terça-feira, 25 de agosto de 2015

Books change lives ou o alimento para a alma

Podia dizer aqui tanta coisa, a começar pelo facto de isto ser a prova de que uma biblioteca é o que "Faz" e não o que "É", mas vou deixar isto para outro dia.

No  meio do campo de refugiados em Calais nasceu uma biblioteca. E funciona. Não tem um edifício com projecto de arquitectura premiado nem estantes homologadas. Tem livros que nasceram de doações porque, e tomem bem atenção às palavras que se seguem, "a biblioteca é um dos serviços considerados essenciais que é prestado com base no voluntariado". Eu vou repetir para os mais desatentos: a biblioteca é um serviço essencial, mesmo numa situação limite como é um campo de refugiados.

A sua criadora, uma professora britânica, não precisou de um único cêntimo dos muitos milhões que já foram disponibilizados para construir muros que vão separar os europeus do resto do mundo. Precisou apenas de vontade para "começar algo que pudesse oferecer ajuda real e prática". Além do serviço de leitura, a biblioteca que nasceu na selva, como é designado o campo de refugiados, "ajuda os que querem aprender a ler e escrever em inglês, a candidatar-se a empregos ou a preencher formulários".

É o alimento para a alma. É a biblioteca a exercer a sua missão da forma mais pura e vital, aqui e agora, em Calais, como há um ano, em Ferguson, nos EUA.

Fiquei emocionada. E fiquei agradecida por ter tido, algures num momento da minha vida, a oportunidade de ser bibliotecária.

Toda a história e mais histórias de bibliotecas que ajudam a mudar vidas aqui.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Entre as brumas da memória

Se vivessemos num país a sério,  todos os portugueses saberiam o que se comemora hoje. Todos conheceriam a importância deste dia para a nossa História,  para a nossa cultura,  para tudo o que Portugal viveu e foi desde este mesmo dia, há 600 anos atrás.  Mas não vivemos num país a sério e o sentimento de orgulho que deveria encher-nos o peito hoje foi substituído por uma imensa e dolorosa vergonha pela ignorância,  insolência,  absoluto desrespeito e falta de sentido de Estado e até de patriotismo de quem nos governa.

Há 600 anos fomos maiores que o mar, maiores que o mundo que haveriamos de dar a conhecer e partimos para a construção de uma nova era. Há 600 anos engrandecemos Portugal e demos o primeiro passo na construção de um Império.  Há 600 anos, num dia como o de hoje, conquistámos Ceuta, a chave do Mediterrâneo.

Citando o jornal Público de hoje:

Na madrugada de 21 de Agosto de 1415, quando o sol começou a nascer, os habitantes de Ceuta podiam ver na linha do horizonte que se perdia no mar um cenário tão grandioso como assustador.
A pouca distância da costa, mais de 200 naus, fustas e galés preparava-se para desembarcar os primeiros soldados da expedição de uns 20 mil homens que D. João I, rei de Portugal, tinha armado para conquistar a cidade. Pela primeira vez na sua história de menos de quatro séculos, os portugueses arriscavam sair do seu ancoradouro europeu e conquistar um pedaço do continente africano que, sob diferentes conceitos e ideologias, haveria de permanecer no seu consciente colectivo até 1974. Poucas datas da história nacional encerram o mesmo peso e o mesmo significado desse dia de há 600 anos, quando Ceuta caiu nas mãos dos portugueses após uma batalha que durou entre as seis da manhã e as sete e meia da tarde.

Bibliotecária de plantão III

Com direito a reportagem fotográfica e tudo!




Manual de (sobre)vivência para adultos

Nota prévia:
Este texto não é da minha autoria. Subscrevo e considero-o muito pertinente. Copiei-o daqui.


O que é importante ouvir nem sempre é agradável. Transmitimos-lhe 20 factos dos quais certamente será bom que se consciencialize mas que lhe deixarão um gosto amargo.

1. Os seus pais estarão cada vez mais distantes. Ainda quererão que você faça o que eles querem que faça. Está tudo bem, você não tem que o fazer. Você não é obrigado. Você acabará por chegar a um ponto em que, na verdade, saberá melhor que os seus pais – e não há nada de errado com isso. Acontece.

2. Não só o mundo já não gira à sua volta – como nunca girou.

3. Haverá pessoas que irão ver o seu desconforto ou dor e não se irão importar, e pensarão que você merece, e sentir-se-ão divertidas ou excitadas com isso.

