segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Entretanto, na Biblioteca Pública de Évora...

... rezamos para que, apesar da seca, o inverno não venha chuvoso, sob pena de o telhado e tudo o que ele cobre não chegarem a ver a Primavera.


A grande notícia do verão em matéria cultural foi anunciada na Biblioteca da Ajuda pelos ministros da Cultura e dos Negócios Estrangeiros. Portugal foi o país convidado da Feira do Livro de Guadalajara, segunda cidade do México, em 2018. Manuela Júdice, militante do Partido Socialista e ex-diretora da Casa Fernando Pessoa, já aceitou o convite para comissariar tal iniciativa e vai procurar gerir um orçamento de dois milhões e meio de euros. Não vai ser fácil fazê-lo, adiantou. A Itália, convidada em 2008, gastou três milhões. Portugal fica reduzido a urna verba inferior, o que em si mesmo é um problema, pois há tanta coisa para mostrar.
Não só os livros, mas também a música e todas as artes. Um autêntico festival, a pretexto do livro! Porém, mesmo contando com os sacrifícios impostos por uma verba aparentemente modesta, valerá a pena apertar o cinto e seguir em frente.
Os editores já manifestaram o seu contentamento com mais esta iniciativa. A memória da participação de Portugal na Feira de Bogotá, em 2013, ainda está fresca, pelo menos para uns quantos que lá foram. E os que não foram, bem teriam gostado de ter sido incluídos no convite.
Talvez surja agora a oportunidade de seguir viagem e participar no cortejo... Nunca se sabe. De tudo isto tornei conhecimento através da leitura de um artigo objetivo, sem ponta de ironia, publicado no jornal "Público" (26/7/2017).
Ao lê-lo, lembrei-me do "Anatómico Jocoso" de Frei Lucas de Santa Catarina. É que o carácter insólito da notícia mais parecia uma conversa de além-túmulo que, se não me falha a memória, se encontra na obra do famoso académico setecentista. Também me passaram pela cabeça as paródias no género Popular de testamentos da velha, de que há exemplos na coleção de folhetos dos séculos XVII e XVIII que D. Carolina Michäelis gostava de consultar na Biblioteca da Ajuda. Imaginei, então, o cortejo para Guadalajara. A sua organização, sem miserabilismos nem coisas chilras, pelo contrário, tudo à grande e à tromba estendida. O elenco, as precedências, os salamaleques, os favores e o pagamento dos fretes.
O recurso, a preceito, a agências especializadas na organização de festivais, com concursos feitos à pressa. Os escritores, os intelectuais e alguns, raros, pensadores que não param de pensar, mesmo em bolandas, conforme a imprensa tem noticiado, nos últimos tempos. Mas quem irá escolher os felizardos que, com um sombrero na cabeça, irão cantar em uníssono La Cucaracha? A comissária? E qual o critério para o fazer? Vão os que se oferecerem primeiro? Proximidade política? Amizades? A qualidade da obra acima de tudo? O certo é que, no couce do cortejo, em lugar de honra, lá irão os dois ministros, contentíssimos, porque foram capazes de satisfazer alguns grupos de pressão da área da cultura. Mas o seu a seu dono, pois foram eles, os ministros, que desencantaram os dois milhões e meio de euros necessários para pagar as viagens e a organização do certame.
Porquê toda esta azáfama para seguir viagem? Porque se impõe dar corpo a uma cultura do espetáculo, áulica e de circunstância.
Uma política cultural que, na boa tradição do Estado Novo, aposta no foguetório das comemorações e das exposições, a pretexto da inevitável internacionalização, e do espanto que conseguirá causar lá fora. E que, ao mesmo tempo, descura, no que ao livro diz respeito, tudo o resto: bibliotecas, arquivos, defesa do património bibliográfico e incentivos à edição, ligação às escolas ou aos museus e suas respetivas livrarias, etc. Em tudo isto, pressente-se o esbanjar à tripa forra e à pressa, através de comissões, comissários políticos e contratos excecionais.
Tudo ao revés de uma política que dinamize as instituições e os que a elas se dedicam no quotidiano.
