segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sangue

O debate da manhã na Sic Notícias era sobre os dadores de sangue e as regalias que o Governo fez o favor de lhes retirar.

Antes de mais, quero fazer uma declaração. Tenho vergonha deste governo. Um bando de políticos da treta que, por migalhas, retiram o mérito a quem o tem. Alguém contabilizou os lucros incomensuráveis que o Estado vai ter com esta medida? Compensa realmente enxovalhar as pessoas desta maneira? Há necessidade de pedir meia dúzia de euros a uma pessoa que está doente quando essa pessoa salva vidas? Tenham vergonha!

Nunca dei sangue. A anemia que me acompanhou ao longo da maior parte da minha vida adulta, nunca o permitiu. A mesma anemia, agravada por uma situação de cirurgia levou-me um dia a uma transfusão. 2 unidades de sangue novo nas minhas veias.

Penso muitas vezes nisso, neste sangue. De quem será? Quem será o homem ou a mulher que hoje (espero!) continua a fazer o seu dia-a-dia sem saber que me salvou a vida? Que profissão terá o homem ou a mulher a quem devo todos os dias que vivi de 2002 até hoje? Terá filhos, o homem ou a mulher que me permitiu ver crescer os meus? Será leitor? Desportista? Gostará de música? E de futebol? Será do Sporting? Será de esquerda ou de direita? Irá votar? De certeza que vai, quem salva vidas não fica acomodado em casa no dia em que pode ter uma palavra a dizer.

Que parte de mim, hoje, é dessa pessoa? O que mudou em mim nestes anos, é fruto da aprendizagem de vida ou veio com esse sangue que alguém, homem ou mulher, deu um dia, sem saber que me salvava a vida? Espero que seja feliz, que dê gargalhadas despreocupadas, que goste da vida como eu gosto, da vida que, afinal de contas, me permitiu ter.


3 comentários:

  1. Estou do outro lado da barricada, sou ou duador desde miudo, aos dezoito comecei a minha cruzada, aliaz é de familia quase todos seguimos os passos do progenitor.
    No entanto também eu pensei em faser birra, não pelas isenções que nos tiraram(felismente nunca usufrui delas mas pelo desperdicio, desperdicio por interesses de alguns, uma vergonha.
    É verdade que repensei, mas filo unicamente porque são vidas humanas que estão em jogo, e amanhã pode ser a minha ou a de algum dos meus...
    (AFINAL NEM CUSTA NADA)

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  2. Olá! Eu também recebi sangue logo à nescença, uma transfusão total, também por isso desde os 18 anos sou dadora, por algumas vezes tive o estatuo de isenta de pagar taxas moderadoras (facto que na realidade pouco ou nada usufruí) mas sentia-me orgulhosa por ser reconhecida a minha dádiva, e poder dizer às pessoas, que tinha contrapartidas relacionadas com o meu direito à saúde por ser generosa! Não sei quantas dádivas dei, quebrei algumas vezes a periocidade, por ter filhos, por amamentar, por estar debilitada, por não gostar da forma como nalgumas situações me julgavam e interrogavam sobre os meus comportamentos (porque há formas e formas de perguntar sobre os comportamentos e atitudes das pessoas). POr vezes o meu sangue apresenta uma proteina qualquer que altera os valores das análises, e que leva a que o meu sangue não possa ser aproveitado (apesar de me garantirem que não é nenhuma doença),até agora, faziam-me a análise se o sangue estivesse bom, recolhiam, se tivesse a tal de proteína mandavam-me para casa, da última vez que fui, a médica de serviço, mais prática e consciente das necessidades de poupança de recursos, disse-me que não valia a pena continuar a dar sangue, e fazerem as tais análises.. que já tinha feito muitas dádivas e que, com os valores da tal proteína a maior parte das vezes o meu sangue não poderá ser aproveitado....Fiquei a pensar se o sangue que importam terá tanta análise? Fui assim dispensada de ser dadora...e o estranho é que fiquei com a amarga sensação de ter sido dispensada, e com a impressão que depende dos critérios de cada médico!!!
    MG

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  3. Para além de gostarmos dos torrões de açucar amarelo, temos também em comum, sangue de alguém que não conhecemos. E no meu caso, só não conheço por comodismo meu(talvez).
    Houve muitas coisas desse tempo que esqueci, mas não esta frase de uma Enfermeira "fixa este nome que te deu a vida..." e eu li na embalagem de plástico colocada num suporte metálico ao meu lado direito: GILBERTO AUGUSTO DOS SANTOS

    EIF

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