

A prosa de “Mal Nascer” e de “Os Demónios de Álvaro Cobra” tem o humanismo de Ferreira de Castro.

“Mal Nascer” , finalista do Prémio Leya, é mais uma importante obra no surgimento de um autor com muita qualidade na Literatura Portuguesa: Carlos Campaniço.

Mário Rufino"

terça-feira, 17 de junho de 2014

Simples

"Futebol: Terra a enlouquecer"
 Opinião de um menino de 8 anos 
(in Deus é amigo do homem-aranha, de Maria Inês Almeida, p.167)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Campeões! Outra vez!

Desde já e antecipadamente peço desculpa pela ousadia de assumir a minha condição de sócia e adepta do Sporting Clube de Portugal a todos os não-sportinguistas, a todos os intelectuais que acham que quem é adepto de um clube é um ignorante alienado da realidade, a todos os que enchem os murais do facebook com frases feitas de autoria duvidosa mas que não aguentam ouvir falar de futebol (ou futsal ou outra modalidade), aos comentadores da RTP que ainda devem estar em choque a estas horas, etc.

Então, com as devidas licenças e na esperança de me safar à fúria habitual nalguns comentários, aqui fica a fotografia do meu Sporting, bi-campeão de futsal.

"E o Sporting é o nosso grande amor!"


E já agora, um recadinho aos adeptos do Fundão: Nós também temos pavilhões. O vosso, por exemplo, também é nosso, porque sendo municipal (e cedido pontualmente ao vosso clube), é pago com o dinheiro de todos os contribuintes. 

domingo, 15 de junho de 2014

É a vida...

Passei pelo sector dos livros naquele grande supermercado que instala uma horta no centro de Lisboa. O filho choramingava e a mãe dizia "Só um! Lês mais devagar, não precisas de ler isso tudo a correr".

A minha filha mais velha ainda me atirou com um olhar de atravessado, mas ganhou as mesmas. "Na Biblioteca são de graça e pode trazer cinco de cada vez".



sexta-feira, 13 de junho de 2014

Inauguração amanhã, às 19h30, em Moura

Fotografia de Rui Ferreira (Moura)

Só para os mais distraídos, aqui fica a imagem deste edifício antes da intervenção:


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Os polícias dos animais

Quando chegou à nossa casa, o Stromp devia ter dois meses e pouco. Agora já tem 4 anos e meio. É meigo, dedicado e absolutamente chanfrado. Salta, corre, vai e vem, não consegue conter a alegria quando lhe abrimos a porta do quintal e o deixamos entrar em casa.

Depois acalma. Estende-se no chão "à frango de churrasco", com as patas todas abertas e estendidas. Ultimamente adoptou uma nova posição preferida: cruza as patas da frente, muito atento enquanto as de trás ficam completamente estendidas.

Uma amiga encontrou-o na rua e trouxe-o para a nossa casa, de onde já não saiu. A veterinária diz-nos que lhe parece ser Épagneul Bretão traçado, mas não deixa de ser um cão de rua, sem pedigree, fiel, brincalhão, alegre e irreverente.

Ontem, como desde há coisa de 3 anos, deixámo-lo sair sozinho. Dá a sua voltinha e vem ver se estamos no mesmo sítio. Confirmada a nossa presença, volta a sair e dá o seu passeio. Quando lhe apetece, volta para casa. Já se demorou mais do que o habitual 2 ou 3 vezes, mas nunca falhou. Até ontem.

É que ontem, uma amiga dos animais com excesso de zelo deu por ele na rua e resolveu chamar a protecção civil, que accionou os serviços municipais para recolherem o cão. À hora a que chegou ao canil já a fotografia dele andava de facebook em facebook e nos sites de animais perdidos. Nós andávamos de rua em rua à procura dele.

Não pregámos olho a noite toda. Àquela hora já não contactámos o canil municipal, mas fizemo-lo hoje de manhã. Sim, havia um cão que correspondia à descrição. Só o consegui levantar ao início da tarde, mas tive de pagar uma taxa pelos serviços prestados.

Fiquei hoje a saber que é proibido deixar circular um cão sem trela. Triste mundo este, em que já nem os cães podem passear. A partir de agora cumprirei a lei, pois claro.

