Uma questão de participação

O jornalista e investigador norte-americano Steve Doig estima que apenas tenham participado na manifestação da função pública de sábado entre 8.000 a 10.000 pessoas, números muito abaixo dos 100.000 apontados pela organização.


Não me surpreende esta conclusão. Ainda que creia que o número correcto seja superior aos dez mil, estou perfeitamente consciente de que a meta a que se propunha a organização não foi atingida, e não o será tão cedo.

O problema é que as pessoas deixaram de se importar. Deixaram de acreditar que é possível reivindicar mais respeito pelos direitos que já nos tinham sido reconhecidos, pelo quais nós e outros que já nos deixaram, lutámos com todas as nossas forças.

Invariavelmente, a posição do cidadão comum perante a hipótese de greve ou de manifestação é “não vale a pena”, e “ainda me descontam esse dia no ordenado”. E à conta da nossa indiferença, vão-nos sendo descontados outros valores bem mais elevados: os abonos de família, um direito que considerávamos irreversível; os aumentos já obtidos com tanta dificuldade nos últimos anos, em semanas e meses de negociações; as progressões na carreira, pelas quais nos esforçámos durante anos, acumulando classificações sucessivas de Bom e Muito Bom que agora de nada servem; e sobretudo, vemos desaparecer a nossa dignidade. Enxovalhados uma e outra vez, publicamente, dentro e fora do nosso país, os trabalhadores portugueses e especialmente os funcionários públicos vêem todos os dias o seu papel ridicularizado e o seu trabalho menosprezado.

E no entanto, optamos por ficar comodamente sentados em casa. Não falo dos que estão contentes, e que naturalmente, nada têm a reclamar. Falo dos que todos os dias protestam em surdina, nos cafés, nas repartições, nos grupos de amigos, nas páginas do Facebook e nos blogues.

Os que não são militantes de partidos nem sindicalistas ou sindicalizados, acham que não têm obrigação. Os “outros”, essa entidade vaga que nos liberta de todas as culpas, que lutem, que se manifestem, que se dêem a esse trabalho, já que tiveram a coragem de assumir oficialmente as suas posições. E os que são militantes ou sindicalistas / sindicalizados? Estão cansados, não podem ser sempre eles a lutar e a dar a cara. Os “outros” (cá estão eles outra vez) que vão.

É isso que vai dando coragem aos governantes de meia tigela que temos para nos roubarem uma, e outra, e outra, e outra vez. É por isso que já este mês vamos começar a sentir no bolso o preço da nossa inércia.
No dia 24 haverá greve geral. Todos os dias ouvimos e lemos nas notícias a informação de novos grupos profissionais que se juntam à greve em protesto contra a situação económica que vivemos.

No dia 24 caberá a cada um de nós (dos que estão descontentes, obviamente) escolher quem queremos ser: Cidadãos activos, participativos, de pleno direito, que assumem o seu protesto com coragem, ou cidadãos comodistas, envergonhados, que aproveitam o seu direito de expressão para ficarem sentados nas esplanadas, criticando tudo e todos?

Notas:
1. Por compromissos anteriormente assumidos que envolviam várias pessoas e que estavam dependentes da minha presença, não participei na manifestação. Mea culpa.
2. Dos cerca de 400 funcionários da Câmara de Moura, apenas 3,5 % (14 pessoas) participaram na manifestação de sábado. Certamente estão todos muito satisfeitos com a sua situação profissional e económica, por isso com certeza vamos deixar de ouvir reclamações relativas ao SIADAP, às tabelas salariais e à idade da reforma.
3. Depois deste post, vou com certeza levar por tabela de quem se sentiu visado. Não é essa a intenção. O que eu queria é que acordassem e percebessem a importância da vossa participação. Só a união faz, e sempre fará, a força.

Comentários

  1. Excelente texto!
    É preciso despertar mentalidades e são pessoas como a Sr.ª que o conseguem através de gestos tão simples como estes, publicando um texto, aparentemente simples, mas que diz tanto!
    Continuação de bom trabalho.
    Bem haja.

    Nota: Eu vou fazer greve no dia 24 porque quero mostrar a este Governo o meu descontentamento. Estou disponível para me juntar a algum grupo que eventualmente se crie para algum tipo de acção para não ficar em casa neste dia (porque acredito que fazer greve não é ficar todo o dia sentado no sofá... não é um dia de folga... é um dia de reivindicação...).

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  2. Se contratam agências de rating (?)ex-ministros, comentadores, jornalistas vendidos e outras tantas sumidades para emitirem "doutas" opiniões e nos convencer da justeza das medidas que tem dado cabo do País e da nossa vida, também acharam que era preciso encomendar o sermão e a tese da fraca participação a este Steve Doig (a propósito quantos milhares de euros terá recebido?)
    Apesar de estar consciente de que a maior parte do que se ouve é para formatar a nossa mente no sentido que lhes interessa, também concordo com a análise da Zélia. Será que os trabalhadores e os povos que ao longo dos séculos ousaram lutar pelos seus direitos em condições dificilimas, perderam a verticalidade e a coragem e se resignam a serem o pobre Zé Povinho explorado, oprimido e sobre a qual cavalgam os senhores do dinheiro e os governnates que estão ao serviço deles, tal como o Bordalo Pinheiro o caricaturou?
    Estamos num tempo em que todos os que trabalham na administração pública (ganhem o ordenado mínimo ou mesmo acima dos 1500 euros) é que estão a pagar a factura mais pesada desta crise que é inerente ao sistema capitalista. Esperamos que perante a impotência para sairem dela não nos envolvam em perigosas aventuras guerreiras.
    Só os trabalhadores e o povo o poderão impedir.

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  3. Gostei mesmo muito do teu texto Zélia.
    Aquela referência aos "outros",que tantas vezes utilizamos, fez-me sorrir...
    Gostei tbm muito da sugestão do 1º comentador, acho que é mesmo isso que temos que fazer, fazer greve mas usar esse dia para lutar e defender os nossos pontos de vista.
    Podíamos começar por incentivar Aqui (e desculpa o abuso do teu espaço mas não posso deixar de me sentir em casa ;O) ) e abrir o espaço a sugestões de ideias (forma, local, hora, etc) para que no dia 24 possamos fazer algo mais que ir tomar café ou ficar no sofá (quer dizer eu tenho a casa num caos mas...está na hora de limpar outras coisinhas).
    Sugiro que o tema seja mesmo Participação e despertar Consciências, precisamos de um abanão e sentir que vale sempre a pena lutar pelo que acreditamos...depois disso só nos poderão realmente pedir o ultimo tostão da carteira!

    Zeza silva

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