Com todas as letras, o que mais me choca é, sobretudo, que não exista uma política de valorização de quem trabalha nessas mesmas instituições. Que se contentem com a segurança do funcionalismo público, fora do mundo da precariedade, todos os que contribuem com o seu esforço para fazer, no dia a dia, essas mesmas instituições. Quanto ao resto, que se danem com ordenados de miséria, sem progressões, sem formação, sem condições para a passagem do testemunho em instituições que têm uma vida própria que não pode ser descontinuada.
Sem cheta! É a política do banquete numa sociedade onde se tem fome.
O esbanjar no acontecimento único, mas sempre com a capa do queixume de que até se trata de uma verba parca, muito limitada: a viagem para Guadalajara! O facto de dois ministros virem à Biblioteca da Ajuda agora sob a alçada do palácio com o mesmo nome e, cá para mim, em risco de ser desmantelada para servir de cenário para eventos de encher o olho anunciar que vão ser gastos uns escassos dois milhões e meio no cortejo de Guadalajara é uma suprema ironia. Nos tempos difíceis em que vivemos, haveria que definir as prioridades. E o mais escandaloso é que não se consiga compreender qual o sentido dessa mesma iniciativa, no interior de uma estratégia relativa à política cultural do livro e sua internacionalização. Que fique também claro o paradoxo: Foi na Biblioteca da Ajuda que se anunciou o fim do miserabilismo e o retomar de uma cultura do foguetório, mas é também nela que se rapa, no inverno, um frio insuportável.
Quem lá quiser ir ler as obras do dito Frei Lucas tem de ser o primeiro a montar-se a cavalo no único aquecedor a óleo da sala de leitura. Há anos que a mesma biblioteca, segundo os caprichos e a profunda ignorância de sucessivos governos, está descapitalizada, sem quadros, sem uma política séria de catalogação, sem vida. Uma vergonha frente a um património de livros e manuscritos que já esteve sob a direção de Ramalho Ortigão e onde a erudita Carolina Michäelis trabalhou.
Poderia acrescentar outras coisas do que haveria a fazer, a começar pelo abandono a que foi votada a rede de leitura pública, num país que continua a ter enormes problemas no acesso ao livro e à leitura. Comparem-se também as dotações orçamentais da Torre do Tombo e da Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas com os dois milhões e meio para Guadalajara, para perceber o descabido que está em causa. O mesmo se passa malgrado a extrema competência, com provas dadas, da sua dinâmica diretora e do seu excelente corpo de bibliotecários e funcionários com o abandono em que se encontram o restauro e a encadernação na Biblioteca Nacional, sem esquecer a crónica falta de verbas para a compra de livros. Outro sinal de bandalheira é o triste esquecimento a que tem sido votada a Biblioteca Pública de Évora, com uma coleção de manuscritos que só por si poderia projetar Portugal internacionalmente, mas com certeza sem espalhafato.
Não basta reconhecer que o funcionamento do mercado do livro e das artes necessita do apoio do Estado, é preciso agir com sentido estratégico. E quais são os programas de apoio à edição e à tradução? Qual a política de apoio ao livro português no Brasil e na América Latina? Não se sabe e, a julgar pelo que se vê em Luanda ou em Maputo, essa política não existe. Não vai além de um paleio estafado acerca da lusofonia e do diálogo de culturas que, à força de tanta repetição, já parece ter vida própria em discursatas oficiais.
Depois, esvai-se como fumo... Enfim, a falta de intervenção política em todas estas matérias só a muito custo pode encontrar compensação no foguetório - ou, melhor, no happening, para ir ao encontro da famigerada internacionalização - constituído pela organização do cortejo para Guadalajara.
Autor: Diogo Ramada Curto

IFLA World Map

E eis que, quando falta um mês e oito dias, e estás a rever os textos, conferir referências bibliográficas e verificar os dados recolhidos em 2010 pela IFLA, em 2013/15 pela EBLIDA e em 2014 pela Public Libraries 2020, sobre o número de bibliotecas existentes em cada um dos países estudados, a IFLA lança o seu novíssimo IFLA Map of the World e tens que refazer essa parte toda. Lindo.


