quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Que mal se tratam os filhos dos outros...

Antes de abrir a porta disse duas ou três vezes "Estão mesmo interessados? Não me façam perder tempo, tenho muita gente interessada nesta casa".

"A verdade é que andamos a ver casas. Hoje ainda tenho mais casas para ver e depois decidiremos."

Começa a abrir portas, todas fechadas à chave. "Estes quartos estão fechados deste Outubro, não têm respiração, é por isso que cheiram assim."

No primeiro, está uma cama por fazer, o colchão ainda com a marca do corpo que ali pernoitou. "Este é de uma miúda que vai sair no fim do mês". Ainda com a frase "fechados desde Outubro" na cabeça, olho à volta desolada. Está tudo ali. Roupa interior, objectos pessoais, a vida da "miúda que vai sair no final do mês" devassada por uma data de gente que ela não conhece nem nunca conhecerá.

Avançamos, o melhor ainda está para vir. Tudo me faz lembrar as casas desocupadas, velhas e sem  condições que costumávamos alugar para fazer as festas da passagem de ano. A cozinha é... um sítio com um lava-louça e vários armários, um de cada nação, espalhados pelas paredes. Como precisamos de espaço para cinco pessoas, ele sugere que se acabe com a "sala". Até dispensa uma mesa velha de plástico que está tombada no quintal para pôr na cozinha "e fazem ali a sala, está a ver?" Além disso, há um alpendre, podem almoçar e jantar ali, ao ar livre. "Esta gente nova não tem frio, está a ver?"

Abano a cabeça, digo coisas vagas e inofensivas como "pois, compreendo" e "sim, estou a ver".

Chegamos enfim ao ex-líbris. A casa de banho é razoável, se estiver a concorrer na categoria "Casinhas para o cão", como a que eu tenho no quintal.

Por uma questão de educação pergunto "E o preço?"

"São quantos? Cinco? Setecentos euros, pode ser? Acha muito? Faço 650. Despesas à parte, claro!"

Claro.

3 comentários:

  1. Estava a ler e a visualizar umas que vi enquanto lá andei...havia de tudo, e também fui ver uma desse género, meter a chave à porta e entrar com pessoas lá a morar, decidi logo que aquela não era de certeza. Chamo a isso aproveitamento, é quererem fazer negócio só para terem lucro, não mobilam as casas, não fazem obras, nada. A associação de estudantes e a universidade poderiam ter uma palavra a dizer nestes casos mas também não me parecem muito interessado em intervir, assim temos que ir descobrindo por nós e "dar muito à perna" até encontrar o que realmente interessa.

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  2. Olá Zélia, teria tanto para dizer sobre isto...enfim.
    Imagine um casa de banho que entope constantemente, ficando assim impossibilitada de ser usada, liga se para a senhoria pela 2145 vez, e em jeito de ultimato, diz se que a situação não pode continuar e por aí a fora... resposta obtida: O mais q posso fazer por vocês é convida-los a sair...
    e é o dia-à-dia, mas ao final do mês a mensalidade q nunca se atrase!

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