Entretanto, quero agradecer aos amigos dos animais que impediram o meu cão (com coleira e bem cuidado, como fazem questão de referir) de regressar a casa, obrigando-o a passar a noite num cubículo no canil. Agradeço também a noite em claro e o alívio na carteira.

Agora sem qualquer ponta de ironia, agradeço ao pessoal do Canil Municipal de Évora pelo trabalho que desenvolvem. Aqueles animais não têm mais ninguém. Obrigada.

Adenda: Há cerca de uma semana que, nesta mesma zona, anda um cão grande a vadiar. Está sujo e visivelmente triste. Curiosamente, ainda ninguém o mandou recolher.

O Stromp, "visivelmente perdido".





segunda-feira, 2 de junho de 2014

Oficina dos cadernos

Convido todos os meus amigos e amigas a gostarem desta página e a adquirirem cadernos, agendas e outras preciosidades. As mãos que fazem estes trabalhos têm ajudado imenso no reacondicionamento de muitos documentos que a Biblioteca Pública de Évora tem à sua guarda. O mais incrível é que esta perfeição de trabalho é feita diariamente na BPE a título voluntário!

Há pessoas espectaculares e esta jovem é uma delas.



sábado, 31 de maio de 2014

Constatação

Em linha recta, cerca de 100 metros separam a minha casa do espaço onde tudo acontece nas noites da Queima. Da janela do meu quarto ao "Manel dos Potes" são menos de 10 metros... Começa hoje uma semana sem dormir.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

20 anos

Faz hoje 20 anos que isto aconteceu. As companheiras de tantos trabalhos e projectos ao longo de cinco anos, juntas mais uma vez depois da queima da fita e do banho.

Um abraço com saudade a todos os colegas de História 89/94!


Nota: Aqui não se nota muito, excepto pelo facto de a saia começar quase debaixo do braço, mas estava grávida de 38 semanas da minha filha Inês.

E agora, algo completamente inútil. Ou talvez não...

É comum encontrar textos escritos em comic sans, um tipo de letra criado com um propósito muito simpático, mas que se tornou a fonte tipográfica mais odiada do mundo. Este site, por exemplo, explica em que circunstâncias se pode usar a letra comic sans:

a) Quando tem menos de 11 anos
b) Quando está a fazer uma banda desenhada
c) Quando o público alvo é disléxico e manifestou a sua preferência por este tipo de letra.

Se é utilizador deste tipo de letra, mude já hoje, não continue a impressionar pela negativa as pessoas a quem se dirige por escrito. Sobretudo, nunca apresente documentos profissionais numa letra "cómica", se quer ser levado a sério.

Ah! Não precisa de agradecer :)

terça-feira, 27 de maio de 2014

A todo o gás

Tal como se esperava, na sequência da "vitória estrondosa" de domingo (ou como esteve planeado desde o início?), António Costa avança para a liderança do PS. Seguro fez a travessia do deserto, levou porrada de toda a gente, carregou o partido sozinho e agora sai de cena. É a vida.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Vitória estrondosa

A da abstenção, pois claro. Foi a vitória dos que não querem saber, dos que mudam de canal porque estão fartos de telejornais, dos que reclamam nas esplanadas, dos que partilham incentivos à extinção da assembleia da república e à aniquilação imediata de todos os deputados, dos que insistem em dizer que os políticos são todos iguais.

Felizmente, os eleitores ainda não são todos iguais. Ainda há alguns que insistem em ter uma palavra a dizer, e o que ontem disseram foi surpreendente. Após 3 anos de sobrevivência difícil, de sacrifícios impensados, de medidas que trouxeram tantos milhares de portugueses para a rua em protesto, seria de esperar uma adesão em massa à suposta alternativa. Mas à "mudança" os portugueses disseram Nim.

Enquanto ouvia os resultados e as declarações, só me lembrava do serpentear que os balões fazem quando os desapertamos. Dão voltas e mais voltas enquanto perdem todo o gás que lhes resta. Não se arranja uma botija de oxigénio nova?

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Tranglomango

Ultimamente tenho falado várias vezes nesta história e pouca gente sabe do que estou a falar. Uma amiga acabou de a publicar no Facebook e eu aproveitei. Aqui fica.

Eram doze moças donzelas
todas forradas de bronze
deu o trangalomango nelas
não ficaram senão onze.

Dessas onze que elas eram
foram lavar os pés
deu o trangalomango nelas
não ficaram senão dez.