(Duas Bibliotecas Nacionais em Portugal? Estão a contar com Évora? Mas depois não nos contabilizam os leitores inscritos nem os empréstimos domiciliários... algo está mal.)

domingo, 20 de agosto de 2017

Vida simples

Nas tardes de Domingo, quando a RTP nos brindava com filmes que o cinema, lá longe, não nos deixava ver, havia sempre Jerry Lewis. As minhas irmãs gémeas ainda não teriam nascido, ou eram ainda pequeninas, pelo que lá estávamos, eu e a Marta, a lanchar o bolo que a nossa mãe teria acabado de tirar do forno, na modorra do domingo à tarde.


(Queria ter encontrado a cena em que ele fazia sumo de laranja para o pequeno-almoço, com um espremedor que quis comprar durante muito tempo, mas não foi possível...)

sábado, 19 de agosto de 2017

Ser ou não ser, eis a questão.

De vez em quando, lá salta uma notícia para a comunicação social. Há uma cabine telefónica, uma gaiola, um caixote transformado em mini-biblioteca, na rua.

A razão pela qual um conjunto de livros abandonados à sua sorte é notícia e o trabalho meritório desenvolvido por tantos bibliotecários por esse país fora - em projectos de literacia, de verdadeira acção social associada à leitura e ao conhecimento, de formação de leitores - passa despercebido, ou é sistematicamente ignorado, é algo que escapa ao meu entendimento.

Mas, o mais surpreendente para mim, é o fascínio de tantas pessoas por estes caixotes de livros, chamando-lhes bibliotecas. Aquilo não é uma biblioteca, nem nunca será, da mesma forma que uma máquina de venda de snacks nunca será uma pastelaria.

Para ser uma biblioteca falta algo essencial: o trabalho de mediação do bibliotecário. Temos assim em tão pouca conta aquilo que fazemos que achamos que uma caixa de livros abandonados à sua sorte no meio da rua produz o mesmo efeito?

Cabine de leitura em Campo de Ourique, patrocinada pela PT, que nunca se lembrou de patrocinar uma verdadeira biblioteca.

Antes que o dia turístico comece



quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és

Enquanto nos Estados Unidos os senadores republicanos se recusam a estar presentes em talk shows porque não querem ser conotados com Donald Trump,  por cá há quem aproveite todo o lixo que lhe vai parar à porta para arranjar munições de guerra. Nem reparam nas nódoas que vão deixando na própria roupa.
Não vale tudo.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O mundo está cheio de génios

Saio da Biblioteca para ir à papelaria mais próxima buscar um artigo básico para o expediente geral: envelopes. O Largo está cheio de turistas. Quando é que não está? Desde que aqui trabalho, não me lembro de um único dia em que não haja turistas à volta do Templo.

Cruzo-me com uma família. O pai vem à frente, a reclamar: "Estas obras não eram para ser feitas nesta altura. Agora que estão cá os turistas é que se põem a fazer obras?" Como acho que sou um bocadinho anfitrã no Largo, ainda me viro para lhe explicar que tinha que ser agora, porque é uma medida urgente e, além disso, este género de obras tem obrigatoriamente de ser feito no verão. No Inverno seria apenas deitar dinheiro à rua. Mas pensei duas vezes e voltei ao meu rumo, calada.

