Uma espécie de quarentena

O Bom Dia Portugal de fim-de-semana costuma ter "personalidades" que comentam a actualidade. Há de tudo. Já fiquei de boca aberta com o descaramento de Jorge Gabriel em sábado de reflexão antes das eleições autárquicas a apelar ao boicote no voto a uma determinada força política no concelho de onde é natural e onde eu agora vivo. Já tive o grato prazer de conhecer pessoas que valem mesmo a pena (ocorre-me a escritora Patrícia Reis, que passei a seguir com interesse) e hoje, dei de caras com a Mila Ferreira. Quem é? É a eterna "irmã da Adelaide Ferreira".

Ao que parece, acredita na polivalência, o que parece ser bom. Porém, como cantora, é aquele sucesso estrondoso que se conhece, o que a obrigou a editar o seu (creio que 7º) disco sozinha porque não arranjou nenhuma editora interessada. Pelo que ouvi, também é advogada, mas também deve ser muito bem sucedida, porque parece que tirou um curso rápido de uma ginástica qualquer e agora dá aulas disso. Também já foi professora e até gostava muito. Não tinha nada a ver com a magia do ensino ou com os alunos, era porque podia receber o ordenado a dia 21 sem ter um patrão a chateá-la, mas a lei mudou e ela teve de sair. Qualificações a mais, presumo eu.

A dita senhora impressionou-me muito, como vêem, porque além de um curriculum vitae (como é que eu hei-de dizer isto...) muito abrangente, é dona de umas teorias absolutamente espantosas, entre as quais destaco o facto de haver portugueses de 1ª, de 2ª,de 3ª, etc., que gozam dos correspondentes privilégios. A senhora é perspicaz e já percebeu que há uns que têm a vida muito facilitada e outros que... enfim, não têm. E sabem quem é que esta cantora actriz advogada professora e ginasta considera como sendo os cidadãos de primeira que mais privilégios têm? Tcharaaaaaan: Os funcionários públicos!

Estes tipos são sustentados pelo Estado e deviam era preocupar-se em trabalhar, francamente. Como aquela funcionária da Segurança Social que a acusou de ser mal-educada e de lhe faltar ao respeito e lhe desligou o telefone na cara (caramba, há funcionários públicos que não reconhecem o privilégio de estar a falar com a irmã da Adelaide Ferreira!). E além disso, os empregados do sector privado têm de parar de pedir salários dignos e têm de compreender que os patrões têm de enriquecer, porque só assim se desenvolve a economia. Essa treta do investimento é só conversa fiada, o importante é o enriquecimento dos patrões.

E pronto. Como sou funcionária pública, vou tentar manter-me afastada da senhora, para não a incomodar com os meus privilégios. Até vou evitar comprar o seu CD e aconselhar todos os meus amigos funcionários públicos a fazerem o mesmo. E quando a ouvir cantar, vou mudar de estação de rádio, ou de canal de TV. Comigo não precisa de se preocupar mais, até estou a pensar escrever àquele amigo da senhora (da irmã da Adelaide Ferreira) que agora é primeiro-ministro para pedir que evite utilizar dinheiro descontado do meu salário ofensivo de funcionária pública em hospitais, estradas ou outros serviços públicos que possam ser utilizados por esta estrela. Só para evitar o perigo de contágio, por mais nada.
             

Comentários

  1. Muito interessante o seu artigo, Zélia. A dita senhora foi minha colega na Faculdade e já aí evidenciava os seus dotes entre os quais avultava o de ser irmã da Adelaide Ferreira que, na altura, estava muito em foco.
    Felizmente não vi esse programa. Ainda para mais com o Jorge Gabriel a apelar ao boicote a uma força política da sua terra! A que propósito?

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    1. Bem, Celeste, colega da "irmã da Adelaide Ferreira", que privilégio :)

      O episódio do Jorge Gabriel já foi há uns anos, na véspera das eleições autárquicas de 2009, em dia de reflexão. Hoje foi isto.

      A RTP convida várias pessoas, das mais diversas áreas, para fazerem a análise às notícias da semana. Hoje foi a vez desta senhora. Mas às vezes aparece gente muito interessante.

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  2. Bem como não perco muito tempo a ver tv, aliás ainda não comprei o descudificador da (tdt)tive um dia melhor que o seu ao que parece...
    Fui acistir ao lançamento de um livro na Biblioteca de V.N.Famalicão, mas a surpresa foi a presença do super maratonista CARLOS SÁ foi comovente a sua história, uma vida de campeão, e sem apoios estatais, grande dia, grande dia...

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