A minha vida de funcionária pública

Sou funcionária pública desde os 17 anos, tenho agora 41. No próximo ano completarei 25 anos de serviço público. Desde o meu primeiro dia de trabalho procurei sempre dar o meu melhor. 

Foi o meu salário de funcionária pública que me permitiu pagar os estudos, frequentar a universidade, tirar a licenciatura, a pós-graduação, iniciar o mestrado e agora o doutoramento que tenho de repensar porque provavelmente não vou conseguir pagar as propinas.

Tenho 3 filhos, com os quais vivo sozinha. Na minha casa só entra um ordenado, que é o meu. É pouco mais de mil euros, por isso tenho vindo a ser roubada ininterruptamente desde há alguns anos. A expressão "incentivos a famílias numerosas" tem a vaga conotação de piada de mau gosto. Até agora ainda tinha direito ao abono de família (caramba, sou mesmo pobre!!!), mas esse privilégio extraordinário deve estar a acabar.

A minha casa é só parcialmente minha. A esta altura devo ser a feliz proprietária da entrada, do corredor e talvez do quarto da minha filha mais velha. O resto ainda é do Banco. Quando pensava que ia começar a ser dona dos degraus das escadas, um a um, vejo-me confrontada com a hipótese de vir a perder os metros quadrados que já conquistei.

Em 10 anos, fui 4 vezes de férias. Normalmente, gasto esses dias a dar formação especializada proporcionada pelos meus conhecimentos académicos e enriquecida pela experiência do trabalho que desenvolvi ao longo destes 25 anos. É esse rendimento extra que me permite enfrentar batalhas como a do início do ano escolar ou das mudanças de estação.

No país dos funcionários públicos que ouvimos descrever nos meios de comunicação social, já estaria no topo da carreira. Não se iludam. Em 14 posições, estou na 5ª, e preciso de trabalhar talvez mais 100 anos para conseguir chegar ao topo.

Nos últimos 5 anos obtive a classificação de Muito Bom, mas este ano nem sequer vou ter avaliação, porque não me chegaram a ser atribuídos objectivos. Não me fez grande diferença, porque há um objectivo que me norteia desde miúda: dar o meu melhor todos os dias. E é isso que continuo a fazer, mesmo hoje, em que vejo os meus direitos serem roubados desta maneira. Mesmo hoje, quando vejo que, 25 anos e muito trabalho depois, provavelmente nem vou conseguir suportar as despesas inerentes a ter filhos na universidade e vou ter de engolir em seco milhões de vezes para arranjar coragem de lhes pedir que consigam o milagre de arranjar um trabalho para poderem estudar,como eu fiz. Só que eu fi-lo na convicção de que estava a lutar para poder dar um futuro melhor aos meus filhos, como o meu pai, que só tirou a 4ª classe mas é o homem mais íntegro que eu conheço, fez comigo. E agora, sou obrigada a reconhecer que não consegui.

Sou funcionária pública, não consigo fugir aos impostos nem às deduções, nem a nada. Sou funcionária pública e trabalho para o meu país, para a minha comunidade, imbuída dum espírito de missão que só quem o tem pode compreender. 

Não me interpretem mal, mas não se atrevam a ter pena de mim. Sou uma pessoa muito forte. Tão forte que, mesmo sendo funcionária pública em Portugal, estou decidida a sobreviver. 

Texto escrito em comentário a este post.
                         

Comentários

  1. Eu não tenho pena de ti, Zélia, eu admiro-te. Tu preocupas-te com essa questão de que falhaste em dar aos teus filhos um futuro melhor, porque receias não lhes poderes pagar a universidade. Eu acho que não, porque estás a dar-lhes um bom exemplo. Se eles forem batalhadores como tu, só não conseguirão um futuro melhor, se as circunstâncias não o permitirem (uma crise destas, por exemplo). Mas isso não é da tua responsabilidade. Tu dás o teu melhor. Mais, não se pode pedir a ninguém. Isso da casa é uma injustiça, espero que não percas aquilo que já conseguiste.

    Bom texto! Espero que o Pedro Correia te escolha para comentário da semana ;)

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  2. Cristina, obrigada pelo teu comentário.
    Quanto à casa não te preocupes, está tudo normal, mas que vejo os dias que aí vêm com muito medo, isso vejo...

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  3. Os funcionários públicos são o bode expiatório para todos os males da nação, são os primeiros a que cortam e são os que não podem escapar de nenhuma forma.
    Começo a ficar farta deste país e deste (des)governo, um país que viveu à conta de subsidios da União Europeia que não soube aproveitar, um país em que a agricultura deixou de existir e se dão subsidios para não produzir...não sei onde isto vai parar mas não me parece que pare rápido e em bom porto.

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  4. campista selvagem15/10/11, 00:40

    Finalmente uma pedrada no charco, um charco envenenado onde nem as rás consueguem resistir, finalmente alguém que reclama com bom senso, alguém que luta.
    Não sou fonc. Publ. mas venho a sentir os mesmos problemas, parecem cópias, estou na mesma vara seca à espera que quebre.
    Gosto da maneira como encara a guerra, uma guerra que nós não pedimos para entrar.

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  5. Brilhante este texto que apresenta uma realidade sobre a qual - os homens da minha idade - depois de trinta e cinco anos passados, pensaram não ser possível.

    Não podemos desanimar, a luta é de todos os dias.

    Cumprimentos.

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  6. O poder sabe como trabalhar as mentes fracas e promove-se a rivalidade entre o público e o privado esquecendo estes que são todos trabalhadores no mesmo barco. É assustador ver o número de mentalidades que embarca nesta artimanha. Dividir para reinar já é coisa antiga.

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  7. Um forte (muito forte) abraço.

    Estive ontem na manif do Porto e fiquei desiludido pelo reduzido nº de pessoas... muito menos que na de 12 de março!

    Beijinhos

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  8. Zélia, não é pena, longe disso mas para muitos animais que por aí andam, nada disso conta. Somos uma corja que não merece nada. A blogosfera veio mostrar como é este país, uma cambada que em vez de se unir para ultrapassar este momento tão difícil, sai à rua para dar bordoada nos outros. Há muita inveja por aí. As caixas de comentários mostram-no muito bem Uma tristeza.
    Beijo grande.

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  9. Zélia,
    Envio um abraço solidário e aproveito para dizer que votaria em ti como futura Presidente da Câmara.
    Um abraço amigo

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  10. Zélia, parabéns. Parabéns pelo texto que está excepcional, parabéns pelo que conseguiste com tanto esforço, parabéns por constinuares a dar o melhor, porque sabemos aque ser funcionário público é isso.É servir a população da melhor forma que sabemos e podemos.Beijo
    Fátima Silva

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  11. Fernando Pinto21/10/11, 16:19

    Gosto!!!

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  12. Fernando Pinto21/10/11, 16:22

    Para que não fiquem duvidas - Gosto muito do texto!!!

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