terça-feira, 20 de outubro de 2020

Dias que também passam

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São 23h09 quando dou por terminado um dia muito, muito difícil. 
 
Durante todo o dia só me apeteceu fugir, trocar de lugar com alguém, fingir que não era comigo, qualquer coisa.
 
São 23h09. Olho para ela e sei que ela conta comigo, que espera de mim coragem e força.
 
É linda, a minha Biblioteca. Mesmo em dias muito maus, é a melhor Biblioteca do mundo e eu ainda me belisco para acreditar que estou aqui.

domingo, 23 de agosto de 2020

Politicamente incorrecto

Chega-me este texto, por mão amiga, e parece-me óptimo para dar corpo a uma série de (mais ou menos corajosos) pensamentos contra a corrente do entorpecimento espiritual/intelectual.

sábado, 22 de agosto de 2020

Coesão territorial

 

63 milhões

63 milhões para particulares e empresas que apresentem provas documentais (ai, ai) de deslocação para o interior. Entretanto, como já quase não há nada para fechar, também não se pensa em reabrir: escolas, centros de saúde, postos de correios, postos de segurança, repartições de finanças ou tribunais. Não se arranjam estradas nem se reabrem linhas de caminho de ferro. Nem se melhoram ou rentabilizam as existentes.
Nada.

Arranja-me aí umas declarações e levas 1900€ por mês durante 3 anos. Vais viver para o interior? Então são 4000, que lá os arrendamentos estão baratinhos. Ao fim de 3 anos, voltas e pagamos o mesmo a outros.

Quem aqui vive e escolheu trabalhar para a região, quem tem que mandar os filhos para os grandes centros urbanos para poderem estudar, pagando aí alojamentos a preços proibitivos, quem, desde sempre, tem obrigatoriamente que usar carro para se deslocar porque não há transportes públicos, quem teve toda a vida que viajar uma hora, pelo menos, sabe deus por que estradas, para chegar a um hospital, não leva nada. Nem vê a situação melhorar.
Nada.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

A Biblioteca Pública de Évora pela mão dos seus leitores #1

A nossa Leitora Sandra Gonçalves de Gaia fez uma pequena reportagem sobre a BPE, durante a realização das obras e reorganização dos espaços, que publicou no seu canal Youtube.

Esta é uma parte da entrevista, com a informação sobre a forma como o nosso empréstimo domiciliário funcionou durante a obra de reabilitação do edifício e em tempos de pandemia.

Divulgamos o trabalho realizado, com os nossos agradecimentos à Sandra Gonçalves. É bom ter Leitores assim, tão comprometidos com a sua Biblioteca.

 

domingo, 16 de agosto de 2020

100 anos de Bukowski

Charles Bukowski
16 de agosto de 1920 - 9 de março de 1994
______________
 

Então queres ser escritor?

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.

a menos que saia sem perguntar do teu
coração da tua cabeça da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.

se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.

se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.

se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.

se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.

se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.

se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.

a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.

a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer

por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.
e nunca houve.

 

(Alguém sabe a morada da Chiado Editora?)

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Pai

Que os dias continuem a suceder-se, como se nada se tivesse passado, é o mais estranho.
Que o sol nasça e se ponha de forma milimétrica, à hora marcada no calendário, como se ainda te fosse encontrar na rotina dos dias, no cumprimento das obrigações, é quase uma traição.
Como dizia o Sebastião da Gama, a propósito do outro extremo da vida, do nascimento, "os homens não se espantaram, não enlouqueceu ninguém", tudo continuou na normalidade à nossa volta.
Só nós ficámos aqui, perdidos, desorientados, atordoados perante uma inevitabilidade que julgávamos poder adiar indefinidamente.
Hoje era o teu dia, Pai.
Hoje é o teu dia.

Para reflectir

 "Years and years", HBO, 2020

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

As pessoas fazem a Biblioteca

 O relacionamento pessoal como um recurso da Biblioteca Social.

