quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

No deserto

A RTP1 passou hoje uma reportagem sobre o encerramento dos centros de saúde no nordeste transmontano. Apesar de terem o direito fundamental, num Estado que se quer moderno e de primeiro mundo, a ter cuidados de saúde básicos e vitais, os entrevistados (julgo que responsáveis políticos) já nem punham isso em causa, mas chamavam a atenção para o gelo acumulado nas estradas nesta altura do ano, impedindo as deslocações de doentes até Bragança. E o que faz esta gente, fica a morrer em casa? A tutela diz que o serviço é caro, e que a média da sua utilização é baixa, logo, há que fechar. A estatística comanda.

A desertificação do interior, esse chavão que aprendemos nas aulas de Geografia e que ouvimos repetidamente pela vida fora nos discursos políticos, não é obra do Acaso. Resulta de escolhas, péssimas escolhas feitas pelos nossos governantes dos últimos 35 anos.

Primeiro retiraram-nos a mobilidade. Quilómetros e quilómetros de linha de comboio que os Regeneradores tanto se esforçaram por construir, completamente votados ao abandono. Os edifícios onde funcionavam as estações estão completamente arruinados, vítimas da estupidez da CP e da REFER, que se recusam a ceder as casas para outros fins, e por isso preferem vê-las destruídas. Populações envelhecidas, sem condições de mobilidade autónoma, privadas da liberdade de movimentos, só podiam ir à cidade na ambulância, quando estavam doentes. Iam, mas agora vão ficar doentes em casa, porque não vão ter condições para pagar o serviço.

Os jovens já cá não estão. Os primeiros foram com o comboio, outros com os autocarros que supostamente substituiriam o serviço. Outros, forçados a prosseguir os estudos longe de casa, nunca mais voltaram. Preferem o conforto, preferem ter acesso a serviços de saúde, a transportes, a escolas para os filhos. Mesmo que quisessem, não poderiam voltar. A profissão que escolheram já não tem vagas no interior. Os poucos lugares que restam estão ocupados com gente à espera da idade de reforma, depois extinguem-se.

São cada vez menos: Professores e Educadores, Médicos e Enfermeiros, Bombeiros e Polícias. Não há empresários, não há indústria, porque não há vias de comunicação, não há turismo porque ninguém quer ver terras moribundas. Não há comércio, porque não há clientes. Não há famílias. Não há gente.

Fomos esquecidos pelo governo central, que prefere rir-se às nossas custas. Investimento para o deserto, jamais! Os governos locais, que deveriam lutar pelas suas terras e reivindicar os direitos das populações que os elegeram, não podem contrariar as indicações que vêm “de cima”. Um dia, deixará de haver gente suficiente para os eleger, porque quem comanda é a estatística. E onde não há votantes, não há palhaços.
         

4 comentários:

  1. A governação tem sido feita sob a perspectiva económica. As pessoas não passam de números, estatísticas, lucros em potência. A maximização do lucro irá até onde conseguir esticar o elástico. Até que parta, com consequências imprevisíveis. Enquanto isso, há quem viva excessivamente folgado.

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  2. Do melhor que li!!
    Onde raio assino? ;O) é que não há nada a acrescentar!

    Zeza

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  3. “ALENTEJO, ULTIMA RESERVA NATURAL DA EUROPA” NÃO DEIXE DE VISITAR, PROMOÇÕES – COM VISITA E CONTACTO A ESSA ESPECIE RARA “ALENTEJANOS”
    Será assim que num futuro, venderão este destino turístico, começaram a preparar isto há quase 4 décadas se bem se lembram: Primeiro a esperança da revolução de Abril, depois a Reforma Agrária, e terra para todos, depois os dinheiros da Europa, no entanto alguém se lembrou, que não teríamos direito a um desenvolvimento digno, éramos poucos, e poucos não dão votos, não dão lucro, vai daí, começou o inferno: acabaram com a agricultura, com a industria, a pouca que havia, depois como éramos poucos, não necessitávamos de tantos serviços, encerraram os comboios, as escolas, os correios, hospitais, centros de saúde, GNR, PSP, finanças, tribunais, como éramos poucos, não valia a pena ter estradas em condições, logo não haveria empresas privadas, nem públicas, nem nada, e se fechasse-mos freguesias e câmaras, boa ideia, e se fizéssemos um resort turístico com os poucos que restam???
    Uma revolta como a do Egipto, é o que mereciam, tenham vergonha, esses senhores que nos governaram, desde o 25 de Abril, não tinham o direito de nos roubar o sonho de ABRIL, duma sociedade mais Justa, dum ALENTEJO, que também era gente.

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