domingo, 23 de agosto de 2020

Politicamente incorrecto

Chega-me este texto, por mão amiga, e parece-me óptimo para dar corpo a uma série de (mais ou menos corajosos) pensamentos contra a corrente do entorpecimento espiritual/intelectual.

sábado, 22 de agosto de 2020

Coesão territorial

 

63 milhões

63 milhões para particulares e empresas que apresentem provas documentais (ai, ai) de deslocação para o interior. Entretanto, como já quase não há nada para fechar, também não se pensa em reabrir: escolas, centros de saúde, postos de correios, postos de segurança, repartições de finanças ou tribunais. Não se arranjam estradas nem se reabrem linhas de caminho de ferro. Nem se melhoram ou rentabilizam as existentes.
Nada.

Arranja-me aí umas declarações e levas 1900€ por mês durante 3 anos. Vais viver para o interior? Então são 4000, que lá os arrendamentos estão baratinhos. Ao fim de 3 anos, voltas e pagamos o mesmo a outros.

Quem aqui vive e escolheu trabalhar para a região, quem tem que mandar os filhos para os grandes centros urbanos para poderem estudar, pagando aí alojamentos a preços proibitivos, quem, desde sempre, tem obrigatoriamente que usar carro para se deslocar porque não há transportes públicos, quem teve toda a vida que viajar uma hora, pelo menos, sabe deus por que estradas, para chegar a um hospital, não leva nada. Nem vê a situação melhorar.
Nada.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

A Biblioteca Pública de Évora pela mão dos seus leitores #1

A nossa Leitora Sandra Gonçalves de Gaia fez uma pequena reportagem sobre a BPE, durante a realização das obras e reorganização dos espaços, que publicou no seu canal Youtube.

Esta é uma parte da entrevista, com a informação sobre a forma como o nosso empréstimo domiciliário funcionou durante a obra de reabilitação do edifício e em tempos de pandemia.

Divulgamos o trabalho realizado, com os nossos agradecimentos à Sandra Gonçalves. É bom ter Leitores assim, tão comprometidos com a sua Biblioteca.

 

domingo, 16 de agosto de 2020

100 anos de Bukowski

Charles Bukowski
16 de agosto de 1920 - 9 de março de 1994
______________
 

Então queres ser escritor?

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.

a menos que saia sem perguntar do teu
coração da tua cabeça da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.

se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.

se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.

se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.

se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.

se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.

se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.

a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.

a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer

por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.
e nunca houve.

 

(Alguém sabe a morada da Chiado Editora?)

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Pai

Que os dias continuem a suceder-se, como se nada se tivesse passado, é o mais estranho.
Que o sol nasça e se ponha de forma milimétrica, à hora marcada no calendário, como se ainda te fosse encontrar na rotina dos dias, no cumprimento das obrigações, é quase uma traição.
Como dizia o Sebastião da Gama, a propósito do outro extremo da vida, do nascimento, "os homens não se espantaram, não enlouqueceu ninguém", tudo continuou na normalidade à nossa volta.
Só nós ficámos aqui, perdidos, desorientados, atordoados perante uma inevitabilidade que julgávamos poder adiar indefinidamente.
Hoje era o teu dia, Pai.
Hoje é o teu dia.

Para mais tarde recordar