"And with the future seeming so uncertain and riddled with more questions than answers, we can look to this one idea to help guide our work: connect with the people we interact with. Build trust. Share fear. Provide someone else with the opportunity to know that they have been heard, and for that moment, they are not alone. In doing so, we get outside of our own experience and can embrace the healing that comes from helping someone else".

A autora do artigo, Debra Keane, é Coordenadora da Área Social da Jefferson County Public Library, responsável pela resposta estratégica da Biblioteca às necessidades da comunidade e pela formação específica dos funcionários para lidar com as inúmeras questões sociais (doença mental, desemprego, sem abrigo, grupos marginalizados, violência doméstica, entre outros).

(partilhado de RNBP) 

Social Work in Public Libraries

domingo, 9 de agosto de 2020

Bibliotecas mudam vidas

 Via FEBAB

"O projeto de parques-bibliotecas de Medellín deu tão certo que os índices de violência caíram drasticamente e o município passou a ser reconhecido como cidade-modelo. Em um concurso realizado pelo The Wall Street Journal e pelo banco Citibank, em parceria com o Urban Land Institute, Medellín foi eleita a cidade do ano em 2013 devido às transformações sociais que realizou."

 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

BIBLIOTECAS: ESTAMOS DISPONÍVEIS




https://cartaabertabibliotecas.wordpress.com/

No dia em que as bibliotecas de todo o país podem voltar a reabrir ao público, mais de 100 mais de 400 personalidades de vários sectores da sociedade subscrevem a Carta Aberta "Bibliotecas: estamos disponíveis", que propõe mais atenção e maior articulação nas políticas públicas para a área das bibliotecas em Portugal, que constituem uma das maiores redes existentes em todo o território nacional.

Sou uma das subscritoras desta Carta, em conjunto com o Bruno Duarte Eiras, o João Guerreiro, a Manuela Barreto Nunes, o Miguel Mimoso Correia e o Nuno Marçal. Entendo-a útil e necessária. Embora reivindicativa, procurámos redigi-la num tom positivo e de proactividade, evitando cair na tentação fácil de pedir financiamentos ou atribuição de verbas. Elencámos medidas concretas, mas sobretudo reafirmámos a existência de uma rede de equipamentos de serviço público, que cobre todo o território e que pode e deve ser integrada nas políticas de desenvolvimento cultural, social e económico, especialmente no quadro de situações de crise como a que vivemos.

Em nome deste grupo, convido-vos a ler a carta aberta e, caso ela mereça a vossa aprovação, a subscrevê-la.

https://cartaabertabibliotecas.wordpress.com/

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Aos 50

De que é feita a felicidade? De instantes ou de memórias?

Queremos desesperadamente ser felizes, perseguimos os momentos especiais, as ocasiões perfeitas, as pessoas ideais. Quase sempre nos desiludimos, porque o problema está nas expectativas elevadíssimas com que procuramos a felicidade.

E depois, vêm as lembranças,  o que guardámos de momentos em que nada esperávamos e que nos deram tudo: alegria e gargalhadas, ansiedade e emoção,  tristeza, dificuldades e a superação. 

Faço hoje 50 anos. Apesar de manter a garra, a vontade de prosseguir e de lutar, reduzi muitíssimo as minhas expectativas... na expectativa de ser mais feliz. É contraditório,  claro, como o é quase tudo na vida. Já fui muito feliz, tanto quanto é possível ser. No top estão, indiscutivelmente, os dias em que cada um dos meus filhos nasceu; o dia em que, depois de milhares de visitas à Biblioteca Municipal de Moura como leitora, subi pela primeira vez aquelas escadas como Bibliotecária; e quando, a 2 de Janeiro de 2014 pus o pé no degrau de entrada da Biblioteca Pública de Évora como Bibliotecária da melhor Biblioteca do mundo.

Também tive momentos terríveis, em que me vi perdida e desorientada, sem chão,  sem rumo, sem esperança. É mais ou menos assim que me sinto de há uns tempos para cá. Depois de um ano horrível que me fez questionar seriamente a minha forma de agir e de estar na vida, despojada da minha âncora que é a Biblioteca a funcionar, o golpe final foi o desaparecimento do meu pai. O nosso relacionamento nem sempre foi fácil, mesmo sendo ele o homem que mais admirei em toda a vida, e essa combinação fez dele a pessoa que mais me moldou. Mas ficaram coisas por dizer e agora... já não há hipótese nenhuma.

