quarta-feira, 21 de março de 2018

Antes medíocre que hipócrita

Durante a nossa vida, é demasiado frequente encontrarmos pessoas que ficam felizes com as derrotas dos outros. É o sistema e o único caminho que os medíocres conhecem para o sucesso: esperar que os outros percam, que caiam pelo caminho, que a infelicidade os atraiçoe.

Esses, os medíocres, merecem a nossa pena e algum cuidado, mas os piores são os outros: os que têm capacidades, os que podem lá chegar por mérito próprio, os que têm tudo para fazer o seu caminho, à velocidade que desejam, sabendo que têm em si tudo o que é necessário para ultrapassar adversidades. E, no entanto, ei-los felizes com a desgraça alheia, chegando mesmo a armadilhar "só um bocadinho" o caminho dos outros, mesmo que aqueles em nada os prejudiquem. Ei-los, tão divertidos, incapazes de solidariedade, de empatia, de humanidade.

Pensam que ninguém repara. Acham-se tão inteligentes e superiores que pensam que o comum dos mortais nunca conseguirá perceber a maldadezinha escondida nos gestos bonacheirões ou nas intervenções "pertinentes". Mas é essa arrogância que, fácil e fatalmente, os denuncia.

No dia mundial da poesia

Fala do homem nascido

(chega à boca da cena, e diz:)

"Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se faz ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar."


António Gedeão, in Teatro do Mundo

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