segunda-feira, 23 de julho de 2012

Na primeira pessoa

Transcrevo aqui apenas uma parte. Vale a pena ler o texto completo, no Público de hoje.
Chegou sexta, dia 13. Sabia que quem tivesse horário zero seria notificado pela direcção da escola até às 18h30. Faltava um quarto de hora para as cinco quando caiu a mensagem de email. "Assunto: notificação." Chorei, horas, até já nem saber que chorava. E insisto: não foi só por causa do horário zero, daquele murro no estômago que é ler que não há alunos para nós. Foi também por sentir que algo em mim se quebrara, de forma irremediável.
Passei a vida a fazer contas e cada decisão que tomei assentou em cálculos precisos. Objectivo mínimo: garantir aos meus filhos uma qualidade de vida superior à que eu tive, como os meus pais fizeram em relação a mim.
Já tinha percebido que a realidade é avessa à Matemática. Não fosse assim e o futuro teria acontecido como está descrito nesta folha em Excel, em que eu e o meu marido sustentámos a decisão de pedir um empréstimo. A casa existe, mas há este flagrante desvio na parcela dos vencimentos. Juntos, ganhamos menos 800 euros por mês do que previmos na altura.
Podem argumentar que errámos no cálculo das probabilidades. Mas, por mais que isso agora pareça estranho, na altura era natural as pessoas confiarem na estabilidade das leis, como as que garantiam que íamos progredir na carreira ou receber os vencimentos por inteiro e os subsídios pelo Natal e no Verão.
Tentei adaptar-me a essa fragilidade de um Estado, que antes achava assente em leis estáveis e seguras. Mas sucumbi, no último mês, à situação inimaginável que é todos os dias - todos - sentir que esse edifício treme e se deforma. A ponto de não passar pelo sono sem um sobressalto, tais as probabilidades de adormecer professora e acordar descartável.
Dizem-me que há muitas hipóteses de eu ser "repescada", de voltar a ter um horário, alunos. E eu penso: talvez. Mas não posso voltar a ter-me a mim, tal como eu era antes disto. 
Assim se destrói um País.

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