domingo, 25 de junho de 2017

Três meses e cinco dias

Constatação de hoje: 
1. Coisas em que detesto ter que pensar no meu trabalho: direito de autor aplicado às bibliotecas.
2. Coisas sobre as quais tenho que escrever como se fossem muito interessantes: direito de autor aplicado às bibliotecas.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Quando a Biblioteca faz parte da família




Eram as minhas primeiras semanas em Évora, e a escola do meu bairro convidou-me para uma actividade na biblioteca escolar e outra numa sala de aula. Foi aí que os conheci. Estavam no seu primeiro ano, mas já liam poemas e histórias simples, que me contaram naquele dia, em troca das histórias que levei, quase todas sobre a biblioteca e a forma como me tornei leitora e dependente da presença dos livros na minha vida.

Ficámos amigos, por isso, de vez em quando voltávamos a encontrar-nos. Era eu que voltava à escola ou eram eles vinham à biblioteca participar em actividades ou simplesmente desejar boas férias. Tudo era um bom pretexto para umas leituras em conjunto.







Terminam hoje o primeiro ciclo, por isso ontem fizeram uma celebração do seu percurso, uma festa de comunhão apenas com a família. Professora, alunos, pais e avós, e a Biblioteca. Leram-nos poemas e contos, dramatizaram uma história e cantaram. Emocionaram-se porque são bons meninos, e deixaram-me fazer parte de tudo, porque, na vida deles, a Biblioteca esteve sempre presente.

Alguns - os que têm a sorte de passar as férias com avós pacientes - vão voltar com frequência durante o verão e aproveitam para dois dedos de conversa comigo. Serão leitores, não tenho dúvidas.

Agradeço muito à Professora Domingas ter-me deixado fazer parte desta história. Foi bom rever os nossos momentos ontem, no vídeo onde passaram quatro anos, tantos dias de aprendizagem, de alegria, de trabalho, de crescimento.

Boa sorte meninos! Sejam muito felizes!








sexta-feira, 16 de junho de 2017

O valor das bibliotecas



Há dias, numa conversa com colegas bibliotecários, pedi-lhes que verificassem se, no balanço do trabalho realizado que os respectivos presidentes de câmara certamente vão fazer agora que é ano de eleições, a biblioteca constava como uma das realizações do mandato. É um indicador tão simples e tão revelador, que até assusta, por não deixar dúvidas de interpretação e por ter resultados tão desoladores.

O exercício também se aplica aos programas eleitorais. Em quantos há planos para a biblioteca? Que planos? O que representam? Afinal, quantos votos vale uma biblioteca?

É por isso com satisfação que vejo municípios  determinados em investir nas suas bibliotecas. A esse entusiasmo não é alheio o trabalho entretanto já feito pela biblioteca, a postura pró-activa do bibliotecário e a demonstração de que o investimento compensa.

É o que está acontecer em Lisboa. Depois de um período de sincero desânimo nas hostes bibliotecárias provocado pela transferência da tutela de várias bibliotecas para as juntas de freguesia, como quem se livra do que é indesejado, eis que o município de Lisboa aposta na revitalização das suas bibliotecas e demonstra que todos os cêntimos ali aplicados não são um gasto, mas sim um investimento que dará muitos e longos frutos.

Parabéns à Susana Silvestre pelo entusiasmo e por não se deixar contaminar pelo espírito derrotista, mostrando que é possível inverter rumos e valorizar a Biblioteca Pública!

Pode ver aqui a magnífica Biblioteca de Galveias.






quinta-feira, 15 de junho de 2017

Interesses

Perdoem-me se não alinho nesta indignação nacional que agita as hostes da opinião comentadeira e não vejo inconveniente nenhum em que a Agência Europeia do Medicamento fique em Lisboa.

Em primeiro lugar, ficarei mais indignada se, à conta deste debate estéril, a Agência escapar por entre os dedos políticos para outro país.

Em segundo lugar, e mais importante, ainda estou presa àquelas coisas comezinhas que fazem a verdadeira e justa repartição de recursos no país e de condições de vida equitativas e equilibradas: escolas, serviços de saúde, estações de correios, agentes de segurança, tribunais, finanças, transportes públicos e bibliotecas.

