terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Já passaram dez anos...

Tenho razão de sentir saudade
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.

Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
Carlos Drummond de Andrade , A um ausente

O tempo não apagou o vazio, não alargou este nó que nos sufoca, não apagou a tua voz.
O sol continua a nascer todos os dias, eu sei, mas os teus olhos já não o vêem. Zeza, sinto muito a tua falta.

2 comentários:

  1. Não conheci, mas como já não é a primeira nem, certamente, a última vez que falarás dela, acredito que só pode ter sido uma pessoa excepcional.
    Ficam as boas recordações mas também, acredito, um pacto não voluntariamente quebrado. Apetece-me contradizer o poema e dizer que, neste caso, as leis da amizade perdurarão para além das leis da natureza.
    Ás vezes os nós na garganta servem para nos lembrar que somos apenas humanos e que, nunca será demais a atenção que dispensarmos às pessoas de quem gostamos. Nunca sabemos quando será a última vez que o podemos fazer...

    Até logo (não são insónias, é esta mania de gostar do silêncio da casa, quando já todos dormem).

    Ana F

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