Dessas dez que elas eram
foram cavar numa cova
deu o trangalomango nelas
não ficaram senão nove.

Dessas nove que elas eram
foram amassar biscoito
deu o trangalomango nelas
não ficaram senão oito
.
Dessas oito que elas eram
todas usavam barrete
deu o trangalomango nelas
não ficaram senão sete.
Dessas sete que elas eram
foram cantar por dez réis
deu o trangalomango nelas
não ficaram senão seis.

Dessas seis que elas eram
fecharam a porta ao trinco
deu o trangalomango nelas
não ficaram senão cinco.

Dessas cinco que elas eram
comeram arroz com pato
deu o trangalomango nelas
não ficaram senão quatro.

Dessas quatro que elas eram
voltaram lá outra vez:
deu o trangalomango nelas
não ficaram senão três.

Dessas três que elas eram
foram lá por essas ruas:
deu o trangalomango nelas
não ficaram senão duas.

Dessas duas que elas eram
foram apanhar caruma
deu o trangalomango nelas
não ficou senão uma.

Dessa uma que ela era
foi viver para a cidade
deu o trangalomango nela
não ficou senão metade.

Dessa metade que ela era
foi brincar com um pião
deu o trangalomango nela
acabou-se a geração

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Dia Internacional dos Monumentos e Sítios na BPE

A Biblioteca Pública de Évora vai comemorar o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. A 18 de Abril (Sexta-feira, feriado) haverá visitas guiadas ao interior da BPE, às 14h30 e às 16h00.

Venha conhecer o nosso fundo documental, acompanhar o percurso dos livros desde a sua chegada até ao balcão de empréstimo e compreender a forma como estão organizados na estante.

As inscrições podem ser feitas através do telefone 266 769 330 ou pelo endereço de email bpevora@bpe.pt

Venha visitar-nos!

terça-feira, 8 de abril de 2014

Alexandra Lucas Coelho, prémio Associação Portuguesa de Escritores

Eis parte do discurso de aceitação:

Estou a voltar a Portugal 40 anos depois do 25 de Abril, do fim da guerra infame, do ridículo império. Já é mau um governo achar que o país é seu, quanto mais que os países dos outros são seus. Todos os impérios são ridículos na medida em que a ilusão de dominar outro é sempre ridícula, antes de se tornar progressivamente criminosa.
Entre as razões porque quis morar no Brasil houve isso: querer experimentar a herança do colonialismo português depois de ter passado tantos anos a cobrir as heranças do colonialismo dos outros, otomanos, ingleses, franceses, espanhóis ou russos.
E volto para morar no Alentejo, com a alegria de daqui a nada serem os 40 anos da mais bela revolução do meu século XX, e do Alentejo ter sido uma espécie de terra em transe dessa revolução, impossível como todas.
Este prémio é tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por um político, Cavaco Silva, que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao salazarismo do que ao 25 de Abril, a começar por essa vil tristeza dos obedientes que dentro de si recalcam um império perdido.
E fogem ao cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho, pois, que este presidente se faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país. No país que tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se deus quiser”.
Não sou crente, portanto acho que depende de nós mais do que irmos indo, sempre acima das nossas possibilidades para o tecto ficar mais alto em vez de mais baixo, Para claustrofobia já nos basta estarmos vivos, sermos seres para a morte, que somos, que somos.
Partimos então do zero, sabendo que chegaremos a zero, e pelo meio tudo é ganho porque só a perda é certa.
O meu país não é do orgulhosamente só. Não sei o que seja amar a pátria. Sei que amar Portugal é voltar do mundo e descer ao Alentejo, com o prazer de poder estar ali porque se quer. Amar Portugal é estar em Portugal porque se quer. Poder estar em Portugal apesar de o governo nos mandar embora. Contrariar quem nos manda embora como se fosse senhor da casa.
Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página”.
Este país é dos bolseiros da FCT que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar.
Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não temos alternativa.
Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil, do que qualquer discurso oco dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura.
Este país é do Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa, e depois a levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou 7000 livros, uma tonelada, para um 11º andar, que era o que dava para pagar de aluguer, e depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado caro. Este país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual presidente da República.
E é de quem faz arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de quem não cruzou os braços quando o governo no poder estava a acabar com o cinema em Portugal. Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa conferência de imprensa no Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas presentes como 2012 ia ser o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância, autores, escritores, artistas sem dinheiro para pagarem dividas à segurança social, luz, água, renda de casa. E tanta gente esquecida. E ainda assim, de cada vez que eu chegava, Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se, inventavam, aos altos e baixos.
Não devo nada ao governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui Horta que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.
Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.
Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para acabar, sabemos, Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes.