Chego à papelaria, está uma mãe de primeira viagem a perguntar pelos livros do 1º ano do 1º ciclo. A funcionária, renitente, diz-lhe que o governo este ano oferece os livros, mas tem que pensar bem, porque depois o menino não pode escrever nos livros, praticamente não os pode utilizar, porque têm que ser devolvidos no fim do ano e se estiverem estragados, tem que os pagar.  Intrometo-me, digo que não tem nada que pagar. Tem que os devolver, mas os livros podem e devem ser usados. A funcionária ignora-me e continua "é assim, o governo dá, mas não dá... a senhora é que sabe o que quer fazer, mas vá por mim, que eu é que sei".

O mundo está cheio de gente que sabe tudo.

domingo, 13 de agosto de 2017

Do que vou vendo por aí

(... ) "Se uma ventura divina calha fazer-nos bons no que fazemos, e ainda conseguimos ser capazes de gentilezas, provas de amizade, manifestações de integridade, ainda termos sentido de humor, que anima jantares e alivia pressões... então o mundo será nosso... Nada mais errado. Pessoas assim correm os mesmos perigos dos animais em vias de extinção, e não há nada a fazer contra isso. A mediocridade é o mais perigoso dos caçadores furtivos, e não descansará, nunca, enquanto não eliminar o animal raro que lhe faz sombra, que não a deixa dormir, a mesquinhez baixinha e insegura é eternamente agitada porque o animal raro, simplesmente, existe. Todos os outros pecados mortais, combinados, são uma brincadeira comparados com a inveja." (...)

Rodrigo Guedes de Carvalho, Pianista de hotel

domingo, 2 de julho de 2017

A biblioteca imperfeita



Comunicação apresentada na comemoração do 100º aniversário da Biblioteca Municipal de Covilhã



Vivemos tempos difíceis para as bibliotecas. O problema não é exclusivamente nacional. Desta vez não é consequência do nosso persistente atraso civilizacional, de que tanto gostamos de nos queixar. Nada disso.

Quer nos países que nos habituámos a seguir como modelos, quer em países com um nível de desenvolvimento mais lento do que o nosso, as bibliotecas atravessam momentos difíceis e são confrontadas ciclicamente com a falta de financiamento, a consecutiva descida nas listas de prioridades dos executivos governamentais ou locais e a desvalorização do trabalho desempenhado, face à ilusória facilidade de acesso proporcionada pelas novas tecnologias.

O ambiente generalizado é de desânimo. Do Reino Unido, dos Estados Unidos ou do Canadá, mas também da nossa vizinha Espanha ou do país-irmão Brasil chegam-nos com frequência informações sobre o encerramento de bibliotecas, quer temporariamente, quer a título definitivo. Nesses momentos, incrédulos perante a aparente desvalorização do serviço de biblioteca pública, resignamo-nos condoídos pela inevitabilidade da extinção das bibliotecas e do mundo, tal como o conhecemos.

Porém, nas mesmas notícias chegam relatos de cidadãos que se recusam a aceitar o encerramento dos serviços, que se mobilizam para defender a sua biblioteca, que organizam manifestações, que se disponibilizam, em última análise, para tomar conta da biblioteca e garantir, com recurso a voluntariado ou outras soluções independentes da administração oficial, a continuidade de um recurso que sentem como seu, que os acompanhou ao longo da vida, e que querem que seja um lugar de referência e de abrigo para os seus filhos e netos.


The Guardian, 04out2016

Irish News, 27jun2016

Rio de Janeiro, 2017

Londres, 2011
E que dizer da necessidade manifestada por pessoas que, atravessando a pior fase das suas vidas, nas mais difíceis condições de sobrevivência, atormentadas pela fome, pelo frio, pelo medo, fazem nascer uma biblioteca, ainda que frágil e temporária, como frágil e temporária parece ser a sua existência naquele momento. A título de exemplo, relembro que no campo de refugiados de Calais, entre os serviços considerados como prioritários, surgiu uma biblioteca. Tal como surgiu na Síria ameaçada pelo estado islâmico, com o objectivo de salvar os livros e a civilização que eles representam, preservando-os para as gerações vindouras.
Biblioteca no Campo de Refugiados de Calais
Biblioteca subterrânea na Síria

Perante esta resposta da Comunidade que utiliza a Biblioteca e não aceita viver sem ela, que direito temos nós, bibliotecários, de lamentar a imperfeição das nossas condições de trabalho, a imperfeição dos nossos edifícios, a imperfeição dos nossos equipamentos, a imperfeição das nossas colecções, a imperfeição dos nossos dirigentes, a imperfeição dos nossos utilizadores? Nós, bibliotecários imperfeitos, temos o privilégio de trabalhar numa instituição única, que presta um serviço público inigualável e gratuito a todos os membros da comunidade. Não existe nenhum outro serviço comparável.

