sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sobre o Acordo Ortográfico


Perguntava o meu amigo Daniel Santos se é possível neste momento parar a implementação do Acordo Ortográfico sem prejudicar todas as crianças que já estudam por ele e se é possível fazer reset nas crianças e começar outra vez?

Eis o que penso sobre o assunto:

Estão a tentar fazer reset connosco, adultos... e nós temos muito mais dificuldade de adaptação do que as crianças.

Se o processo se revertesse agora, repito, agora, daqui a 3 meses os alunos que estão a aprender português segundo o novo acordo nem se lembrariam do que lhes estão a ensinar agora, e nadariam como peixe dentro de água no português que sempre conhecemos.

E já alguém parou para pensar nos custos inerentes a esta brincadeira? Eu tenho quase 100 mil volumes na biblioteca, e é uma biblioteca pequena. Tudo isto é agora, obsoleto. Não é antigo, reparem, isso é outra coisa... É obsoleto, ou seja, lixo. Milhões de manuais escolares para o lixo. Milhões de livros de leitura obrigatória no ensino básico e secundário para o lixo. Milhões de livros editados e apoiados pelo Plano Nacional de Leitura nos últimos 5 anos para o lixo. Milhões de clássicos da literatura para o lixo. É isso que esta brincadeira do AO nos custa.

Não está em causa a evolução natural da língua portuguesa. Está em causa o ego demasiado grande de meia dúzia de políticos da treta que quiseram deixar a sua marca. Bela marca, não há dúvida!

Infelizmente, também eu sou obrigada a utilizar esta escrita. Obviamente, faço batota em toda a linha. Escrevo normalmente e depois utilizo o conversor. Infelizmente, também sou obrigada a decifrar o que se escreve nessa espécie de dialecto. Dou por mim a tentar avaliar rapidamente quantos significados ou se existe sequer algum significado para aquele aglomerado de letras que me aparece à frente.

A alegada tentativa de facilitar o entendimento entre utilizadores da língua portuguesa nas suas mais diversas variantes resulta afinal numa comunicação cheia de ruído para os próprios portugueses, enquanto dos outros lados do Atlântico, as comunidades lusófonas assistem indiferentes a toda esta palhaçada.
   

9 comentários:

  1. Acho que não vou ligar muito ao acordo!
    Já não estou para me chatear com isso.
    Continuarei a escrever como sei e me ensinaram.

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  2. Devemos falar como deve ser segundo Vasco Graça Moura. Sim, já que até este português que temos foi uma evolução que desvirtuou o verdadeiro português de Afonso Henriques.

    "Rosa das rosas e fror das frores,
    dona das donas, senhor das senhores.

    Rosa de beldad' e de parecer
    e fror d'alegria e de prazer,
    dona em mui piadosa seer,
    senhor em tolher coitas e doores. "

    Isto sim é que eram tempos.

    Tirando a brincadeira. Não acho que seja assim uma tragédia tão grande. A evolução, mudança sempre provocou resistências. Se pudemos colocar milhões de pessoas a escrever igual, permitindo a todos os níveis uma maior interação entre os os que falam o português, porque não?

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    1. Sem querer, acabas de me dar razão. Como é que a língua portuguesa evoluiu do que aqui transcreveste até hoje? Qual ou quais foram os decretos ou despachos que promulgaram as alterações? Nenhuns, Daniel. Evoluiu naturalmente, que é o que deve continuar a acontecer. E acredita, os "milhões" de pessoas da lusofonia estão a marimbar-se para as consoantes que engolimos ou deixamos de engolir, quanto mais para saber se escrevemos Fevereiro com maiúscula ou minúscula!

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  3. A evolução imposta à "lei da bala" que eu saiba não se chama evolução tem outro nome e não gosto nem de o escrever...
    Parabéns pelo texto!

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  4. Com todo o respeito aos meus queridos colegas professores de Português e amigos de Bibliotecas, mas não vamos exagerar e dizer que o AO pretende fazer da Língua Portuguesa "lixo" ou "reset". Os exageros ou posições extremadas não levam a nada de bom ou resoluções de entendimento. Não sou defensora do AO nem da sua anulação, mas não me choca nem repugna aplicá-lo e não vejo razão para estas guerras ou mesmo posições para lá de serôdias, como a do Vasco Graça Moura, que desobedece ao governo que lá o colocou.

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    1. O reset vem na sequência de outra conversa (seguir o link) e refere-se aos nossos hábitos, não à língua portuguesa.

      O lixo é aquilo em que se vai tornar a massa imensa de publicações editadas nos últimos anos, o que em época de crise é de lamentar.

      Sou contra o AO, porque o considero desnecessário e prepotente, impondo mudanças que afastam a escrita da oralidade e não o contrário, como querem fazer parecer. Também o aplico, não tenho outro remédio, embora da forma pouco ortodoxa que já referi :)

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