O sítio mais feliz de Portugal



Enquanto espero, vejo-os chegar. Percorrem o corredor com o nervoso miudinho de quem chega ao local onde é esperado. Do outro lado, alguém se manifesta. Sorriso rasgado, vê chegar aquele que espera. Encontram-se neste ponto. Abraços, beijos, afectos tomam o lugar da saudade que apertava o peito ainda há bocadinho. Ali só há reencontro e alegria.

É só um bocadinho de chão, simples, sem pretensões. Fica no terminal de chegadas do aeroporto de Lisboa e é bem capaz de ser o sítio mais feliz de Portugal.

domingo, 6 de abril de 2014

A "animação" nas Bibliotecas Públicas

Pergunto muitas vezes a mim própria se, na ânsia de chamar gente à Biblioteca, não estamos a transformá-la num gigantesco ATL. E, desses participantes entusiastas que gastam material que não temos dinheiro para comprar, quantos se tornam leitores?

Algures, há um risco que separa a promoção da leitura e a disponibilização do acesso ao conhecimento da "festivaleirice". Convinha procurá-lo.

Adenda: A conselho da Manuela Barreto Nunes, aqui deixo um artigo para todos lermos: http://bid.ub.edu/02comell.htm

 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Onde há de tudo, também há disto

Há uns dias, tive nas minhas mãos um livro. Parece que é um romance, mas por via das dúvidas os senhores da editora escreveram isso na capa, não fosse alguém desconfiar. Chama-se O primeiro alquimista, e diz que é uma história de amor e coragem na idade do bronze em Portugal.

Não fiquem já espantados, de onde isto saiu ainda há mais:

"Breia sabia que não conseguiria continuar a correr assim durante muito mais tempo. Olhando para o sopé do declive que começara a subir viu que os dois portadores-de-machado que a seguiam havia mais de meia lua estavam demasiado perto."

Com uma introdução destas, quem é que não decide imediatamente passar a próxima meia lua (seja lá isso o que for) a devorar esta literatura de alto gabarito? E os diálogos? Oh senhores, os diálogos...!

"- Vejo por entre as giestas algumas grandes lajes de pedra-cinzenta (e depois tem uma nota de rodapé a explicar que é granito) e... afloramentos de pedra-luz? (e outra nota a explicar que são cristais de quartzo hialino, que é uma coisa que fica sempre bem num romance)"

Também tenho uns afloramentos, mas a Biblioteca tem de preservar tudo o que lhe é confiado, por isso vou esperar que me passem.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Hoje, na BPE

Estou na Biblioteca. Onde habitualmente reina o silêncio e a tranquilidade hoje há risos, vozes e correrias. Na sala de cimélios, sempre habitada por investigadores mais ou menos sisudos que analisam com rigor documentos com vários séculos, canta-se à alentejana. "Olh'a laranja da China..."

Na sala de exposições, sob o olhar de Florbela Espanca, mecanismos movem-se como por magia, por acção da luz solar, ainda que seja um sol "fabricado". Ao lado, na hemeroteca, há vulcões em erupção e fósseis de dinossauros.

Sobe-se a escada. Histórias e histórias sem fim, plateias atentas e concentradas. Cá fora, no Bibliomóvel, há mais histórias e actividades. Ao lado, no Museu, nascem pequenos pintores e arqueólogos.

Por todo o lado há meninos, meninas. Alguns dizem-me que já cá tinham vindo uma vez. Peço-lhes que voltem, que tragam os pais. Caras espantadas: "Os meus pais também podem vir?"

É um dia especial. É o Dia do Livro Infantil, na Biblioteca Pública de Évora.













Com o nosso agradecimento à Câmara Municipal de Évora, ao Grupo de Cantares de Évora, à Lógica EM, ao Centro de Ciência Viva de Estremoz, ao Museu de Évora, à APPACDM de Évora, à Junta de Freguesia do Bacelo e Nossa Senhora da Saúde e aos contadores Sílvia Chambino, Rui Melgão, Bru Junça e Susana Coelho.