Eu sei que Lisboa, Porto, Coimbra e Braga já têm isso tudo, portanto agora resta-lhes disputar uma Agência Europeia para se sentirem valorizados, mas falar de distribuição justa de recursos no país a propósito disto é... (deixa-me ver se eu encontro a palavra...) Ah, já sei: Ridículo. E um bocadinho ofensivo, vá lá.
 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Inês, 23

00h10, 14 de Junho de 1994

O que era a preto e branco,  ficou a cores. A vida que vivia sozinha, autónoma, independente, desapareceu. De repente, sem que soubesse como ou onde, ela estava lá, a preencher todas as minhas memórias, em todos os instantes e todos os lugares, à espera do dia em que senti a falta dela e decidi que era hora, à espera do dia em que soube que ela estava para chegar,  à espera da noite em que deu sinal de querer nascer, à espera dos primeiros dez minutos deste dia 14 de junho para estar ao meu colo e ser a coisa mais linda que já tinha visto na vida.

Andamos zangadas, porque eu quero mandar na vida dela e decidir por ela, mesmo sabendo que já passaram 23 anos desde o dia em que o Dr. Bugalho pôs aquela vida nas minhas mãos. O problema é que, para mim, ela é e será sempre a menina rosadinha, doce e tranquila que mudou a minha vida neste dia, a esta hora, há 23 anos, e eu não prescindo de ser a mãe dela.

Parabéns filha!



domingo, 11 de junho de 2017

Já se vê Outubro

De modo que, 30 anos e muitas caixas de migraleve depois daquela malfadada manhã em que dei por mim a vomitar na rua a caminho da escola, de rastos com a dor de cabeça e com a vergonha, fui ao neurologista.

Saí de lá com sentimentos ambíguos: diz que dentro de 3 meses já não devo ter dores,  mas tenho que cumprir um tratamento contínuo,  durante 1 ano.

Ora eu, que gosto tanto de comprimidos - só tomo o migraleve e só quando já não consigo aguentar as dores - encho-me de brio e vou à farmácia aviar a primeira dose mensal. À hora do jantar, começo a faina, até porque sinto uma dorzinha leve a formar-se e a dar todos os sinais de querer vir a ser uma grande dor em apenas meia dúzia de horas.

A noite foi insuportavelmente longa, acordada a todo o tempo, mas nada me preparou para o dia. Foi como se tivesse perdido o controlo do meu corpo. Entre a dor, que se tornou enorme, e o efeito dos comprimidos,  na minha cabeça estava a acontecer uma verdadeira batalha e eu ali estava, completamente impotente, à espera que as horas passassem,  empurrada pela certeza de ser apenas a reacção inicial aos medicamentos e pensando, a cada instante, estar mais perto do alívio.

E é aí que me encontro agora. Ligeiramente aliviada mas ainda perdida numa terra desconhecida onde tudo é enevoado. É verdade que o facto de andar a ler livros de direito e a tentar compreender a eficácia de uma lei sem sanções,  ajuda a tornar tudo bastante irreal.

Não faço risquinhos na parede, mas tenho tudo contado. Faltam 3 meses e 19 dias para entregar a tese. Faltam 3 meses menos 3 dias para estar livre da dor de cabeça. Em Outubro ninguém me pára.

sábado, 10 de junho de 2017

10 de Junho



Não havia melhor forma de comemorar o dia de Portugal. Estão de parabéns o Município de Lisboa e a colega Susana Silvestre pela magnífica Biblioteca que quero visitar na próxima oportunidade. Está de parabéns a Dra. Maria José Moura, a quem todos - dos bibliotecários aos utilizadores - devemos as bibliotecas que temos.

Sem o trabalho desenvolvido há 30 anos dificilmente teria tido a oportunidade e felicidade de ter o melhor trabalho do mundo - ser bibliotecária - e dedicar a minha vida a esta nobre missão de garantir o acesso à informação e ao conhecimento na mais democrática de todas as instituições. Só quando pensamos em tudo o que não teria acontecido a tantas, tantas pessoas, por esse país fora, se o serviço de biblioteca pública não existisse, é que temos noção da grandeza do que foi feito.

