Pesos e medidas




(Foto de Tiago Mota Saraiva)

Quando o jornalista lhe relembra que as únicas turmas que vão ser encerradas – aliás, que não vão abrir com financiamento do Estado – são as de zonas onde o serviço público satisfaz as necessidades de ensino, o professor manifestante pede-lhe a identificação, duvidando que seja jornalista. Esperava ser levado ao colo, não esperava ser confrontado com o óbvio.

Quero acreditar que este detalhe demonstra uma viragem decisiva na opinião pública, traduzida nos comentários que vários jornalistas e comentadores fizeram em seguida. Ao contrário dos primeiros dias, em que o movimento dos amarelos foi levado ao colo pela comunicação social, a imprensa parece mudar a sua postura e a partir daqui, parece-me que o caminho amarelo será descendente.

Para isso contribuiu – e muito – a infeliz “manifestação” de hoje. Eram só 50 mas, graças ao local e ao momento, tiveram muito mais destaque do que muitas manifestações de mais de 50 milhares em que participei. Estive presente em luta por muitos direitos: desde logo o direito ao trabalho que permita a todos os cidadãos o sustento das suas famílias, o direito a cuidados de saúde para todos, o direito à indignação pela sangria imposta às famílias para salvar bancos vítimas de corruptos, o direito à cultura e a tudo o que ela representa – identidade, património, história, conhecimento, livre expressão – e sim, o direito à escola pública.

Nunca, nas manifestações dessa esquerda tão mal amada, vi o que vi hoje, nas mãos dos senhores professores dos colégios privados. Além das ofensas óbvias, vistas e revistas nas televisões e nas redes sociais, o que hoje estava patente era o mais absoluto desprezo pela opinião dos outros, pela convicção dos outros, pelo voto dos outros. 

A esquerda, que reuniu o consenso que permitiu ao PS formar governo, obteve votos. Obteve os votos necessários para que esse consenso fosse mais forte do que o consenso da direita. A CDU e o BE mereceram milhares e milhares de votos que lhes permitiram eleger o número de deputados suficiente para terem uma palavra a dizer. Infelizmente, para estes senhores e outros eternos inconformados que por aí andam, um voto num partido de esquerda não pode ter o mesmo peso nem merecer o mesmo respeito que um voto num partido de direita. Em sua opinião, votar no que eles chamam extrema-esquerda até devia ser considerado crime. Ora esta esquerda tem tanto de extrema como o CDS tem de extrema-direita. Esses votos também devem ser criminalizados? 

Se os colégios deixam de ser viáveis sem o financiamento do Estado, é porque essas são as regras do todo-poderoso mercado. É assim que funciona o mundo da iniciativa privada. Caso contrário, o Estado tinha que injectar dinheiro em todas as empresas que passam dificuldades no país.

Se as escolas privadas têm melhores condições que as públicas, é exactamente por isso que o dinheiro do Estado tem de ser canalizado para a escola pública, para a dotar de melhores condições, ao alcance de todos.

Atirar para os olhos dos portugueses com o “maior despedimento colectivo da história” só pode ser uma anedota infeliz, quando todos ainda nos lembramos dos mais de 30 mil professores que a educação de Crato entregou ao desemprego. Já para não falar na enorme janela de oportunidade que isto representará nas suas vidas, como tão bem aconselhou Passos Coelho aos desempregados quando era primeiro-ministro. 

E falar no colégio privado das filhas da Secretária de Estado é um tiro no pé, porque para a educação das meninas, os meus impostos não contribuíram. Foi ela pagou as propinas.

Sobre as palavras de ordem de baixo-nível, nem me vou pronunciar. Mas confesso que não queria os meus filhos ensinados por estes senhores. Livra!

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