terça-feira, 1 de setembro de 2009

Em quem não vou votar no dia 27 - Parte 3 (Sociedade e Educação)

Não votarei em quem diminuiu, humilhou, desprestigiou e prejudicou gravemente os funcionários públicos deste país, transformando-os num exército de preguiçosos e incapazes aos olhos da opinião pública.

Não votarei em quem instituiu um sistema de avaliação de desempenho que, mais do que nunca, favorece o amiguismo e que faz com que a atribuição de boas notas seja determinada por uma espécie de roleta russa.

Não votarei em quem prejudicou a evolução natural e merecida na carreira dos funcionários que são dedicados e que se interessam e, sobretudo, não votarei em quem instalou entre colegas de trabalho a desconfiança, o não olhar a meios para atingir os fins, o cinismo e a falsidade que decorrem da competição por uma boa classificação limitada por quotas.

Não votarei em quem feriu de morte o sistema educativo, roubando a motivação a todos, todos os intervenientes e promovendo uma cultura de facilitismo  e passagens de ano automáticas para garantir metas estatísticas.

Não votarei em quem dá de mão beijada, com provas ridículas, a equivalência ao 9º ano, ao 12º ano, pelos quais eu tive de me esforçar, e pelos quais tenho de gastar balúrdios em livros e material escolar, se quiser que os meus filhos, em idade de escolaridade obrigatória, os obtenham.

Não votarei em quem oferece computadores a torto e a direito, privilegiando pessoas que se limitaram a brincar com o sistema educativo durante os seus tempos de estudante, enquanto trabalhadores dedicados, que souberam honrar os seus estudos, têm de recorrer ao crédito e a prestações se quiserem ter acesso a um computador.

Não votarei em quem parece ignorar que existe um Ministério da Cultura (ao que parece até houve engano na nomeação do Ministro) e certamente não votarei em quem, sem o assumir, secou a fonte que permitia a expansão e consolidação da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, um processo que tem sido elogiado internacionalmente e que certamente contribuiria de forma bem mais eficaz para a redução da iliteracia e para a formação de cidadãos informados, do que a distribuição massiva de Magalhães cheios de erros ortográficos e gramaticais pelas escolas deste país.



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio, Cântico Negro

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