Enquanto bibliotecária e enquanto utilizadora convicta da biblioteca pública, o meu agradecimento público e sincero a todos os que - coordenados pela Dra. Maria José - deram o seu melhor para criar uma rede de leitura pública e assim mudaram a face de Portugal.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Grupo de Trabalho das Bibliotecas Públicas - Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central





As Bibliotecas Públicas do Alentejo Central estão a constituir um Grupo de Trabalho para a cooperação e colaboração entre bibliotecas, com o objetivo de melhorar o serviço prestado às populações e fomentar as diferentes literacias, numa lógica de otimização e eficiência de recursos.
O Grupo de Trabalho das Bibliotecas Públicas da Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central (GTBP CIMAC) é constituído por todas as bibliotecas municipais da região, a que se juntou a Biblioteca Pública de Évora. 

O trabalho desenvolve-se no âmbito da CIMAC e tem o apoio institucional da Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e da Biblioteca Nacional de Portugal, que tutela a BPE.

Se vive no Alentejo Central, estamos a trabalhar para si!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

As contas da cultura, parte 2

Em apenas uma semana somos confrontados com duas atitudes de "vendilhão do templo" relativamente ao património cultural. Primeiro foram as máquinas eléctricas ou híbridas estacionadas ao lado dos belíssimos coches que constituem a magnífica colecção do Museu dos Coches. Agora, foi a fogueira e os danos causados pela realização de um filme no Convento de Cristo em Tomar.




Em ambas as situações, as respectivas directoras foram imediatamente crucificadas e até circula uma petição infame pedindo a demissão imediata da directora do Convento de Cristo, sem que sejam apuradas as devidas circunstâncias e responsabilidades. As redes sociais são a nova fogueira da Inquisição.

Ora, meus amigos, como diria o diácono Remédios, não havia nexexidade. Ou haveria? Ou tudo isto vem da enorme pressão que os serviços do património cultural recebem para aumentar a receita? Arranjar formas de angariar proveitos, é esta a política cultural do meu país?

Atenção, isto ainda é só a ponta do iceberg. Os efeitos não são imediatos e o que vemos hoje são os primeiros resultados de anos e anos de desinvestimento. Mas outras consequências se seguem resultando sempre no mesmo destino fatal: a perda irreparável de património.

Abram os olhos, senhores. É agora ou  nunca.

PS1: Não sei porquê, ninguém parece estar incomodado com o desvio das verbas. Se os valores forem da ordem dos que foram referidos na reportagem, estamos a falar de muito mais de 200 mil euros por ano (só na época alta), desviados da possibilidade de conservação do Convento para os bolsos dos funcionários. Um processo de anos e anos e anos e anos. Toda a gente acha isto normal?

PS2: A DGPC vai investigar o processo. Como deve se feito.

sábado, 3 de junho de 2017

Delito de Opinião

A convite do Pedro Correia, eis o meu artigo no Delito de Opinião:


As contas da cultura

Com o poder público rendido a Salvador Sobral, o cantor foi à Assembleia da República reivindicar mais investimento para a cultura. É quase certo que o Salvador se referia ao apoio às artes, ao investimento no aparecimento de novos talentos, à aposta na diversidade cultural essencial a uma sociedade que defenda a liberdade de expressão e pensamento.

Mas eu vou aproveitar descaradamente a intervenção do Salvador para falar de outros investimentos na cultura: o sector cultural do Estado.

Bem sei que somos bombardeados com a ideia de investimentos avultadíssimos nas jóias da coroa: o Museu dos Coches, o Museu Nacional de Arte Antiga, o CCB ou a Fundação de Serralves. Os orçamentos são ambiciosos mas têm resultados positivos. A Cultura, esse sector eternamente encarado como de segunda prioridade, um bem de luxo que nunca chegou a beneficiar de 1% do orçamento, é afinal um dos sectores mais lucrativos na esfera de administração directa do Estado, especialmente se considerarmos o impacto que tem no Turismo. E estamos a falar apenas em termos económicos, já que o bem maior resultante da actividade cultural nem sequer é contabilizado: a formação de cidadãos conscientes, informados, capazes de gerir o conhecimento que lhes é disponibilizado e de o utilizar em benefício próprio e em benefício da sociedade.

Mas, por trás do brilho oficial, os organismos culturais nacionais limitam-se a sobreviver, em sofrimento constante. Sempre dependentes da novidade que cada ciclo político insiste em introduzir mal toma posse, nunca sabem por quanto tempo a estrutura com que trabalham se vai manter. Falar em delinear estratégias neste quadro é mera utopia.