O pessimismo reinante, que a classe profissional tende a propagar como chama em pasto seco, é contraproducente e passa a imagem de um serviço no limiar da sobrevivência, em risco de extinção porque apenas sublinha as dificuldades, os custos, os problemas, os inconvenientes.
Perdidos no labirinto de problemas, esquecemo-nos da razão da existência da biblioteca pública, e por consequência, de tudo o resto: os bibliotecários, os edifícios, os equipamentos ou as colecções. E essa razão é a Comunidade.

É na Comunidade que reside a força da biblioteca pública, que a torna imune a todas as ameaças, incluindo o fator condicionante mais próximo e tantas vezes oscilante: o poder político. Nenhum político ponderará a hipótese de encerrar uma biblioteca que é valorizada pela sua comunidade. Nenhum político deixará de investir numa biblioteca que prova diariamente ser um recurso útil para os seus cidadãos. Nenhum político deixará de considerar prioritário um serviço acarinhado pelos seus eleitores.

Ao contrário de uma biblioteca que precisa de ser defendida, a biblioteca de que quero falar é a que nasce e cresce no seio de uma Comunidade, que lhe é útil e que, em última análise, acaba por ser o agente que a transforma, que a faz transcender-se e evoluir. A biblioteca de que quero falar é a biblioteca imperfeita, motivada pela procura constante e incessante da prestação de um serviço de qualidade comprovada, não pela certificação dos equipamentos e cumprimento das directrizes internacionais, mas pela verdadeira integração na vida da comunidade, pelo entrosamento com as instituições locais e regionais, pela forma como, progressivamente, se torna uma presença constante na vida dos seus cidadãos.

Esta biblioteca imperfeita está longe da biblioteca asséptica e modelar que os manuais de biblioteconomia nos incutiram. A biblioteca que faz parte da vida das comunidades e que estas preencherão de vida e de dinamismo não é o edifício, mas sim o serviço que lhes é prestado, à medida das suas necessidades e das suas imperfeições.

Para que isto se concretize, a biblioteca só precisa de existir e acontecer, seja num edifício premiado pelo projecto de arquitectura e equipado com mobiliário topo de gama, seja numa estante com livros, disponível no café de uma pequena aldeia do interior.

Importa agora saber que condições são necessárias para converter um equipamento, que é a biblioteca pública, num serviço enraizado na Comunidade e útil aos seus cidadãos. Na verdade, estas condições reduzem-se apenas a uma, com capacidade suficiente para fazer mover todas as outras peças da engrenagem.

E que condição é essa? É tornar-se parte da vida da comunidade e trazer as pessoas à biblioteca.

É o mais difícil de fazer, porque depois, todos conhecemos o vírus que se dissolve na circulação sanguínea e que nunca mais nos deixa sós. Onde estivermos, haverá sempre uma biblioteca para nos salvar da solidão, do medo, do desconhecido, do cansaço, da desilusão e acima de tudo, da ignorância.

Por seu lado, para a biblioteca, a pressão do público que a frequenta é a força motriz que exige uma actualização constante das colecções, a aquisição de equipamentos ou a conservação das instalações na justa medida e proporção do serviço que é prestado. O dono do café que tem a estante com livros na aldeia recôndita será inevitavelmente confrontado com a necessidade de renovar os títulos ou até de instalar uma estante maior, se quer manter a clientela que lhe sustenta o café. Da mesma forma, o presidente da câmara será inevitavelmente confrontado com as mesmas necessidades, proporcionais à sua biblioteca e à comunidade que governa, se quer manter o seu eleitorado.

