terça-feira, 30 de dezembro de 2014

António

Chegaste de mansinho. Um dia entrei em Cimélios e tu estavas lá, sentado naquela que haveria de se tornar a tua cadeira. Não me lembro quando foi a primeira vez que te vi. Lembro-me da andar a instalar o software e te pedir desculpa pelo incómodo, sempre a entrar e sair da sala e a falar com a colega, num espaço tradicionalmente votado ao silêncio.

Depois comecei a encontrar-te quando saía a correr, sempre atrasada, para almoçar. Por essa hora, tu já tinhas almoçado e estavas ali pelo átrio, a falar com os colegas. Todos pareciam conhecer-te e todos me vinham fazer pedidos:
"Podemos deixar entrar o Dr. António antes das 9 e meia? Ele precisa de aproveitar o tempo."
"Podemos deixar os documentos do Dr. António na passagem na sexta-feira à noite? Ele assim aproveita o sábado de manhã para trabalhar"
"Podemos digitalizar alguns fólios para o Dr. António? Ele mora tão longe, vai a casa, precisa de levar material para trabalhar".
E um dia,"podemos convidar o Dr. António para o jantar da Biblioteca? Ele está cá sozinho..." E tu foste e acabaste a noite a tentar convencer-me que ficar sozinho não é opção. Mas era a minha opção.

A seguir foram os convites para um café. Hoje não, porque estou cansada. Hoje não, porque tenho que fazer. Hoje não, porque tenho visitas. Hoje não, porque não posso. Hoje não, porque não tenho coragem. Mas não desististe, nem mesmo quando eu insistia em complicar as coisas.

Sim, sei que te estás a rir por eu ter escrito esta frase no passado. Eu ainda complico as coisas, não é? Ainda tenho medo, ainda acho que estas coisas não me acontecem, ainda vou, no meio dos dias felizes, buscar as minhas pedras e reconstruir a minha muralha. Mas esbarro em ti, porque tu estás lá.

Parabéns!  Um beijo.

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