O panorama dos recursos humanos é dramático. Os constrangimentos que impedem a entrada de gente na função pública estrangulam estruturas patrimoniais, museus, bibliotecas e arquivos. Supostamente há gente disponível em mobilidade, mas não detêm a formação necessária para ocupar os lugares existentes. A escolha está entre esgotar os recursos disponíveis, sujeitando-os a horários de trabalho suplementares (sem qualquer compensação monetária) ou aceitar trabalhadores que nunca quiseram trabalhar nesta área e que não têm qualquer motivação ou sensibilidade para lidar com o público, aos quais ainda é necessário dar formação em contexto de trabalho (e portanto, não credenciada). Para que isso aconteça, é preciso que haja gente disponível, e não há. Não há.

No entanto, o problema mais grave originado pela não admissão de recursos humanos é outro e já começa a fazer-se sentir: não há transmissão de conhecimento. Não há integração na missão de serviço público, não há passagem de testemunho, não há renovação. Os recursos vão inevitavelmente esgotar-se e depois vamos assistir a uma entrada súbita de pessoal não qualificado – a exigência de qualificações é mal vista e encarada como corporativismo – sem qualquer espírito de missão ou cultura de serviço público e todo o conhecimento acumulado de gerações estará irremediavelmente perdido.

De orçamentos nem vale a pena falar. De 2000 em diante, foi sempre a descer. A cultura e os funcionários públicos sempre foram os primeiros alvos a abater em tempos de austeridade e estes serviços conseguem agregar os dois. Não há escapatória possível: corte-se!

E de quem é a culpa de tudo isto? De ninguém. Na verdade, é de todos. É de todos os que, tendo voz activa, nunca souberam defender a relevância e a especificidade da cultura. É de todos os que delinearam medidas a regra e esquadro, no ar condicionado dos gabinetes, sem o mínimo cuidado em verificar os seus efeitos no terreno. É de quem opta por regras inflexíveis que estrangulam o funcionamento dos serviços por não ter a coragem de assumir a tomada de decisões. É dos que insistem em deixar a sua marca pessoal e movem serviços como se fossem peças de xadrez, sem a preocupação de conhecer previamente o que estão a destruir. É dos que furam as regras e gritam escândalos nos jornais para serem beneficiados sob o olhar protector da indignação pública. É dos que encolhem os ombros, confundindo lealdade institucional com falta de verticalidade. É dos que, vítimas da sua própria falta de cultura, recusam compreender o que a falta de investimento na cultura fará à nossa sociedade amanhã.

Sei que temos vivido tempos difíceis nos últimos dez anos, pelo menos. Durante esse tempo, todos nós (ou pelo menos a maioria) aguentou o barco, manteve-o à tona. Contámos para isso com a colaboração e apoio inestimável de todos os trabalhadores da área que compreenderam que, em tempos de crise, só os mais fortes e perseverantes sobrevivem. Nós quisemos ser fortes e perseverantes, e conseguimos. Mas não aguentamos mais, os serviços estão esgotados. É necessário repensar as estruturas, rentabilizar os recursos e sim, há que dizê-lo sem medo, ter a coragem de investir na Cultura.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Delação premiada

Aqui há uns anos, a Dra. Manuela Ferreira Leite, a propósito de uma crise política, sugeriu  que o ideal seria suspender a democracia por seis meses. Eu confesso que achei piada à sugestão. Piada mesmo, daquelas piadas absurdas com que os humoristas nos fazem rir.

A minha quase obsessão por corrigir o que não funciona, parar imediatamente com procedimentos que já provaram não funcionar, fazer experiências até encontrar a melhor solução de funcionamento fizeram-me compreender aquele desabafo e rir perante o absurdo e o ridículo da proposta.

A delação premiada, que pelos vistos está em discussão no nosso país, é igual. Em teoria, a proposta era boa. Num instantinho se prendia a bandidagem toda, independentemente da cor do colarinho.

Mas, compreendam, a ideia é tão absurda e ridícula como a de suspender a democracia. Há limites que não se podem ignorar e muito menos ultrapassar. Eu não quero viver - e muito menos que os meus filhos vivam - numa sociedade que incentiva a denúncia fácil, cobarde e interesseira. E desta vez não tenho nenhuma vontade de rir.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

Diferentes, mas diferentes.



Estou na fila da caixa, num supermercado. À minha frente está um grupo de jovens rapazes. Vieram comprar uns snacks para o lanche. São cinco. Vão chegando a pouco e pouco e vão pagar em separado, mas nem lhes ocorre ir para o fim da fila. Aproveitam o lugar marcado pelo primeiro e colocam as coisas em cima do tapete. Respiro fundo enquanto me lembro do meu filho e de como ele detesta que eu reclame em locais públicos. 

