segunda-feira, 2 de abril de 2018

Pedro, 20

O "pisca" cresceu mais do que eu poderia imaginar. Do Pedrocas ao mister Pedro Fialho vai um mundo, uma vida. Foi apenas um piscar de olhos, mas nós sabemos que foram muitos dias, muitos meses, vinte anos cheios de tudo o que faz uma família.

Parabéns mister Pedro!




quarta-feira, 21 de março de 2018

Antes medíocre que hipócrita

Durante a nossa vida, é demasiado frequente encontrarmos pessoas que ficam felizes com as derrotas dos outros. É o sistema e o único caminho que os medíocres conhecem para o sucesso: esperar que os outros percam, que caiam pelo caminho, que a infelicidade os atraiçoe.

Esses, os medíocres, merecem a nossa pena e algum cuidado, mas os piores são os outros: os que têm capacidades, os que podem lá chegar por mérito próprio, os que têm tudo para fazer o seu caminho, à velocidade que desejam, sabendo que têm em si tudo o que é necessário para ultrapassar adversidades. E, no entanto, ei-los felizes com a desgraça alheia, chegando mesmo a armadilhar "só um bocadinho" o caminho dos outros, mesmo que aqueles em nada os prejudiquem. Ei-los, tão divertidos, incapazes de solidariedade, de empatia, de humanidade.

Pensam que ninguém repara. Acham-se tão inteligentes e superiores que pensam que o comum dos mortais nunca conseguirá perceber a maldadezinha escondida nos gestos bonacheirões ou nas intervenções "pertinentes". Mas é essa arrogância que, fácil e fatalmente, os denuncia.

No dia mundial da poesia

Fala do homem nascido

(chega à boca da cena, e diz:)

"Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar."


António Gedeão, in Teatro do Mundo

domingo, 18 de fevereiro de 2018

48



18-02-2018.

O mais próximo que alguma vez vou estar de uma capícua, a não ser que viva até aos 111 anos e chegue a 18-02-2081.

É a minha capícua, ligeiramente imperfeita,  como são todas as coisas importantes da minha vida. Assim tenho a hipótese de gastar os meus dias a tentar melhorar e aperfeiçoar tudo o que conheço,  começando por mim.
São 48 anos. Cheios de vida, de garra, de luta, muitas lágrimas e muitas gargalhadas.

'Bora lá,  que há muito caminho pela frente!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Lindinho

O meu carro está velho. O facto de a dona ser uma mulher nada interessada em mecânica não ajuda. Já não aguenta viagens grandes sem dar sinal de exaustão.

Hoje precisei de sair e deixei-o em Évora. Quando voltei lá estava ele. Veio-me à cabeça o Porto Sentido do Rui Veloso: "Ver-te assim, abandonado, nesse timbre pardacento, nesse teu jeito fechado, de quem mói um sentimento. E é sempre a primeira vez, em cada regresso a casa, rever-te nessa altivez de milhafre ferido na asa".

Estava todo salpicado. A passagem de outros carros por uma poça de água próxima deixou as suas marcas. Fui lavá-lo. Revi a amolgadela que lhe fiz  numa manobra junto a uma pedra de grande dimensão à esquina da rua Bica dos Quartéis, onde morei há 15 anos. Revi os vestígios de uma pastilha elástica que o meu filho Pedro resolveu atirar pela janela numa das nossas viagens, em pleno movimento, e que ficou colada ao vidro. Revi a marca de uma pedrinha que saltou de um camião para o vidro da frente quando ele tinha apenas 2 semanas nas minhas mãos. Vi o sítio da peça que caiu porque a minha filha Inês anda nas calçadas de Évora à mesma velocidade que circula na estrada alcatroada. Revi as marcas do estacionamento aqui na rua estreita onde moro nos primeiros dias de carta da minha filha Mariana,  ao lado dos que eu própria fiz numa fase em que ele se desligava em andamento e bloqueava a direcção.

Revi as viagens que fizemos os quatro, para conhecer o país,  nas nossas férias.  Revi as horas sozinha, por trás do volante, em deslocações para dar formação,  para vir à Universidade ou a caminho da Biblioteca Nacional.  Revi os quilómetros feitos a caminho de Alvalade. Revivi o dia em que o fui buscar ao stand. A primeira coisa que comprei sozinha, quando a minha vida deu a volta.

"Ainda tens este carro?" perguntam-me às vezes.  Sim. Já estive a milímetros de o trocar mais do que uma vez. Não consigo. Enquanto andar, continuará a ser o meu carrinho, o meu "lindinho".

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Marco do correio



Os CTT, privatizados, ameaçam fechar várias estações. A ameaça é fulgurante e fatal. Quando os utentes se preparam para reclamar, já a porta encerrou e os funcionários desapareceram. É um processo que tem vindo a ocorrer há vários anos, mas só agora chegou à comunicação social e até teve direito a debate de Prós e Contras. 

A diferença é que, agora, as populações afectadas vivem em cidades grandes. A diferença é que, agora, a decisão vem de uma empresa privada e criticar a sua actuação não fere lealdades partidárias. Mas há 7 ou 8 anos, quando os primeiros postos dos CTT fecharam, essa ordem veio do Estado, legítimo proprietário e gestor do serviço, com o propósito de embelezar o pacote para o potencial comprador. Portanto, as vozes que agora se levantam, naquela altura ficaram em silêncio.

A diferença é que, agora, os lesados têm outros postos de CTT a distâncias que podem ir até 1 km, mas há 7 ou 8 anos, quando fecharam os postos dos CTT nas aldeias do interior, essas populações ficaram definitivamente privadas do serviço (que chegou a ficar a mais de 30 km de distância). A diferença é que, agora, as populações lesadas possuem, na generalidade, competências que lhes permitem utilizar o facebook e o twitter, o email e internet banking, fazem compras online que são entregues ao domicílio e dispõem de meios de deslocação próprios ou públicos. No caso dos postos de CTT que encerraram há 7 ou 8 anos, as populações lesadas eram maioritariamente idosos, sem acesso à internet, sem meios de locomoção próprios e, lá está, sem acesso a meios de transporte públicos, porque também foram cortados para poupar ou para privatizar. Portanto, as vozes que agora se levantam, naquela altura ficaram em silêncio.

Mas não se preocupem, indignados de agora. Nós, as populações desse interior que o poder político decidiu encerrar há muito tempo, estamos do vosso lado. Contem connosco para a luta, seja ela qual for. As nossas vozes fazem coro com as vossas. Mas não se vão daqui sem o troco, mesmo que seja preciso citar o já estafado mas sempre pertinente poema de Martin Niemoller:

Primeiro levaram os comunistas,
Mas não falei, por não ser comunista.
Depois, perseguiram os judeus,
Nada disse então, por não ser judeu,
Em seguida, castigaram os sindicalistas
Decidi não falar, porque não sou sindicalista.
Mais tarde, foi a vez dos católicos,
Também me calei, por ser protestante.
Então, um dia, vieram buscar-me.
Nessa altura, já não restava nenhuma voz,
Que, em meu nome, se fizesse ouvir.

Pedro, 20

O "pisca" cresceu mais do que eu poderia imaginar. Do Pedrocas ao mister Pedro Fialho vai um mundo, uma vida. Foi apenas um pisca...