Se o eleitorado não se manifesta, ou se a clientela do café é indiferente à estante com livros, algo está mal. O serviço que prestamos não é – ou deixou de ser - a resposta que as pessoas procuram. E isso tem consequências - económicas para uns, políticas para outros – mas negativas para todos, sobretudo para a comunidade que a biblioteca deveria servir.

Que pode então a biblioteca fazer para se enraizar na vida da comunidade?

1.    Comunicação e afirmação

  • A Biblioteca deve ter uma presença constante e consistente na vida quotidiana da Comunidade. A sua participação em grupos de trabalho, comissões e todo o tipo de organizações conjuntas é fundamental. A Biblioteca deve apresentar-se como parceira a todos os agentes da comunidade, tentar perceber de que forma lhes pode ser útil e o que pode ser feito em comum. A médio prazo, essas entidades tornar-se-ão agentes de divulgação da biblioteca e das suas inúmeras valências. 
  • A interacção humana é essencial. O Bibliotecário e os restantes recursos humanos da Biblioteca têm de estar permanentemente disponíveis para colaborar e participar nos eventos locais e na vida da comunidade e lembrar-se que além de cidadãos comuns, são também a face mais visível da biblioteca.
Participação da BPE em diversas actividades

  • A Biblioteca deve ter uma presença constante e consistente nas redes sociais. A comunicação aí efectuada deve ter uma linha coerente e, se for da responsabilidade de mais do que uma pessoa, deve ser orientada por um código de procedimentos e conduta. Sem perder o seu carácter institucional, a biblioteca tem que ser cordial e demonstrar proximidade, actualidade e pertinência. Tem que ser um referencial no que à credibilidade da informação diz respeito e não deve concentrar a comunicação apenas na divulgação das suas actividades. Todos os assuntos que interessam aos potenciais utilizadores interessam à Biblioteca, caso contrário ninguém se lembrará de a procurar para obter informações. Não obstante, em caso algum pode violar a privacidade ou o direito à imagem das pessoas que participam nas actividades ou frequentam os serviços que são divulgados.
Utilização das redes sociais para prestar informação útil aos utilizadores

  • Tornar a biblioteca visível passa por estratégias de multiplicação de serviços, junto dos diversos sectores da comunidade. Muitas bibliotecas já o fazem, desenvolvendo actividades junto de escolas e instituições de solidariedade social. É preciso fazer mais, estar onde as pessoas estão: nos cafés e pastelarias, nas lojas e supermercados, nos serviços de saúde e farmácias, nos transportes públicos. 
Cooperação com livraria local
Projecto Comércio com Livros - Biblioteca Municipal de Moura

Por esta altura, muitos estarão a torcer o nariz, calculando os imensos recursos necessários para pôr tudo isto em prática. Mas, na verdade, tudo pode assentar numa estratégia colaborativa com todos os agentes da comunidade.
2.    Cooperação e interacção

  • A cooperação com instituições locais que já desenvolvem, por exemplo, serviços de apoio domiciliário, pode garantir que os serviços da biblioteca são transportados por essas instituições até ao local onde os potenciais utilizadores se encontram: em casa, nas instituições de acolhimento, etc.

Projecto a implementar no Centro Histórico, a divulgar brevemente

Rede de pólos de leitura pública da BPE em 2015
Pólo da BPE na Freguesia de Canaviais
Protocolo com Município de Estremoz
Pólo de Leitura Associação É Neste País
  • A cooperação com empresas e instituições para criar núcleos de leitura significa que a biblioteca pode descentralizar-se sem custos acrescidos para qualquer uma das partes. Para a biblioteca representa um empréstimo domiciliário feito a uma instituição. Para a instituição significa uma mais-valia no serviço prestado aos seus clientes e/ou uma vantagem para os seus trabalhadores. 