À fila do lado chegam duas miúdas. Podiam ser as minhas filhas. Conversam animadamente, nem prestam atenção ao que se passa. Os galaroiços da minha fila começam a agitar-se. Mandam bocas em voz alta. Dão risinhos parvos, tecem comentários sobre o que fariam com as miúdas. 

Eu estou a 20 cm deles, mas nada disso os incomoda. São rapazes. Podem fazer aquilo. A sociedade aceita, até acha piada. As miúdas começam a perceber. Viram-se para o outro lado, ficam caladas. Sabem que não lhes resta outra alternativa, a não ser permanecerem em silêncio até que consigam sair dali com a maior discrição possível. Humilhadas.

Estamos no século XXI, em plena civilização ocidental. Há debates institucionais sobre a necessidade de salários iguais para trabalhos iguais. Há leis que determinam números mínimos para a integração de mulheres nas listas candidatas a órgãos político-administrativos. O dia da mulher, essa instituição que a sociedade soube ridicularizar até a tornar num absurdo anedótico, é celebrado com flores oferecidas pelos patrões e mulheres que bebem demais na única vez no ano em que saem sozinhas para jantar. Vivemos a era do politicamente correcto em que os políticos começam os discursos por “Portuguesas e portugueses”, demonstrando apenas que não conhecem o funcionamento da língua portuguesa. 

Mas neste tempo, neste dia vulgar de maio de 2017, às mulheres do meu tempo ainda não é permitido que se movimentem livremente sem terem de aturar o desrespeito dos primatas que ainda vivem dentro dos homens deste tempo. Não é permitido que façam compras num supermercado sem terem de se sujeitar àquela verborreia abjecta a que muitos ainda chamam piropos. 

Não sou feminista, nem reivindico igualdades. Somos diferentes dos homens e tenho orgulho nessas diferenças. 

Peço respeito. Será pedir muito?

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A vitória de Marine Le Pen

Já ontem tive esta sensação. Ela fez tudo o que podia para chegar à segunda volta, e depois fez tudo o que podia para não ganhar.

Não lhe interessa governar, porque ela não é pessoa de fazer, de concretizar, de tomar decisões e arcar com responsabilidades. É pessoa de dificultar, de criar obstáculos, de influenciar e manipular,  como ela própria disse tão bem ontem à noite: o movimento que lidera é agora "the leading opposition force against the new president's plans". Por isso celebra, porque atingiu plenamente os seus objectivos.

Vai criar um novo partido por duas razões: 1) porque na FN estão fartos de morrer na praia e já não a aturam; 2) porque corre o risco de vir a ser eleita se não quebrar o ciclo de crescimento do partido. Leva os ignorantes que se deixam governar pelo medo com ela e vai continuar a ser a pedra no sapato da França e da Europa, acicatando ódios e intolerâncias.

Não vai passar disto, mas isto já é mais do que preocupante, dada a facilidade que teve em mobilizar e manipular 1/3 dos franceses. Isto é preocupante porque este 1/3 é maioritariamente jovem, não tem memória, de história sabe pouco e ameaça ser maioria na França da próxima geração.






quinta-feira, 27 de abril de 2017

Sim


Faltam aqui muitos, vamos ter que tirar uma foto de grupo!

Sem nenhuma espécie de censura ou de filtragem de informação, entendo, enquanto responsável pela Biblioteca Pública de Évora, que os assuntos se resolvem internamente e não são discutidos nas redes sociais. O que hoje escrevo não é, portanto, uma queixa pública em relação a nada e muito menos uma forma encapotada de reclamar, até porque não tenho motivos para reclamações. Da minha tutela directa nunca tive outra coisa a não ser um apoio firme em todas as horas, um acompanhamento solidário nas aflições, uma alegria genuína nas vitórias (por pequenas que sejam) e uma confiança que me dá alentos todos os dias. Esta situação não me traz qualquer conforto, pelo contrário. Traz-me todos os dias a responsabilidade de não falhar, de não desiludir, de não trair a confiança, de corresponder ao investimento de tempo, transmissão de conhecimento e partilha do caminho que tenho recebido de forma tão franca e aberta.