4. As pessoas não lhe devem a sua ajuda.

5. Você não está sob qualquer obrigação de permanecer numa relação com alguém que o tenha prejudicado, mesmo que seja um dos seus pais ou companheiro, ou mesmo que seja alguém dependente de si. Você tem direito aos seus limites.

6. Se você continuar a ter desentendimentos com várias pessoas sobre as mesmas coisas perceba que existe apenas um fator comum: você. Como um amigo meu disse uma vez, há muito tempo atrás: se uma pessoa lhe disser que você é um idiota você poderá ignorá-la. Se seis ou oito pessoas razoavelmente equilibradas expressarem a opinião de que você é um idiota, provavelmente estarão certas.

Editado para acrescentar, porque várias pessoas têm questionado “E quando eu desafio as pessoas que estão a prejudicar outras?” Observe a frase “pessoas razoavelmente equilibradas” como parte da condição de “você é um idiota”. As pessoas que prejudicam outras não são, por definição, pessoas razoavelmente sólidas.

7. Só porque você é um adulto com o seu próprio negócio e o seu próprio sofrimento não significa que tenha o direito de ignorar o sofrimento dos outros. A vida de adulto não vem acompanhada do direito de ser egocêntrico. Deixe isso para a adolescência, onde pertence.

8. A forma como você trata aqueles que não o beneficiam demonstra o seu caráter. A forma como você trata os sem-abrigo ou empregados de balcão é muito mais indicativa da pessoa que você realmente é do que a forma como você trata o seu chefe.

9. Se você for colocado na posição de escolher entre uma promoção e uma amizade, escolha a amizade.

10. Se você quiser que o mundo seja um lugar melhor o trabalho começa consigo. Você também terá que o fazer.

11. Por vezes, quando você ajuda alguém essa mesma pessoa irá ajudá-lo em troca – mas nem sempre. Por vezes não será capaz de o fazer. Por vezes não se apercebe disso. Por vezes não consegue aceitar que precisava de ajuda por isso irá ignorá-la. A sua ajuda tem que ser dada sem condições – ou então não será ajuda, será apenas chantagem.

12. As pessoas irão discordar de si. As pessoas não irão gostar de si. Mas há pessoas que irão concordar consigo e gostar de si. Certifique-se de que contata bastante com um grupo que gosta de si e modere o tempo junto do grupo que não gosta, para manter uma perspetiva precisa.

13. Muitas pessoas da sua idade ainda não aprenderam estas lições de vida – mas isso não o liberta das suas obrigações de se comportar como um adulto. Poderão nunca aprender estas lições, mas você tem que aprender.

14. Por vezes você poderá ajudar alguém a aprender uma ou mais destas lições. Por vezes isso poderá contribuir para terminar a amizade. As pessoas não gostam destas lições – envolvem verdade, mudança e dor. Não force mas esteja ciente – você poderá ser a alavanca que irá mover o mundo delas algum dia, apenas por compreenderem estas lições e agirem sobre as mesmas. Por vezes faz parte do seu trabalho ser o médico, não importa o que a Alanis Morissette disse.

15. Não atribua a malícia o que pode ser adequadamente explicado por estupidez ou ignorância.

16. Por vezes você poderá ser o momento de aprendizagem de alguém, quer goste ou não. Lide com a situação o mais graciosamente que conseguir.

Editado para acrescentar, considerando que muitas pessoas perguntaram o que “momento de aprendizagem” é: você poderá ser a primeira pessoa X que alguém conhece (onde X pode ser “pessoa de cor”, “autista”, “judeu”, “gay”, “estrela rock”, etc.) e esse alguém quererá respostas a perguntas que poderão parecer parvas, inúteis ou até mesmo ofensivas para si. No entanto, nesse momento, você é o momento de aprendizagem dessa pessoa. Você tem a oportunidade de fazer a diferença ao educá-la em relação a algo sobre o qual não tem conhecimento que você tem.

17. A confiança depende do contexto, não é algo absoluto.

Editado para acrescentar pois diversas pessoas perguntaram o que quero dizer: Poderei confiar em si para guardar as minhas chaves de casa enquanto vou de férias mas poderei não confiar em si sozinho com os meus filhos pois sei que se enfurece com crianças e não quero os meus filhos em perigo. Poderei confiar que você irá aparecer a tempo da festa mas não poderei confiar que se irá lembrar de trazer o que lhe pedi que trouxesse pois sei que você é bom a chegar a horas mas não é bom a lembrar-se do que lhe pediram além disso.

