quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Será porque deixámos de saber escrever português?


Escreve-se "Por que devemos...". Mas nem uma única alma reparou. Autor, família, amigos, editor, revisor, impressor, ninguém. Sete edições disto e ninguém repara.

domingo, 27 de agosto de 2017

Quando os fins não justificam os meios



Em ano de eleições autárquicas,  a discussão política transferiu-se para paginas anónimas, alimentadas pela má-fé,  pela manipulação desenvergonhada da informação, pelo ataque pessoal, infame e vil. Todas elas, apesar de "anónimas", declaram o seu apoio a esta ou aquela candidatura e - o que é mais estranho - nenhum dos candidatos apoiados por essas páginas,  muito mais sujas que os caixotes do lixo que insistentemente fotografam, veio a público demarcar-se daquele lodo. Pelo contrário, incentivam (nalguns casos chegam ao ponto de as gerir e alimentar), são coniventes ou mantêm um silêncio cúmplice com aquelas fossas sanitárias a céu aberto. Mesmo assim, acham que merecem o nosso voto.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Azul para os meninos, cor-de-rosa para as meninas

Por que não? Acho que andamos a perder demasiado tempo indignados com a igualdade de géneros que são efectivamente diferentes, quando o que nos devia mover era a igualdade de direitos entre géneros.

Isto inclui a liberdade de escolher azul ou cor-de rosa, dinossauros ou bonecas, mas também inclui o direito a salário igual para trabalho igual, igualdade de oportunidades  no acesso a qualquer posto profissional ou político (em vez das quotas obrigatórias) e até o direito simples e inalienável de uma rapariga andar sozinha na rua sem ter que ouvir piadinhas de mau gosto.

Além do mais, a minha cor preferida é o verde. E tenho direito a escolhê-la.

(Adenda: Senhor Ministro que "aconselhou" a retirada dos livros do mercado:  não se esqueça de "aconselhar" o cancelamento da educação sexual nas escolas, não vão as crianças perceber que os rapazes são diferentes das raparigas!)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Entretanto, na Biblioteca Pública de Évora...

... rezamos para que, apesar da seca, o inverno não venha chuvoso, sob pena de o telhado e tudo o que ele cobre não chegarem a ver a Primavera.


