segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Das gerações



No passado, os dias eram perfeitos. Estava sempre sol, mas não havia seca porque chovia secretamente quando não estávamos a ver, ou quando dava jeito a um punhado de crianças a quem apetecia chapinhar na água ou estrear as galochas novas.

No passado, a vida era muito difícil, mas todas as pessoas que conhecíamos eram corajosas e determinadas e resolviam os problemas com firmeza e diplomacia, sem nunca hesitar quanto ao caminho certo.

No passado, venciam-se obstáculos,  matavam-se dragões e construíam-se igrejas, palácios e bibliotecas.

No passado, os pais educavam muito bem os filhos e os chefes ensinavam aos novatos tudo o que sabiam, para que quando se retirassem, uns e outros pudessem seguir o seu caminho.

E, depois, também eles passavam a ser chefes e pais, a construir bibliotecas, palácios e igrejas, a matar dragões e vencer obstáculos. Também eles resolviam problemas com diplomacia e firmeza, sem hesitações, corajosos e determinados perante as dificuldades da vida, sob o sol que brilhava sempre, menos quando as crianças que um dia os iriam substituir queriam chapinhar na água.

Azar o meu, nasci no presente. Problemas por resolver,  imensas dúvidas, já não há dragões para matar e até as estações do ano enlouqueceram.

domingo, 15 de outubro de 2017

Para conseguir seguir em frente

Diz o ditado que às vezes, é preciso dar um passo atrás para poder dar dois para a frente.

Não sei quando ou quantos passos poderei dar em frente.  Sei que agora preciso de dar vários passos atrás,  em vários quadrantes. Reduzir tudo ao essencial, repensar, reavaliar. Perceber o que posso, devo ou quero fazer. Escolher. Ser útil. Fazer sentido.

Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcançares
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

[Miguel Torga, Diário XIII]


Nenhum homem é uma ilha.

No momento em que passam quatro anos sobre aqueles dias loucos e felizes da minha transferência para Évora, apercebo-me do impacto que a...