quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A extinção

Para cá do Rio Tejo, já dizia Mário Lino, esse grande pensador contemporâneo, fica o deserto. Não surpreende portanto, à luz dessa filosofia "Liniana" que os estrategas do Portugal moderno escolham uma e apenas uma via para o desenvolvimento: A extinção.

A extinção é uma técnica governativa segundo a qual se eliminam sistematicamente as situações incómodas ou potencialmente geradoras de preocupações enquanto se distraem os parolos, não com bolos, mas com um palavreado giro e dinâmico em que se incluem palavras-chave como reforço da segurança, rentabilização de recursos, produtividade, eficiência dos serviços, eficácia na gestão, etc., etc..

Acontece porém que todas estas expressões extremamente válidas e relevantes quando aplicadas a situações concretas, mais não são do que blá blá blá no discurso da grande maioria dos nossos políticos.

Enquanto no Hospital de S. João há cerca de 30 cirurgiões que não fazem uma única cirurgia por ano, no interior do país fecham-se centros de saúde porque há que rentabilizar os recursos qualificados (pagando-lhes um ordenado para fazerem zero cirurgias por ano) num hospital de uma grande cidade. Eu não sou burra e sei que há uma grande distância entre um médico de clínica geral e um cirurgião. Eu também não gosto que me confundam com uma arquivista e aposto que 99% dos que estão a ler isto acham que é a mesma coisa (sem desprimor para os arquivistas que também não gostam de ser confundidos com os bibliotecários). Mas recordo que os professores também são profissionalmente especializados e não é por isso que têm deixado de ser tratados como um bando de ovelhas em transumância.

Enquanto há dinheiro para financiar colégios privados, fecham-se salas de aula no interior. Afinal, que ambição é que estes miúdos do interior podem ter? Querem ser médicos e dar consultas na sua terra, à Fernando Namora, queres ver? Dediquem-se mas é à agricultura, que para isso não precisam de gastar dinheiro ao Estado. É a produtividade e a eficácia na gestão.

Enquanto há vagar para fazer umas campanhas inovadoras para chamar a atenção dos populares para as questões de segurança, fecham-se postos da PSP e da GNR no interior, porque afinal, quem é que ainda mora aqui? Não há hospitais, não nasce ninguém. Se não nasce ninguém, não há miúdos para frequentar a escola. Se não há miúdos, também não há adultos que precisem de serviços básicos como os Correios. E se não há população, porque já os enxotámos todos, para que é que precisamos das juntas de freguesia ou das câmaras municipais? O dinheiro gasto por ano com as assembleias de 4 ou 5 municípios dão para pagar a um (sim, um só) turbo assessor do governo.

Tribunais? Fechados. Então, se não há ninguém para prender os criminosos... Quanto ao direito civil, também não faz falta, estes tipos do interior são uns broncos, não sabem o que isso é.

E já agora, se não há ninguém, feche-se o último bastião do Estado: as repartições de finanças. Os poucos teimosos que restam que vão pagar a outro lado.

Não se queixem, parece que há um aeroporto de sobra. Querem ficar com ele?


A partir de hoje, o Posto da GNR em Safara passa a ter horário administrativo e está encerrado a partir das 17 horas.

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