A grande notícia do verão em matéria cultural foi anunciada na Biblioteca da Ajuda pelos ministros da Cultura e dos Negócios Estrangeiros. Portugal foi o país convidado da Feira do Livro de Guadalajara, segunda cidade do México, em 2018. Manuela Júdice, militante do Partido Socialista e ex-diretora da Casa Fernando Pessoa, já aceitou o convite para comissariar tal iniciativa e vai procurar gerir um orçamento de dois milhões e meio de euros. Não vai ser fácil fazê-lo, adiantou. A Itália, convidada em 2008, gastou três milhões. Portugal fica reduzido a urna verba inferior, o que em si mesmo é um problema, pois há tanta coisa para mostrar.
Não só os livros, mas também a música e todas as artes. Um autêntico festival, a pretexto do livro! Porém, mesmo contando com os sacrifícios impostos por uma verba aparentemente modesta, valerá a pena apertar o cinto e seguir em frente.
Os editores já manifestaram o seu contentamento com mais esta iniciativa. A memória da participação de Portugal na Feira de Bogotá, em 2013, ainda está fresca, pelo menos para uns quantos que lá foram. E os que não foram, bem teriam gostado de ter sido incluídos no convite.
Talvez surja agora a oportunidade de seguir viagem e participar no cortejo... Nunca se sabe. De tudo isto tornei conhecimento através da leitura de um artigo objetivo, sem ponta de ironia, publicado no jornal "Público" (26/7/2017).
Ao lê-lo, lembrei-me do "Anatómico Jocoso" de Frei Lucas de Santa Catarina. É que o carácter insólito da notícia mais parecia uma conversa de além-túmulo que, se não me falha a memória, se encontra na obra do famoso académico setecentista. Também me passaram pela cabeça as paródias no género Popular de testamentos da velha, de que há exemplos na coleção de folhetos dos séculos XVII e XVIII que D. Carolina Michäelis gostava de consultar na Biblioteca da Ajuda. Imaginei, então, o cortejo para Guadalajara. A sua organização, sem miserabilismos nem coisas chilras, pelo contrário, tudo à grande e à tromba estendida. O elenco, as precedências, os salamaleques, os favores e o pagamento dos fretes.
O recurso, a preceito, a agências especializadas na organização de festivais, com concursos feitos à pressa. Os escritores, os intelectuais e alguns, raros, pensadores que não param de pensar, mesmo em bolandas, conforme a imprensa tem noticiado, nos últimos tempos. Mas quem irá escolher os felizardos que, com um sombrero na cabeça, irão cantar em uníssono La Cucaracha? A comissária? E qual o critério para o fazer? Vão os que se oferecerem primeiro? Proximidade política? Amizades? A qualidade da obra acima de tudo? O certo é que, no couce do cortejo, em lugar de honra, lá irão os dois ministros, contentíssimos, porque foram capazes de satisfazer alguns grupos de pressão da área da cultura. Mas o seu a seu dono, pois foram eles, os ministros, que desencantaram os dois milhões e meio de euros necessários para pagar as viagens e a organização do certame.
Porquê toda esta azáfama para seguir viagem? Porque se impõe dar corpo a uma cultura do espetáculo, áulica e de circunstância.
Uma política cultural que, na boa tradição do Estado Novo, aposta no foguetório das comemorações e das exposições, a pretexto da inevitável internacionalização, e do espanto que conseguirá causar lá fora. E que, ao mesmo tempo, descura, no que ao livro diz respeito, tudo o resto: bibliotecas, arquivos, defesa do património bibliográfico e incentivos à edição, ligação às escolas ou aos museus e suas respetivas livrarias, etc. Em tudo isto, pressente-se o esbanjar à tripa forra e à pressa, através de comissões, comissários políticos e contratos excecionais.
Tudo ao revés de uma política que dinamize as instituições e os que a elas se dedicam no quotidiano.
Com todas as letras, o que mais me choca é, sobretudo, que não exista uma política de valorização de quem trabalha nessas mesmas instituições. Que se contentem com a segurança do funcionalismo público, fora do mundo da precariedade, todos os que contribuem com o seu esforço para fazer, no dia a dia, essas mesmas instituições. Quanto ao resto, que se danem com ordenados de miséria, sem progressões, sem formação, sem condições para a passagem do testemunho em instituições que têm uma vida própria que não pode ser descontinuada.
Sem cheta! É a política do banquete numa sociedade onde se tem fome.
O esbanjar no acontecimento único, mas sempre com a capa do queixume de que até se trata de uma verba parca, muito limitada: a viagem para Guadalajara! O facto de dois ministros virem à Biblioteca da Ajuda agora sob a alçada do palácio com o mesmo nome e, cá para mim, em risco de ser desmantelada para servir de cenário para eventos de encher o olho anunciar que vão ser gastos uns escassos dois milhões e meio no cortejo de Guadalajara é uma suprema ironia. Nos tempos difíceis em que vivemos, haveria que definir as prioridades. E o mais escandaloso é que não se consiga compreender qual o sentido dessa mesma iniciativa, no interior de uma estratégia relativa à política cultural do livro e sua internacionalização. Que fique também claro o paradoxo: Foi na Biblioteca da Ajuda que se anunciou o fim do miserabilismo e o retomar de uma cultura do foguetório, mas é também nela que se rapa, no inverno, um frio insuportável.
Quem lá quiser ir ler as obras do dito Frei Lucas tem de ser o primeiro a montar-se a cavalo no único aquecedor a óleo da sala de leitura. Há anos que a mesma biblioteca, segundo os caprichos e a profunda ignorância de sucessivos governos, está descapitalizada, sem quadros, sem uma política séria de catalogação, sem vida. Uma vergonha frente a um património de livros e manuscritos que já esteve sob a direção de Ramalho Ortigão e onde a erudita Carolina Michäelis trabalhou.
Poderia acrescentar outras coisas do que haveria a fazer, a começar pelo abandono a que foi votada a rede de leitura pública, num país que continua a ter enormes problemas no acesso ao livro e à leitura. Comparem-se também as dotações orçamentais da Torre do Tombo e da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas com os dois milhões e meio para Guadalajara, para perceber o descabido que está em causa. O mesmo se passa malgrado a extrema competência, com provas dadas, da sua dinâmica diretora e do seu excelente corpo de bibliotecários e funcionários com o abandono em que se encontram o restauro e a encadernação na Biblioteca Nacional, sem esquecer a crónica falta de verbas para a compra de livros. Outro sinal de bandalheira é o triste esquecimento a que tem sido votada a Biblioteca Pública de Évora, com uma coleção de manuscritos que só por si poderia projetar Portugal internacionalmente, mas com certeza sem espalhafato.
Não basta reconhecer que o funcionamento do mercado do livro e das artes necessita do apoio do Estado, é preciso agir com sentido estratégico. E quais são os programas de apoio à edição e à tradução? Qual a política de apoio ao livro português no Brasil e na América Latina? Não se sabe e, a julgar pelo que se vê em Luanda ou em Maputo, essa política não existe. Não vai além de um paleio estafado acerca da lusofonia e do diálogo de culturas que, à força de tanta repetição, já parece ter vida própria em discursatas oficiais.
Depois, esvai-se como fumo... Enfim, a falta de intervenção política em todas estas matérias só a muito custo pode encontrar compensação no foguetório - ou, melhor, no happening, para ir ao encontro da famigerada internacionalização - constituído pela organização do cortejo para Guadalajara.
Autor: Diogo Ramada Curto

IFLA World Map

E eis que, quando falta um mês e oito dias, e estás a rever os textos, conferir referências bibliográficas e verificar os dados recolhidos em 2010 pela IFLA, em 2013/15 pela EBLIDA e em 2014 pela Public Libraries 2020, sobre o número de bibliotecas existentes em cada um dos países estudados, a IFLA lança o seu novíssimo IFLA Map of the World e tens que refazer essa parte toda. Lindo.