    • A realização de actividades fora do espaço tradicional da Biblioteca em associação com outras entidades ou espaços públicos é, provavelmente, uma das estratégias mais utilizadas para chamar a atenção do Público, mas só tem impacto positivo se a actividade for realizada com regularidade e a presença da Biblioteca for consistentemente assinalada. Tem de ser encarada como uma embaixada da Biblioteca e não como uma actividade fortuita e acidental. 
    • A realização de actividades dentro da Biblioteca, abertas a todos os sectores da Comunidade deve igualmente obedecer a uma estrutura regular, pensada para se prolongar no tempo e fidelizar públicos.
    Comemorações do aniversário da BPE - Évora Sketchers
    Encontro mensal de jogos de tabuleiro
    Temporada anual dos Bonecos de Santo Aleixo na BPE
    Comemoração do aniversário da BPE - Visitas guiadas
    Conferências do Cenáculo (Bienal)
    A realização de actividades em cooperação com outras instituições acabará por provocar nessas instituições uma predisposição para apoiar a biblioteca e a sua missão, quer participando e contribuindo de forma directa para a própria biblioteca, quer através de iniciativas colaterais que resultam no envolvimento de toda a comunidade no processo de formação de leitores.

    Programação e divulgação da actividade do Pólo de leitura na Junta de Freguesia

    Projecto Padrinhos de Leitura - Biblioteca Municipal de Moura

    3.    Facilidade de utilização

    A biblioteca deve acolher os utilizadores que a procuram, para que estes se sintam bem-vindos.

    • Desburocratizar a inscrição. Muitas bibliotecas instituem complicados procedimentos de inscrição, com exigência de documentos comprovativos de residência. Ora, a experiência demonstra que todos estes cuidados nunca foram capazes de impedir o extravio de documentos, ou o desaparecimento de leitores que nunca mais dão sinais de vida, por muitas cópias de formulários que repousem arquivadas nos respectivos serviços administrativos. A inscrição de um leitor representa um contrato de cidadania, um compromisso assumido entre a biblioteca e o utilizador. À biblioteca é exigido que preste um serviço de qualidade, à altura das expectativas que o sistema nacional de bibliotecas públicas criou na opinião pública. Aos utilizadores é pedido o cumprimento do regulamento que lhe é apresentado no ato da inscrição, mas com a perfeita consciência de que tudo continua a depender da boa-fé e da responsabilidade de cada um. Nenhuma das obrigações usualmente criadas nas bibliotecas evita esta situação.
    Inscrição na BPE: Requer apenas o Cartão de Cidadão, que funciona como Cartão de Leitor

    • Descomplicar a utilização. A Biblioteca assume-se como a porta local de acesso à informação e ao conhecimento, mas em vez disso, são instituídos sucessivos obstáculos, proibições, imposições. O regulamento deve ser simples, claro, directo e definitivo. Não há nada de mais desencorajador do que chegar a um sítio e não saber que regras de comportamento adoptar. Por outro lado, é preciso ponderar constantemente o que é realmente imperativo e o que não passa de uma posição corporativista: “proíbe-se porque é assim”; “só pode levar 2 livros técnicos de cada vez”.

    • Despenalizar. Até hoje, ainda ninguém me conseguiu provar que a penalização – monetária ou por bloqueio proporcional à infracção – resulta num decréscimo de livros perdidos. Os utilizadores bem-intencionados e cumpridores sentem-se traídos quando, ao mínimo descuido, lhes é aplicada a coima ou penalização. Os utilizadores não cumpridores jamais devolverão um livro que entrou em incumprimento, sabendo que a sua devolução acarreta consequências negativas. Em ambos os casos, perde-se um leitor. A penalização, a existir, deve ser suficientemente desencorajadora da prevaricação mas não tão grave que desencoraje a utilização.

