E as Bibliotecas, pá?

Ainda não ouvi, nem li, uma única palavra sobre a intenção dos diferentes partidos políticos relativamente à política nacional para as bibliotecas, para a Rede de Leitura Pública ou para a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas.

Completamente absorvidos por toda a roupa suja que há para lavar, os candidatos não estão interessados em perder tempo com assuntos deste tipo. Políticas educativas, formação de cidadãos qulificados, promoção da leitura, acesso democrático à informação... São pormenores que podem definir uma sociedade, mas que não têm o mesmo peso televisivo que meia dúzia de insultos ou a promessa de segredos por desvendar.

Fazendo as contas por alto, 308 concelhos com bibliotecas públicas, a uma média de... 8 funcionários (penso que é realista), multiplicada por 2, que representa o número de pessoas no agregado familiar com direito a voto, em média, dá 4928 votos.

Se estes bibliotecários tiverem um grupo de apenas 10 utilizadores nas suas bibliotecas preocupado com a subsistência do serviço que utilizam, com os padrões de qualidade predefinidos, teremos mais 3080 potenciais votos, a que se podem juntar os respectivos agregados familiares. E ainda não saí do domínio das bibliotecas públicas.

Gotas no oceano? Podem ser, mas numa situação de empate técnico, talvez fosse bom alguém abandonar o tanque da roupa suja e pegar nestes pormenores que, volto a dizê-lo, podem definir uma sociedade.
                  

Comentários

  1. Mas existem 308 bibliotecas municipais, cada uma com 8 funcionários em média?

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  2. Teoricamente, existe uma biblioteca por concelho e já devem ser muito, muito raros os concelhos que não têm biblioteca, seja ela de que tipo for.
    Relativamente ao número de funcionários, é uma média estimada sem qualquer rigor científico. Há bibliotecas com 2 ou 3 funcionários, mas há outras, especialmente nos centros urbanos, com 2 ou 3 dezenas. Não somos assim tão insignificantes, pois não?

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  3. Não, de facto não são, mas também não percebo a necessidade de existir uma biblioteca por concelho. Obviamente que algumas que agrupassem 2 ou 3 concelhos, permitiria ganhar escala, racionalizar custos e melhorar a oferta. Também é verdade que há que ter em atenção as distâncias, provavelmente nos concelhos do interior, uma redução não seria razoável, porque impediria o acesso às populações, mas francamente nos arredores de Lisboa, existir uma biblioteca em Oeiras outra em Cascais, uma apenas permitiria reduzir custos nas infra-estruturas, no número de funcionários provavelmente não, pois esta seria forçosamente maior. O mesmo digo para Montijo, Moita e Alcochete, que de tão próximos, terão 3 bibliotecas? E se fossem apenas bibliotecas... Mas neste país não se racionaliza, e depois quando se tomam medidas, é no interior, provocando a desertificação...

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  4. António, francamente, nem sei o que lhe diga... Isso é regredir décadas em todos os aspectos. 1 biblioteca para 3 concelhos? Você ia à biblioteca se ela estivesse a 30 ou 40 km de distância? Porque é que não as fecha de uma vez?

    As bibliotecas são a garantia por excelência do acesso livre e demicrático de TODOS OS CIDADÃOS à informação em IGUALDADE de circunstâncias.

    Realmente, há muito por onde racionalizar, mas NUNCA poderá ser no direito ao acesso LIVRE à informação. Este é um princípio inviolável das sociedades livres e todos deveríamos pugnar por esse direito.

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  5. Zélia, não leia o que não escrevi. Ressalvei o interior, obviamente que não iria 30 ou 40 kms até à biblioteca mais próxima. Mas iria sem problema algum do Montijo até Alcochete, tal como fiz inúmeras vezes para tomar café, percorrendo uns exagerados 10 kms. E até quem sabe percorresse os cerca de 15 que distanciam o Montijo da Moita. Mas se morasse em Cascais e tivesse de percorrer os cerca de 15 kms até Oeiras, também não viria mal ao mundo. Estou a falar apenas do litoral, Zélia. A questão é que talvez se pudessem ter maiores e melhores bibliotecas, a racionalização seria apenas nos edifícios. Poderia é provocar um efeito perverso, uma enorme diferença entre as bibliotecas do litoral e do interior, facto que curiosamente a Zélia não contestou. Obviamente que não tenho esta matéria estudada, daí a provocação que lhe atirei, mas as distâncias não, numa extensão territorial como o Concelho de Moura, cabem 3 ou 4 concelhos dos arredores de Lisboa. Tenho a certeza que existindo apenas uma biblioteca por concelho, os habitantes do Sobral d'Adiça têm muito mais dificuldade de deslocação até à sede do seu concelho, que entre as sedes dos concelhos de Montijo e Alcochete... Tem dúvidas?

