terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Aos 50

De que é feita a felicidade? De instantes ou de memórias?

Queremos desesperadamente ser felizes, perseguimos os momentos especiais, as ocasiões perfeitas, as pessoas ideais. Quase sempre nos desiludimos, porque o problema está nas expectativas elevadíssimas com que procuramos a felicidade.

E depois, vêm as lembranças,  o que guardámos de momentos em que nada esperávamos e que nos deram tudo: alegria e gargalhadas, ansiedade e emoção,  tristeza, dificuldades e a superação. 

Faço hoje 50 anos. Apesar de manter a garra, a vontade de prosseguir e de lutar, reduzi muitíssimo as minhas expectativas... na expectativa de ser mais feliz. É contraditório,  claro, como o é quase tudo na vida. Já fui muito feliz, tanto quanto é possível ser. No top estão, indiscutivelmente, os dias em que cada um dos meus filhos nasceu; o dia em que, depois de milhares de visitas à Biblioteca Municipal de Moura como leitora, subi pela primeira vez aquelas escadas como Bibliotecária; e quando, a 2 de Janeiro de 2014 pus o pé no degrau de entrada da Biblioteca Pública de Évora como Bibliotecária da melhor Biblioteca do mundo.

Também tive momentos terríveis, em que me vi perdida e desorientada, sem chão,  sem rumo, sem esperança. É mais ou menos assim que me sinto de há uns tempos para cá. Depois de um ano horrível que me fez questionar seriamente a minha forma de agir e de estar na vida, despojada da minha âncora que é a Biblioteca a funcionar, o golpe final foi o desaparecimento do meu pai. O nosso relacionamento nem sempre foi fácil, mesmo sendo ele o homem que mais admirei em toda a vida, e essa combinação fez dele a pessoa que mais me moldou. Mas ficaram coisas por dizer e agora... já não há hipótese nenhuma.

Sei que a esta tristeza se segue a superação e que não estou e jamais estarei sozinha. Alguma coisa devo ter feito extraordinariamente bem para ter estes filhos que a vida me deu. Aqui estão, comigo, todos. Mesmo que agora seja difícil de ver, sei que no futuro me lembrarei deste dia e que aqui encontrarei a felicidade. 

Vamos embora, que ainda há tanto para fazer, tanto para viver!

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Nós e os outros

Ele, o irmão,  quase não fala. Abre a boca apenas para dizer dizer que não consegue dormir. Ela, a irmã, fala ao mesmo tempo. "Não dorme nada. Ouço-o levantar e mesmo que ele ponha o som da televisão baixinho, eu ouço. Anda aborrecido" e chega enfim ao assunto sobre o qual quer falar "Não vê a filha, como é que há-de andar?". Desfia o rosário. A menina já anda na escola e ele só esteve com ela uma vez. Vê-a pela janela quando ela vai a casa da bisavó,  que é lá perto. Sabe que disseram à filha que ele está em França,  emigrado. Ouviu falar, no programa da Júlia, de uma associação que ajuda pais assim, nesta situação. 

Entretanto perguntam-lhe pelo outro sobrinho. "Está lindo. E esperto! No outro dia a outra avó (mãe do pai) apareceu lá na escola, que o queria ver, aquilo era com intenção de o levar e fugir com ele... mas ele estava avisado, disse logo que aquela mulher não podia  falar com ele e que era melhor chamarem a Polícia".

Levanta o queixo orgulhosa e eu olho à volta a pensar se terei sido a única a reparar que o comportamento que descreve para o sobrinho é exatamente o mesmo de que se queixa relativamente à sobrinha. Dois pesos, duas medidas: a nossa e a dos outros.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A intenção era boa, mas o caminho não é por aí



 Querida Esquerda

Estou muito desiludida. Andámos uns anos na direcção certa, a forçar a durabilidade dos manuais escolares durante um determinado período de tempo, permitindo que irmãos de uma mesma família,  por exemplo, pudessem utilizar os mesmos exemplares em anos diferentes. As editoras foram rápidas a contornar a situação. Criaram os livros de fichas, alegadamente para evitar que os alunos escrevessem nos seus manuais, mas obrigando à compra de novos livros de fichas anualmente. Só que... os livros de fichas só eram vendidos nos chamados packs, ou seja, era preciso comprar novamente os manuais. Mas agora, assim embrulhados, em pacote, duplicavam de preço.

Apoiei a entrega de manuais escolares gratuitos. Além da óbvia garantia de acesso à educação para todos, o Estado assumia-se como O Comprador, ganhava poder negocial para enfrentar as estratégias puramente lucrativas das editoras. Adoptava igualmente uma postura pedagógica de reutilização, respeito por materiais comuns, pagos pelo erário público.

Mas eis que começam os protestos. Não da opinião pública, porque se esses tivessem peso, as condições das escolas seriam muito diferentes: temperatura confortável nas salas de aula, refeições decentes, pessoal auxiliar em número suficiente,  etc., etc. Os protestos que se fizeram ouvir foram outros: as editoras.

Portanto, aqui estamos: livros novos todos os anos, agora sim, oferecidos a todas as famílias.  Lucro garantido. E tudo isto na era digital, onde todos os procedimentos se desmaterializam e onde era tão fácil, pura e simplesmente,  eliminar os manuais escolares. Todos os materiais absolutamente necessários poderiam ser impressos nas escolas, à medida do professor e dos seus alunos. Isso sim, seria redução de papel e não a imposição ridícula ao número de folhas de papel que um serviço público  (escolas incluídas) podem gastar por ano.




Mãe

Vou herdar-lhe as flores, pedi-as às minhas irmãs. Um dos grandes amores da sua vida. Mas mãos dela, tudo florescia. O galho mai...