O Desacordo

A justificação da mutilação da língua portuguesa com uma estratégia de aproximação e uniformização do português falado e escrito em Portugal ao português dos países lusófonos, acaba de cair por terra com um editorial publicado no Jornal de Angola. Depois da indiferença e desprezo revelados pelos brasileiros, eis a opinião dos jornalistas angolanos sobre o triste Acordo:

“Escrevemos à nossa maneira, falamos com o nosso sotaque, desintegramos as regras à medida das nossas vivências, introduzimos no discurso as palavras que bebemos no leite das nossas Línguas Nacionais”, defende um jornal angolano, acrescentando que “do ‘português tabeliónico’ aos nossos dias, milhões de seres humanos moldaram a língua em África, na Ásia, nas Américas”.
“Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos negócios. E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português”, escreve o jornal, defendendo exactamente que os mais sábios ensinem os que menos sabem. 
Para o “Jornal de Angola”, o português falado neste país tem características específicas, “uma beleza única e uma riqueza inestimável”, que devem ser mantidas, assim como tem o português do Alentejo ou o português da Bahia. “Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP”, atesta, concluindo que não é aceitável que através de um qualquer acordo a grafia seja esquecida. “Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.”
Bem sei que a CPLP precisa de justificar a sua existência e as verbas que lhe foram atribuídas com alguma coisa visível, mas será mesmo necessário insistir neste disparate? Se ninguém quer este Acordo, porque é que insistimos na sua implementação?

Há, por esse país fora, milhares de pessoas a manifestarem a sua indignação nas redes sociais, em workshops, debates e reuniões, nas suas áreas de trabalho e de influência. Há argumentos válidos e legais contra este acordo. Ainda não vi argumentos pró-acordo (excepto o que acaba de ficar demonstrado como falso acima), apenas frases iradas em que somos apelidados de Velhos do Restelo, situacionistas e anti-progresso.

Vejo determinados sectores da sociedade e da política aderirem ao acordo só para mostrarem a sua modernidade e inteligência. Acontece que a modernidade não é aceitar de olhos fechados e sem qualquer ponta de espírito crítico tudo o que nos querem impor só porque é diferente do que tínhamos até então. E a inteligência, meus amigos, está precisamente em aproveitar o que está bem feito para ter tempo livre e recursos para corrigir o que está mal. E há tanta coisa por aí...
         

Comentários

  1. Inaugurado o Site: www.semacordocomoacordo.com
    Visite, participe e divulgue.

    ResponderEliminar
  2. Ora bem! Não diria melhor! E a petição-manifesto contra o AO, subscrita por alguns Velhinhos do Restelo Prémio Pessoa (mas, enfim, Pessoa também já é um "velho" para os modernaços da língua), continua a receber assinaturas! Gostava que os administradores da petição aproveitassem a polémica que a nobre tomada de posição de Graça Moura provocou e voltassem à carga: ou é agora que se pressiona o governo a revogar este acordo imbecil (basta passar os olhos pelo VOLP para constatar o que faz à nossa língua!) ou então teremos novo português à revelia dos cerca de 128 mil "velhinhos" que assinaram a petição!

    ResponderEliminar

Enviar um comentário