Em modo de despedida

Hoje fiz a primeira de muitas despedidas que certamente se seguirão até final do mês. À semelhança do que vem acontecendo nos últimos anos, foi hoje assinado o protocolo de colaboração entre o Município de Moura e a APPACDM para a integração de utentes na vida activa. A Biblioteca de Moura tem na sua equipa dois utentes, de quem eu era tutora. Era, porque hoje deixei de ser. Tal como toda a responsabilidade de coordenação da Biblioteca Municipal Urbano Tavares Rodrigues, também esta tarefa passa para o meu colega e amigo José António Oliveira.

Sei que a Biblioteca fica bem entregue. Além do Zé, há uma equipa jovem, dinâmica, empenhada, muitíssimo responsável que vai levar esta Biblioteca para a frente. Esta é a oportunidade de provarem o que lhes digo há tantos anos: São pessoas competentes e aptas, são as pessoas certas, pelo enorme amor que já lhe têm, para fazerem crescer esta Biblioteca. Os meus olhos já estavam cansados, acomodados. Precisavam de um desafio novo com a mesma urgência que esta biblioteca tem de ter novos olhos, novas dinâmicas e sei que eles serão capazes de cumprir esse novo rumo.

Levo, obviamente, a mágoa de nunca ter visto a nova biblioteca que me foi anunciada há 19 anos e três meses, quando aqui cheguei (peço desculpa, mas não tenho jeito para o politicamente correcto). Sei que não foi construída por uma sucessão de circunstâncias que me teriam levado às mesmas decisões. Entre construir uma nova biblioteca e resolver o problema da Ribeira da Perna Seca, que punha em causa a segurança e a vida dos habitantes, não me parece que seja possível hesitar. Mas, o que querem? Sou bibliotecária. Não é uma profissão, é o que eu sou, o que eu escolhi ser na vida, e ter de me conformar com esta biblioteca tem sido um processo sofrido e doloroso.

Em conjunto, procurámos soluções, alternativas, caminhos possíveis. Tentámos e creio que conseguimos muita coisa. Umas experiências correram bem, outras nem tanto. Hoje a biblioteca está diferente. Fomos descartando possibilidades, agarrando-nos ao que valia a pena. Experimentámos horários diferentes, mudámos a disposição das salas, criámos novos serviços.  Informatizámos grande parte do catálogo e continuamos, dia a dia, a solidificar o que é o alicerce de qualquer biblioteca. Criámos actividades que já se impuseram e estabelecemos laços de parceria e colaboração com muitas instituições e empresas. Não estamos perto do fim, nem nunca estaremos (mal de nós se assim fosse...).

Apesar do que pode parecer implícito no que acabei de dizer, importa sublinhar algo muito importante: Não tenho nenhuma queixa, de nenhum teor, em relação à Câmara Municipal de Moura, ou a qualquer um dos executivos com quem trabalhei. A todos agradeço a atenção que sempre tiveram comigo e com a Biblioteca. Pelo caminho ficaram processos de avaliação, concursos, subidas de categoria nem sempre pacíficas. Felizmente, o meu mau feitio sempre se impôs e na altura certa, mostrei o meu descontentamento se estava descontente, reclamei quando discordava, chorei quando me sentia incompreendida. Esclareci o que entendi ser necessário, defendi o que considerava ser justo e indignei-me com o que considerava injusto. Ajudei no que me foi possível, trabalhei o melhor que soube, dei tudo o que podia. Agi de acordo com a minha consciência em todos os momentos e isso dá-me agora a tranquilidade de que necessito para fechar este ciclo e começar uma vida nova da mesma forma que acabamos um dia e começamos outro. Sem dramas.

Por isso, até amanhã.

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Este era um texto inevitável, que pensei escrever apenas nos últimos dias. Hoje percebi que não seria possível esperar mais, sob pena de sair a coisa mais lamecha que este blogue já viu.
Porque nestas alturas se gera sempre uma onda de solidariedade constrangedora e (lá vem o meu mau feitio) muitos elogios, muitos elogios, muitos elogios, este post não vai ser aberto a comentários.