Posto isto, vamos a factos. A Biblioteca Pública de Évora tem no seu quadro de pessoal activo 3 funcionários. Três. Além deles, temos, em situações de grau de precariedade diversa (muitos deles com o fim dos contratos à vista), mais 8 pessoas, o que já inclui o serviço de limpeza, por exemplo.

Não tenham pena de nós. Queremos ter mais pessoas? Claro que sim, poderíamos aumentar a produtividade, aumentar o número de horas de abertura, incrementar e consolidar programas de animação da leitura. Mas - e agora vão ter mesmo que me desculpar a franqueza - não queremos qualquer pessoa. Queremos pessoas que estejam à altura da capacidade de trabalho e da dedicação que estas pessoas que cá estão já demonstraram.

Em 2016, com base no trabalho praticamente exclusivo do Lúcio Fitas e do Manuel Ferrão conseguimos catalogar quase 30 mil livros do depósito legal retrospectivo e actual, respectivamente. Nos reservados, foram  catalogados pelo Vicente Fino e disponibilizados online mais de 4 mil documentos, ao mesmo tempo que se fazia o atendimento da sala e a inventariação de núcleos até aí sem qualquer registo.

1022 novos leitores, só em 2016, e quase 40 mil documentos requisitados ou consultados presencialmente, graças ao atendimento sempre simpático e disponível da Jú Falcão e à dedicação e empenho da Lourdes Ferreira (que também regista todos os documentos entrados na biblioteca por via do depósito legal). Na sala de leitura, a Paula Santos e o Lúcio (todos os postos funcionam por turnos) atenderam mais de 4 mil leitores.

Já no fim do ano chegaram a Sara, a Paula Mendes e a Tânia, para apoiar e reforçar os postos de atendimento, a catalogação de núcleos específicos e a organização da actividade cultural. A Maria João é a responsável pela limpeza das instalações e o Hugo acode aos fogos que vão surgindo diariamente. Temos ainda a ajuda preciosa, indispensável dos voluntários - a Eunice, a Manuela, a Inês, a Rosa, a Anabela (ou a Célia, de quem sentimos tanta falta...) - que nos vão ajudando a reduzir o que está por fazer. Acho que é essa a meta na cabeça de todos. Não pensar no que falta, pensar apenas que o que fizermos hoje, fica feito.

Na nossa reunião de Março, apresentei-lhes a planificação do Livros à Rua, de que já tínhamos falado, em linhas gerais, em reuniões anteriores. Implicava desdobramento de horários, três semanas seguidas de trabalho sem interrupção, nem sequer ao Domingo, e muitas horas de trabalho extraordinário não remunerado, incluindo a noite do Baile na Biblioteca. Não ouvi um protesto. Só pediram o mapa com a distribuição do trabalho para se organizarem.

Hoje, à minha volta, tenho pilhas de livros que são novidades, porque mesmo no meio desta azáfama, a catalogação não parou, os leitores continuaram a ser atendidos, as reservas recebidas e despachadas.

Compreendam agora por que razão precisei de falar no número de funcionários que a BPE tem. Porque só com essa consciência é possível valorizar o enorme esforço que estas pessoas têm feito, a dedicação e o empenho em que tudo dê certo, a enorme satisfação quando tudo corre bem e a mágoa que nos fica quando, depois de tudo, há quem ande à procura de uma falha para pôr tudo em causa.

Não há falhas, porque eles fazem muito mais do que o que lhes compete. Porque fazem muito mais do que eu poderia esperar. Porque alinham nos meus projectos, nas minhas intenções e porque estão determinados a provar que esta é a melhor biblioteca do mundo. E não pensem que tudo são rosas. Há momentos difíceis, há relações tensas, há projectos que não se cumprem. Mas isso só acrescenta  valor ao trabalho que eles fazem.

Recebo tantas vezes (desculpem a falta de modéstia) felicitações pelo trabalho da Biblioteca. Recebo-as e tenho muito orgulho nelas, porque sei que não são para mim. São para a Equipa da qual eu faço parte e pela qual tenho a sorte de dar a cara. Cada um deles é merecedor dessas felicitações e merecedor do meu agradecimento pela solidariedade, pelo empenho, pelo trabalho, por, a cada desafio, responderem sempre: Sim.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Na antevéspera da véspera

O meu sítio preferido de Évora hoje amanheceu assim. Uma praça desarrumada, saem carros, entram livros, vésperas de dias tão bons, em que o livro ocupa o coração da cidade!






segunda-feira, 10 de abril de 2017

Da capacidade de adaptação

Facto 1:
Em 2017, várias bibliotecas públicas, instituições criadas com o propósito de disponibilizar o acesso à informação, ao conhecimento e à cultura, ainda não têm qualquer presença nas redes sociais. Nem site, nem página de facebook, muito menos twitter ou instagram. Na maior parte dos casos, isto acontece porque os órgãos executivos dos municípios - eleitos pelos munícipes em processo democrático - exigem controlar a informação que é divulgada e não autorizam a biblioteca a ser um canal de comunicação do município.

