quarta-feira, 8 de junho de 2011

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega 
para afastar o frio de quatro paredes. 

Gastámos tudo menos o silêncio. 

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mão à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas 
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras 
e não encontro nada. 

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! 

Era como se todas as coisas fossem minhas: 
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! 
e eu acreditava. 
Acreditava, 
porque ao teu lado 
todas as coisas eram possíveis. 

Mas isso era no tempo dos segredos, 
no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
no tempo em que os meus olhos 
eram peixes verdes. 
Hoje são apenas os meus olhos. 
É pouco, mas é verdade, 
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras. 

Quando agora digo: meu amor..., 
já se não passa absolutamente nada. 
E no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certeza 
de que todas as coisas estremeciam 
só de murmurar o teu nome 
no silêncio do meu coração. 

Não temos já nada para dar. 
Dentro de ti 
não há nada que me peça água. 

O passado é inútil como um trapo. 
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
Eugénio de Andrade

1 comentário:

  1. Ele é dos meus poetas preferidos!
    Tem uma sensibilidade rara!

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