Sei que a esta tristeza se segue a superação e que não estou e jamais estarei sozinha. Alguma coisa devo ter feito extraordinariamente bem para ter estes filhos que a vida me deu. Aqui estão, comigo, todos. Mesmo que agora seja difícil de ver, sei que no futuro me lembrarei deste dia e que aqui encontrarei a felicidade. 

Vamos embora, que ainda há tanto para fazer, tanto para viver!

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Nós e os outros

Ele, o irmão,  quase não fala. Abre a boca apenas para dizer dizer que não consegue dormir. Ela, a irmã, fala ao mesmo tempo. "Não dorme nada. Ouço-o levantar e mesmo que ele ponha o som da televisão baixinho, eu ouço. Anda aborrecido" e chega enfim ao assunto sobre o qual quer falar "Não vê a filha, como é que há-de andar?". Desfia o rosário. A menina já anda na escola e ele só esteve com ela uma vez. Vê-a pela janela quando ela vai a casa da bisavó,  que é lá perto. Sabe que disseram à filha que ele está em França,  emigrado. Ouviu falar, no programa da Júlia, de uma associação que ajuda pais assim, nesta situação. 

Entretanto perguntam-lhe pelo outro sobrinho. "Está lindo. E esperto! No outro dia a outra avó (mãe do pai) apareceu lá na escola, que o queria ver, aquilo era com intenção de o levar e fugir com ele... mas ele estava avisado, disse logo que aquela mulher não podia  falar com ele e que era melhor chamarem a Polícia".

Levanta o queixo orgulhosa e eu olho à volta a pensar se terei sido a única a reparar que o comportamento que descreve para o sobrinho é exatamente o mesmo de que se queixa relativamente à sobrinha. Dois pesos, duas medidas: a nossa e a dos outros.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A intenção era boa, mas o caminho não é por aí



 Querida Esquerda

Estou muito desiludida. Andámos uns anos na direcção certa, a forçar a durabilidade dos manuais escolares durante um determinado período de tempo, permitindo que irmãos de uma mesma família,  por exemplo, pudessem utilizar os mesmos exemplares em anos diferentes. As editoras foram rápidas a contornar a situação. Criaram os livros de fichas, alegadamente para evitar que os alunos escrevessem nos seus manuais, mas obrigando à compra de novos livros de fichas anualmente. Só que... os livros de fichas só eram vendidos nos chamados packs, ou seja, era preciso comprar novamente os manuais. Mas agora, assim embrulhados, em pacote, duplicavam de preço.

Apoiei a entrega de manuais escolares gratuitos. Além da óbvia garantia de acesso à educação para todos, o Estado assumia-se como O Comprador, ganhava poder negocial para enfrentar as estratégias puramente lucrativas das editoras. Adoptava igualmente uma postura pedagógica de reutilização, respeito por materiais comuns, pagos pelo erário público.

Mas eis que começam os protestos. Não da opinião pública, porque se esses tivessem peso, as condições das escolas seriam muito diferentes: temperatura confortável nas salas de aula, refeições decentes, pessoal auxiliar em número suficiente,  etc., etc. Os protestos que se fizeram ouvir foram outros: as editoras.

Portanto, aqui estamos: livros novos todos os anos, agora sim, oferecidos a todas as famílias.  Lucro garantido. E tudo isto na era digital, onde todos os procedimentos se desmaterializam e onde era tão fácil, pura e simplesmente,  eliminar os manuais escolares. Todos os materiais absolutamente necessários poderiam ser impressos nas escolas, à medida do professor e dos seus alunos. Isso sim, seria redução de papel e não a imposição ridícula ao número de folhas de papel que um serviço público  (escolas incluídas) podem gastar por ano.




Mãe

Vou herdar-lhe as flores, pedi-as às minhas irmãs. Um dos grandes amores da sua vida. Mas mãos dela, tudo florescia. O galho mai...