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  6. António, nem sei que lhe diga...
    1º Iria sem problemas do Montijo a Alcochete. Tem carta de condução e carro, certo? Os miúdos com menos de 18 anos não têm e as crianças com 5 ou 6 anos do Montijo, neste caso, nunca saberiam o que é uma biblioteca. E os reformados que passam regularmente pela biblioteca para ler o jronal e não só? É por isso que um dos princípios básicos das bibliotecas é a proximidade do leitor.
    2º - Enorme diferença entre as bibliotecas do litoral e do inteerior, que eu não referi, porque não existe. Algumas das melhores bibliotecas do país estão no interior, quer em termos de equipamento e fundo documental, quer na dinâmica do trabalho realizado, que já depende do bibliotecário responsável. Voltamos aos princípios das Bibliotecas e à importância da DGLB: Garantir que não há desfasamento dos serviços prestados às diferentes populações. Seja uma cidade do litoral ou uma vila do interior, todos têm de ter as mesmas possibilidades de acesso à informação.
    3º No meu concelho existe um biblioteca sede, 4 bibliotecas escolares e 6 bibliotecas "de proximidade" com os serviços básicos assegurados e a possibilidade de aceder a todos os serviços da biblioteca sede ou de qualquer outra, porque funcionamos em rede. E sim, uma delas é no Sobral da Adiça.
    E isto não se traduz em investimentos desmesurados, porque como sabemos, é o assunto deste post, as bibliotecas não são trunfos eleitorais... O que há é muita vontade de cumprir uma missão, de garantir igualdade no acesso à informação para TODOS. E isso tem sido feito de forma discreta por centenas de pessoas em todo o país. Um trabalho de formiguinha, imparável, incansável, que um dia dará frutos, quando conseguirmos anular a diferença entre os que dominam as formas de utilização da informação e aqueles que mal sabem ler ou escrever. Não esqueças que informação é poder e por alguma razão durante décadas o nosso país se afundou no analfabetismo. Agora corre o risco de se afundar na iliteracia (pessoas que lêem mas não conseguem compreender o que lêem nem utilizar a informação da melhor forma), e é isso que queremos evitar.
    É claro que os nossos políticos preferem gente que não pense, que se deixe encandear pelos sorrisos pepsodent e por meia dúzia de palavras positivas ("força", "avançar portugal", "mudança", "melhor", etc.), que não saiba interpreetar programas eleitorais nem consiga distinguir as difereenças entre versões diferentes do acordo com o FMI, mas as bibliotecas e os bibliotecários vão continuar a trabalhar para que isso tenha um fim. Pode ter a certeza.

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  7. Fico feliz por saber que as pessoas de localidades remotas, o Sobral d'Adiça foi um mero exemplo, têm acesso a bibliotecas. Obviamente que a minha posição inicial não foi mais que uma hipótese, carece de estudo, mas digo que é mais rápido ir do Montijo a Alcochete, do que provavelmente de uma ponta à outra do Montijo, apesar da localidade não ser assim tão grande. E no meio (mais ou menos), ainda fica a Atalaia, cujos habitantes também necessitam ter acesso. As bibliotecas podem não ser o melhor exemplo e em caso algum afirmei que existem bibliotecários a mais, talvez até sejam a menos, o que procurei foi utilizando o exemplo das bibliotecas, tentar demonstrar que as autarquias têm tudo a ganhar se deixarem de lado as rivalidades políticas, algumas questões pessoais entre autarcas e partilharem meios, por forma a conseguirem escala e prestarem um melhor serviço às populações. Admito que as bibliotecas podem não ser o melhor exemplo, até porque desconheço as municipais, conheço a biblioteca nacional, mas é certamente uma escala completamente diferente, que provavelmente me influencia o pensamento. Estou de acordo consigo em muito do que afirma. Mas se desviar o assunto das bibliotecas para hospitais, sabemos que praticamente todos os concelhos querem o seu, que depois na realidade não passa de um atendimento mais urgente, prestando cuidados primários em ambulatório. Mas se falarmos em Tribunais, nem pensar em retirar o Tribunal cá da terra (não estou a falar de Moura, que nem sei se tem um). Provavelmente as bibliotecas não serão mesmo o melhor exemplo, mas algo terá de ser feito partindo de dois pressupostos, racionalizar custos e prestar um melhor serviço ás populações, que nem sempre implica proximidade. Sabemos que muitas vezes, apenas o primeiro pressuposto é levado em conta. Porquê? Muitas vezes porque o país não tem de facto meios, mas outras pela mesquinhez, rivalidades locais e coisas do género, quando uma partilha de meios entre municípios, permitiria obter vantagens para todos. No caso das bibliotecas, tive o cuidado de dizer desconhecia a questão e que a mesma carecia de estudo. Algo por exemplo que todos os municípios deveriam ter, era postos (lojas) de atendimento ao munícipe nas localidades que não são sede de concelho. Não sei até que ponto conhece Lisboa, muitos municípios instalaram lojas desse tipo nos centros comerciais, mas deixe-me dar um exemplo, a Câmara de Loures instalou uma num centro comercial de Loures, o que permite aos munícipes tratarem diversos assuntos ao fim de semana, mas esqueceu-se de colocar uma em Sacavém, nem sequer com horário diurno, o que implica que os milhares de habitantes de Sacavém se tenham de deslocar a Loures. Claro que apenas o fazem para tratar de assuntos relacionados com o SMAS, porque tudo o resto se consegue...em Lisboa! Já onde moro, na Póvoa de Sta Iria, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, tem uma delegação que reúne todos os serviços municipais, evitando que nos desloquemos 15kms dentro do Concelho, bem mais penosos que a distância entre Montijo e Alcochete, porque apesar do transporte existir, passar Alverca é um sufoco em termos de trânsito. Não sei se agora me fiz entender, mas a minha lógica passaria sempre por descentralizar serviços chegando a mais locais, eventualmente agrupando mais na base dos mesmos, o que permitiria reduzir custos como edifícios, sistemas informáticos, etc...

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