Facto 2:
Em 2017, os conventos da Ordem do Carmo têm um site e vários têm páginas no facebook (ver Beja: https://www.facebook.com/carmelodebeja) . Estamos a falar de uma instituição altamente hierarquizada e de normas rígidas, como é a Igreja Católica, e de casas de recolhimento, para onde as pessoas optam por ir para se retirarem do mundo exterior e se dedicarem à vida espiritual. No entanto, consideram pertinente e útil divulgar a sua mensagem e o trabalho que desenvolvem.

Tirem as vossas conclusões.

domingo, 2 de abril de 2017

sábado, 1 de abril de 2017

Da boa educação

O menino olha para a máquina de snacks e bebidas e decide dar-lhe uns pontapés. Atira-se a ela com todas as suas forças.  O pai, sentado num dos sofás do átrio,  dá uma cotovelada na mãe e diz orgulhoso: "Olha lá para ele, a ver se consegue tirar alguma coisa da máquina sem pagar!" Enfim, levanta-se e vai buscar o miúdo: "Eu depois logo te ensino a fazer isso como deve ser".

quarta-feira, 29 de março de 2017

Aeroporto Cristiano Ronaldo




Acho muito bem.

1. Nada nem ninguém, em Portugal, alguma vez alcançou 1/10 da fama e reconhecimento que CR7 tem em todo o mundo. Quando se fala em Portugal,  a resposta imediata tem sempre a ver com Cristiano Ronaldo. Tem um impacto muito positivo no turismo, logo, na economia madeirense e nacional.

2. Se é para dar o nome de alguém a um equipamento ou instituição, que seja o nome de uma pessoa que conquistou tudo pelo seu esforço, trabalho, perseverança, dedicação, superação. É este tipo de pessoas que quero como exemplo. Aos que hoje gozam com ele e com a família dele por serem de origem pobre e deslumbrados com o dinheiro, deixo um conselho: Façam como ele, sejam os melhores sempre, todos os dias.

3. Até podia dar aqui exemplos de honras que foram atribuídas a pessoas com muito menos mérito e que mereceram largo consenso, mas sei que estão com uma intensíssima dor de cotovelo, não vos chateio mais. A inveja dos medíocres é um problema sem cura.

terça-feira, 21 de março de 2017

212 anos de serviço público

No próximo Sábado, 25 de Março, contamos consigo para comemorar connosco o 212º aniversário da BPE.

Conheça aqui o programa completo:
10h30 | Visita guiada para os elementos do grupo ÉvoraSketchers, que irão desenhar a Biblioteca durante o dia.

10h30 | TuuTuu - Teatro sensorial para bebés e crianças até 3 anos - AGORA Teatro. Inscrições limitadas.

10h30 | Encontro de Jogos de Tabuleiro - Boardgamers de Évora e B de Brincar. Entrada livre.

11h30 | Com quantos pontos se conta um conto - Associação Cultural É Neste País. Entrada livre.

14h30 | Encontro de Jogos de Tabuleiro - Boardgamers de Évora e B de Brincar. Entrada livre.

15h00 | Viagem ao interior da BPE - Visita guiada. Inscrições limitadas.

17h00 | Bolo de Aniversário.     

21h00 | Caça ao Tesouro. Inscrições limitadas.









sábado, 18 de março de 2017

Começo a gostar destes dias de associativismo

De manhã, a vestir a camisola na Assembleia Geral da BAD...



E no final da tarde, a vestir a camisola pelo meu Sporting :)





Eça na BPE

Inauguração da exposição "Eça e o districto de Évora: 150 anos da presença de Eça de Queiroz em Évora", no passado dia 17 de Março.

A exposição estará patente até dia 15 de abril e pode ser visitada durante o horário de funcionamento da BPE.