Educação gratuita para todos

Fiquei emocionada com a promessa do nosso Primeiro de atribuir aos recém-nascidos, a partir do próximo mandato de maioria absoluta, uma conta bancária no valor de 200 €, a qual só poderá ser movimentada quando o bebé for um adolescente de 18 anos.

Vamos por partes:

1. Uma conta bancária no valor de 200 euros que só pode ser movimentada após 18 anos, acumulará quanto?
Como? Não percebi bem.
Sessenta euros?
Quer dizer que daqui a 18 anos, os jovens felizardos terão 260 € que lhes podem servir para ir para a Universidade, ou para criar um pequeno negócio.
Inflação? Ah, pois é, não me lembrava. Bem, pode ser que dê para beber um café.

2. Se os pais não podem utilizar o dinheiro para comprar fraldas, pagar consultas de pediatria e vacinas, cadernos e livros escolares, quem vai beneficiar deste dinheiro?
Ah, sim, compreendo. São os bancos, que terão a oportunidade de angariar milhares de novos clientes, sem mexerem uma palha. E claro, não devemos esquecer a questão das comissões bancárias, porque os bancos têm de tomar conta do dinheiro e isso tem custos muito elevados.

3. E os pais que já tiveram a coragem de ter filhos, que género de apoio recebem? Nada?
Pois, quem é que os mandou meterem-se em aventuras? Agora desenrasquem-se.

É interessante, não é? Mas se calhar, eu estou um bocadinho traumatizada, porque acabei de gastar 728 euros em livros e material escolar para que os meus filhos possam frequentar a escola sem levarem com faltas de material consecutivas.

É verdade que os manuais escolares são escolhidos para períodos de 5 a 6 anos.

É verdade que os livros indicados para a minha filha Inês, acabarão por ser os mesmos para a Mariana e para o Pedro.

É falso que possam utilizar os mesmos livros, porque as editoras souberam dar a volta à legislação e criaram uma coisa nova que se chama “Bloco Pedagógico”. Este bloco é constituído pelo Manual da disciplina (que pode ser em vários volumes), pelo Caderno de Actividades e às vezes, por um terceiro elemento a que chamam Caderno do Aluno. Parece que a intenção é de evitar que os alunos escrevam no Manual, permitindo que este venha a ser utilizado por outras pessoas nos anos seguintes.

Mas… isso implicava que os cadernos do aluno pudessem ser vendidos separadamente. E podem? Em 95% dos casos, não. Então em que ficamos?

Os pais na minha situação acabam por ter de comprar novos “blocos pedagógicos” completos para os seus filhos. Tem piada, não tem?

E não se iludam, não há volta a dar. No ano passado, tentei aproveitar livros usados. Digitalizei o caderno de actividades, imprimi e encadernei. Expliquei a situação à professora. Fiquei a saber que, até Outubro, a senhora autorizava aquela situação, mas a partir daí, ou a minha filha levava o livro e não uma cópia, ou teria falta de material todos os dias.

E que dizer das intermináveis listas de material para as diversas disciplinas?

Lápis da marca XYZ e não de outra qualquer. Lápis de cor, marcadores, lápis de cera, guaches e pincéis, aguarelas, tesoura, compasso, régua de 15 cm, régua de 20 cm, régua de 30 cm, régua de 50 cm. Esferográficas azuis e lapiseira, porque os professores não querem os meninos de pé a afiar os lápis. E corrector (a borracha já passou de moda, era muito barata), fita-cola e cola da marca ABCD. Cartolinas de dimensões e espessura diferentes, uma resma de papel, blocos de papel cavalinho para desenhar.

Para a disciplina A, caderno de argolas, para a disciplina B, caderno sem argolas. Para as disciplinas C e D, dossier com pelo menos 3 cm de lombada. Portfólio independente para as disciplinas A, C, D e E. Nas áreas curriculares não-disciplinares (é assim que se chamam aquelas coisas para passar o tempo do Apoio ao Estudo, Área Projecto e Formação Cívica) convém também levar um caderninho, pode ser preciso escrever qualquer coisa.

E… e… e…

É verdade, estou emocionada com a generosidade das promessas eleitorais do nosso Primeiro. Só não disse qual era a emoção. Mas dá para adivinhar, não dá?

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