18. Tente lembrar-se de ter compaixão. Por vezes é difícil mas ajuda – e muitas pessoas esquecem-se.

19. Você não pode resolver os problemas das outras pessoas pelas mesmas. O máximo que você pode fazer á apontá-las na direção certa, entregar-lhes ferramentas que as ajudem ou dar-lhes o medicamento de que necessitam. Você não pode, no entanto, fazê-las utilizar essas ferramentas ou tomar o medicamento. Conheça os limites da sua responsabilidade em relação aos outros.

20. A menos que os valores de outra pessoa se encontrem ativamente ou diretamente a prejudicá-lo você não tem qualquer liberdade de lhe exigir que os ignore e substitua. Deixe isso e siga em frente.

Editado para acrescentar pois diversas pessoas questionaram: isto significa, essencialmente, “escolha as suas próprias batalhas”. Certamente, se as crenças de alguém prejudicarem outros, confronte-o. Mas se não o estiverem a prejudicar (apenas a deixá-lo desconfortável) e se mais ninguém estiver a ser prejudicado, deixe-o seguir.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Bibliotecária de plantão II

Depois de registarmos os livros que vai requisitar, fica a falar comigo. Tem 6 anos e uma conversa que nunca mais acaba. Agradece o marcador de livros que lhe ofereço, diz que é uma grande ajuda porque "às vezes o pai chama para jantar" e ela ainda não acabou de ler.

Nem sei bem como, a conversa foi parar à Casa-forte de BPE. Explico-lhe o que é e digo-lhe que só eu tenho a chave e o código secreto. Não resisto e levo-a lá. Nem um metro de gente, ajuda-me a empurrar a porta pesada e mal entra, deixa escapar: "Este é o sítio mais fixe do mundo!".

Bibliotecária de plantão

Pelo terceiro dia, estou de serviço na portaria da Biblioteca. O reduzidíssimo quadro de pessoal e a necessidade de gozo de férias a isso obrigam. Não pensem que estou contrariada, muito pelo contrário. Estou até a considerar a hipótese de me mudar definitivamente para este posto. Ok, então só algumas manhãs ou tardes!

Há quem se surpreenda por me ver aqui. "Então, mas a bibliotecária é que está ao balcão?" ou "Não esperava nada encontrá-la aqui" estão entre as muitas reacções de surpresa destes dias, o que me tem feito pensar no que as pessoas esperam de um bibliotecário.

Na minha opinião, não se é melhor profissional por estar fechado no gabinete, afundado em reuniões e despachos. É aqui, no terreno, a meter as mãos na massa, que se aprende e se evolui. É aqui que tudo se passa e que verdadeiramente sentimos o pulsar da biblioteca. Atendemos os leitores, acolhemo-los na nossa casa e percebemos as suas preferências e as suas dificuldades. Estabelecemos laços, criamos empatia, fazemos acontecer leitura, e é tão bom!

Além disso, ninguém pode desempenhar este papel melhor do que o bibliotecário responsável. Ninguém tem, de forma tão completa, a visão de conjunto sobre a biblioteca e os serviços que presta. Ninguém lhe conhece tão bem os fluxos, os pontos de fricção, as possibilidades de solução. E permitam-me a franqueza: se assim não é, algo está mal.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Da desilusão

Que fazer quando nos desiludimos? Quando percebemos os interesses ocultos por detrás de atitudes, gestos e palavras? Quando, depois de todo o investimento em tempo, emoções e sentimentos,  percebemos que era uma rua de sentido único?  Quando as palavras que são ditas à nossa frente com sorrisos contrariam as acções que os nossos olhos vêem praticar, ou pior ainda, que são praticadas longe dos nossos olhos?

E que fazer quando nos desiludimos connosco? Quando quebramos a promessa mil vezes feita? Quando cedemos ao que sabemos não ter pernas para andar e pior, quando deitamos orgulhosamente fora o que nos fazia tão felizes? 

Que fazemos com a desilusão?  Choramos a nossa,  encolhemos os ombros com a fatalidade da desilusão que causámos e seguimos em frente. Levamos a bagagem mais leve, porque ficam para trás aqueles em quem já não confiamos. 

Assim mesmo. Com crueldade e frieza. Dizem que se chama sobrevivência. Talvez seja só desumanidade, a desilusão da humanidade.