Dra. Inês Parreira

Hoje a minha filha Inês queima a fita.

Foi um percurso muito difícil para ela, para mim, para os quatro. Há 14 anos, quando a nossa vida ficou virada do avesso, muita gente teve a enorme simpatia de me dizer “Nunca vais conseguir criar estes miúdos sozinha”, “Como é que tu podes pensar em pôr estes miúdos a estudar?” e outras pérolas do género.

Confesso que também me assustei. Fechei-me no quarto e chorei, chorei e chorei. Uma semana mais tarde e 11 quilos a menos, foi dessa escuridão que saí um dia para abrir a porta. Era a Professora Geninha, que tinha sido minha professora de português no secundário. Não quis entrar. Deu-me um pequeno ramo de flores e disse-me a palavra mágica: Coragem.

Nunca lhe consegui agradecer devidamente, porque cada vez que me lembro desse instante as lágrimas voltam, os dedos tremem e eu que nunca me calo, fico sem palavras. Obrigada Geninha. Obrigada, obrigada, obrigada.  Foi graças a essa palavra que no dia seguinte me levantei de manhã e fui trabalhar. Ainda hoje essa palavra é o meu norte.

Tal como em todos os dias da minha vida, os livros foram os meus melhores amigos. Cataloguei sem parar. Parar significava dar espaço à cabeça para pensar em coisas tristes e não o podia permitir. Compreendi nessa altura que criar os meus filhos, educá-los, ser a mãe deles todos os dias dependia do meu trabalho, da satisfação que tirava dele e do rendimento certo e constante que me permitia.

Lutei todos os dias, mas nunca lutei sozinha, porque desde esse dia estivemos sempre os quatro.
Foram muitas batalhas pequeninas, daquelas que ficam esquecidas na poeira dos dias. Aprendi a ultrapassar uma coisa de cada vez. Focar-me no imediato e tentar resolvê-lo, para poder passar à frente. Tenho, como poucas pessoas, uma necessidade quase sufocante de saber o terreno que piso para tentar reduzir ao mínimo o risco de imprevistos.

Chegámos aqui. Este é o dia da Inês, mas como todos os dias, é o dia em que olhamos para mais uma etapa por cima do ombro, porque ela ficou para trás e conseguimos vencê-la.

Agora, a minha menina, obrigada a crescer mais depressa do que os colegas da mesma idade, está uma mulher. Enche-me de orgulho todos os dias, na mesma medida em que me enchia de desespero quando era miúda e procurava a melhor maneira de lidar com ela, de a fazer tornar-se um ser humano digno, responsável e feliz. Sei que não fui uma mãe fácil. Sempre fui demasiado exigente, rigorosa e inflexível.

Mas Inês, olha para ti agora. Valeu a pena, não valeu?

Portanto, agora sou eu que te digo: Coragem filha! Vive a vida com alegria e esperança e lembra-te que estamos sempre aqui ao teu lado.

E p'ra Inês não vai nada, nada, nada? 
TUDO!

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