(Duas Bibliotecas Nacionais em Portugal? Estão a contar com Évora? Mas depois não nos contabilizam os leitores inscritos nem os empréstimos domiciliários... algo está mal.)

domingo, 20 de agosto de 2017

Vida simples

Nas tardes de Domingo, quando a RTP nos brindava com filmes que o cinema, lá longe, não nos deixava ver, havia sempre Jerry Lewis. As minhas irmãs gémeas ainda não teriam nascido, ou eram ainda pequeninas, pelo que lá estávamos, eu e a Marta, a lanchar o bolo que a nossa mãe teria acabado de tirar do forno, na modorra do domingo à tarde.


(Queria ter encontrado a cena em que ele fazia sumo de laranja para o pequeno-almoço, com um espremedor que quis comprar durante muito tempo, mas não foi possível...)

sábado, 19 de agosto de 2017

Ser ou não ser, eis a questão.

De vez em quando, lá salta uma notícia para a comunicação social. Há uma cabine telefónica, uma gaiola, um caixote transformado em mini-biblioteca, na rua.

A razão pela qual um conjunto de livros abandonados à sua sorte é notícia e o trabalho meritório desenvolvido por tantos bibliotecários por esse país fora - em projectos de literacia, de verdadeira acção social associada à leitura e ao conhecimento, de formação de leitores - passa despercebido, ou é sistematicamente ignorado, é algo que escapa ao meu entendimento.

Mas, o mais surpreendente para mim, é o fascínio de tantas pessoas por estes caixotes de livros, chamando-lhes bibliotecas. Aquilo não é uma biblioteca, nem nunca será, da mesma forma que uma máquina de venda de snacks nunca será uma pastelaria.

Para ser uma biblioteca falta algo essencial: o trabalho de mediação do bibliotecário. Temos assim em tão pouca conta aquilo que fazemos que achamos que uma caixa de livros abandonados à sua sorte no meio da rua produz o mesmo efeito?

Cabine de leitura em Campo de Ourique, patrocinada pela PT, que nunca se lembrou de patrocinar uma verdadeira biblioteca.

Antes que o dia turístico comece



quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és

Enquanto nos Estados Unidos os senadores republicanos se recusam a estar presentes em talk shows porque não querem ser conotados com Donald Trump,  por cá há quem aproveite todo o lixo que lhe vai parar à porta para arranjar munições de guerra. Nem reparam nas nódoas que vão deixando na própria roupa.
Não vale tudo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O mundo está cheio de génios

Saio da Biblioteca para ir à papelaria mais próxima buscar um artigo básico para o expediente geral: envelopes. O Largo está cheio de turistas. Quando é que não está? Desde que aqui trabalho, não me lembro de um único dia em que não haja turistas à volta do Templo.

Cruzo-me com uma família. O pai vem à frente, a reclamar: "Estas obras não eram para ser feitas nesta altura. Agora que estão cá os turistas é que se põem a fazer obras?" Como acho que sou um bocadinho anfitrã no Largo, ainda me viro para lhe explicar que tinha que ser agora, porque é uma medida urgente e, além disso, este género de obras tem obrigatoriamente de ser feito no verão. No Inverno seria apenas deitar dinheiro à rua. Mas pensei duas vezes e voltei ao meu rumo, calada.

Chego à papelaria, está uma mãe de primeira viagem a perguntar pelos livros do 1º ano do 1º ciclo. A funcionária, renitente, diz-lhe que o governo este ano oferece os livros, mas tem que pensar bem, porque depois o menino não pode escrever nos livros, praticamente não os pode utilizar, porque têm que ser devolvidos no fim do ano e se estiverem estragados, tem que os pagar.  Intrometo-me, digo que não tem nada que pagar. Tem que os devolver, mas os livros podem e devem ser usados. A funcionária ignora-me e continua "é assim, o governo dá, mas não dá... a senhora é que sabe o que quer fazer, mas vá por mim, que eu é que sei".

O mundo está cheio de gente que sabe tudo.

domingo, 13 de agosto de 2017

Do que vou vendo por aí

(... ) "Se uma ventura divina calha fazer-nos bons no que fazemos, e ainda conseguimos ser capazes de gentilezas, provas de amizade, manifestações de integridade, ainda termos sentido de humor, que anima jantares e alivia pressões... então o mundo será nosso... Nada mais errado. Pessoas assim correm os mesmos perigos dos animais em vias de extinção, e não há nada a fazer contra isso. A mediocridade é o mais perigoso dos caçadores furtivos, e não descansará, nunca, enquanto não eliminar o animal raro que lhe faz sombra, que não a deixa dormir, a mesquinhez baixinha e insegura é eternamente agitada porque o animal raro, simplesmente, existe. Todos os outros pecados mortais, combinados, são uma brincadeira comparados com a inveja." (...)

Rodrigo Guedes de Carvalho, Pianista de hotel

Nenhum homem é uma ilha.

No momento em que passam quatro anos sobre aqueles dias loucos e felizes da minha transferência para Évora, apercebo-me do impacto que a...