sábado, 6 de janeiro de 2018

Como se (des)faz um leitor




Diálogo abreviado mas absolutamente real:

- Olá, bom ano! Já há algum tempo que não a via, não tenho ido à Biblioteca.
- Olá, bom ano! Então,  mas está tudo bem?
- Sim, só que o meu filho este ano tem 5 ou 6 livros de leitura obrigatória e se formos à Biblioteca,  ele vem de lá carregado de livros escolhidos por ele e depois só quer ler esses. Não quer ler os livros obrigatórios da escola. Tem sido um castigo para o obrigar a ler. Até lhe digo "Ó filho, mas tu gostas tanto de ler..." mas, enfim, gosta de ler o que ele escolhe!

domingo, 24 de dezembro de 2017

Poema do Coração

Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãos,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos".

Mas o meu coração é como o dos compêndios
Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue a circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz nos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?


António Gedeão

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Nenhum homem é uma ilha.



No momento em que passam quatro anos sobre aqueles dias loucos e felizes da minha transferência para Évora, apercebo-me do impacto que aquele momento da minha entrevista de selecção teve na minha vida, na vida dos meus filhos, mas também na vida de outras pessoas que eu nem sequer sonhava que existiam.

Se eu esperava e desejava muito essa mudança, todos esses, que eu não conhecia, nem imaginavam que, naquela manhã de Novembro de 2013, uma conversa  a decorrer num gabinete da Biblioteca Nacional de Portugal lhes ia desenhar o futuro para os próximos anos. Como eu não imaginava vir a ser o catalisador para que essas mudanças ocorressem.

São tantas ligações, tantas circunstâncias, efeitos colaterais... dá que pensar.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Estrela da manhã

Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.

Vai.

Como se cumprisse um dever.

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.

Abre os olhos e vai.

Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece o linho,
a espuma roxa dos vinhos,
incêncio na face jovem.

Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressuma-lhe à flor da pele.

Vai, belo monstro.
Arranca
as florestas com os teus dentes.
Imprime na areia branca
teus voluntariosos pés incandescentes.

Vai

Segue o teu meridiano, esse,
o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;
o plano de barro que nunca endurece,
onde a memória da espécie
grava os sonos imortais.

Vai

Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
Desdobra-te e beija
em ti mesmo a carne sã.

Vai

À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
«tem que ser».

O mar que rola e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
«tem que ser».

Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
«Tem que ser»."



António Gedeão, in Movimento Perpétuo
Imagem retirada da Biblioteca Nacional Digital, disponível em: http://purl.pt/12157/1/imagens/espolio/035-estrela-manha-1-087.jpg
Sítio temático sobre António Gedeão disponível em: http://purl.pt/12157/1/

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Um amargo que não se desfaz



Destes dias de Esposende, fica-me o travo amargo da intervenção inicial do Senhor Ministro da Cultura e da anunciada subordinação das bibliotecas públicas ao Plano Nacional de Leitura.

Ora, conhecendo as Dras. Teresa Calçada e Elsa Conde, sei de antemão que a ideia, na sua essência, não pode ser esta. Colaboração estreita? Sim! Cooperação efectiva, prática, concreta? Sim! Reforço da participação das Bibliotecas Públicas no PNL? Sim (ainda que, certamente por lapso, a formulação inicial apresentada publicamente as tenha esquecido). Subordinação? Não, nem pensar!

Não é uma questão de hierarquia nem de dependência orgânica. É uma questão de desconhecimento sobre o tanto que as Bibliotecas Públicas têm para oferecer, o tanto que fazem além da justíssima e indispensável promoção da leitura e das literacias.

Concordo plenamente que  toda a sociedade seja convidada a colaborar nesse esforço - e olha que belo exemplo a Biblioteca Municipal Urbano Tavares Rodrigues  em Moura dá, ao nível local, nesse sentido! - mas isso não significa que se reduza a actividade dessas entidades a este único desígnio nacional. Há outros desígnios nacionais, e as Bibliotecas Públicas, no seu todo e nas suas inúmeras valências, deveriam ser um deles.

Aguardemos explicações mais concretas.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Das gerações



No passado, os dias eram perfeitos. Estava sempre sol, mas não havia seca porque chovia secretamente quando não estávamos a ver, ou quando dava jeito a um punhado de crianças a quem apetecia chapinhar na água ou estrear as galochas novas.

No passado, a vida era muito difícil, mas todas as pessoas que conhecíamos eram corajosas e determinadas e resolviam os problemas com firmeza e diplomacia, sem nunca hesitar quanto ao caminho certo.

No passado, venciam-se obstáculos,  matavam-se dragões e construíam-se igrejas, palácios e bibliotecas.

No passado, os pais educavam muito bem os filhos e os chefes ensinavam aos novatos tudo o que sabiam, para que quando se retirassem, uns e outros pudessem seguir o seu caminho.

E, depois, também eles passavam a ser chefes e pais, a construir bibliotecas, palácios e igrejas, a matar dragões e vencer obstáculos. Também eles resolviam problemas com diplomacia e firmeza, sem hesitações, corajosos e determinados perante as dificuldades da vida, sob o sol que brilhava sempre, menos quando as crianças que um dia os iriam substituir queriam chapinhar na água.

Azar o meu, nasci no presente. Problemas por resolver,  imensas dúvidas, já não há dragões para matar e até as estações do ano enlouqueceram.

Como se (des)faz um leitor

Diálogo abreviado mas absolutamente real: - Olá, bom ano! Já há algum tempo que não a via, não tenho ido à Biblioteca. - Olá, bom an...