    • Ouvir os leitores. Ouvir as suas preferências. Ouvir as suas exigências e dar-lhes resposta. Ouvir as suas dúvidas e necessidades e dar-lhes apoio. A médio prazo serão os utilizadores quem mais irá contribuir para a definição da estratégia da biblioteca, com a sua constante demanda e com a utilização que fizerem dos seus serviços. Serão eles, igualmente, o factor de maior peso na motivação constante dos recursos humanos da biblioteca, transformados em agentes activos, úteis e participativos na vida da comunidade.


    As estratégias aqui apresentadas são meramente indicativas e poderiam ser bastante alargadas. Resultam da experiência profissional e têm demonstrado ser eficazes. Graças a elas, a Biblioteca Pública de Évora tem vindo a ocupar um lugar cada vez mais central na vida da comunidade, com reflexo na utilização dos serviços. Estamos ainda muito longe da plena comunidade leitora, mas o caminho percorrido faz-nos encarar o futuro com optimismo e perseverança. Acima de tudo, hoje posso dizer com propriedade que ninguém imagina a possibilidade de encerrar esta biblioteca, tão essencial à cidade como o abastecimento de água.

    Aqueduto da Água de Prata, Évora | Desenho de Filipe Almeida

    quarta-feira, 28 de junho de 2017

    Manual para os dias que passam


    Segue o teu destino,
    Rega as tuas plantas,
    Ama as tuas rosas.
    O resto é a sombra
    De árvores alheias.
    A realidade
    Sempre é mais ou menos
    Do que nós queremos.
    Só nós somos sempre
    Iguais a nós-próprios.
    Suave é viver só.
    Grande e nobre é sempre
    Viver simplesmente.
    Deixa a dor nas aras
    Como ex-voto aos deuses.
    Vê de longe a vida.
    Nunca a interrogues.
    Ela nada pode
    Dizer-te. A resposta
    Está além dos deuses.
    Mas serenamente
    Imita o Olimpo
    No teu coração.
    Os deuses são deuses
    Porque não se pensam.

    Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

    domingo, 25 de junho de 2017

    Três meses e cinco dias

    Constatação de hoje: 
    1. Coisas em que detesto ter que pensar no meu trabalho: direito de autor aplicado às bibliotecas.
    2. Coisas sobre as quais tenho que escrever como se fossem muito interessantes: direito de autor aplicado às bibliotecas.

    sexta-feira, 23 de junho de 2017

    Quando a Biblioteca faz parte da família




    Eram as minhas primeiras semanas em Évora, e a escola do meu bairro convidou-me para uma actividade na biblioteca escolar e outra numa sala de aula. Foi aí que os conheci. Estavam no seu primeiro ano, mas já liam poemas e histórias simples, que me contaram naquele dia, em troca das histórias que levei, quase todas sobre a biblioteca e a forma como me tornei leitora e dependente da presença dos livros na minha vida.

    Ficámos amigos, por isso, de vez em quando voltávamos a encontrar-nos. Era eu que voltava à escola ou eram eles vinham à biblioteca participar em actividades ou simplesmente desejar boas férias. Tudo era um bom pretexto para umas leituras em conjunto.







    Terminam hoje o primeiro ciclo, por isso ontem fizeram uma celebração do seu percurso, uma festa de comunhão apenas com a família. Professora, alunos, pais e avós, e a Biblioteca. Leram-nos poemas e contos, dramatizaram uma história e cantaram. Emocionaram-se porque são bons meninos, e deixaram-me fazer parte de tudo, porque, na vida deles, a Biblioteca esteve sempre presente.

    Alguns - os que têm a sorte de passar as férias com avós pacientes - vão voltar com frequência durante o verão e aproveitam para dois dedos de conversa comigo. Serão leitores, não tenho dúvidas.

    Agradeço muito à Professora Domingas ter-me deixado fazer parte desta história. Foi bom rever os nossos momentos ontem, no vídeo onde passaram quatro anos, tantos dias de aprendizagem, de alegria, de trabalho, de crescimento.

    Boa sorte meninos! Sejam muito felizes!