quinta-feira, 24 de março de 2011

A primeira gracinha do menino Pedrinho

No dia seguinte à demissão de Sócrates, Pedro Passos Coelho anunciou que as medidas de austeridade do seu governo (quando é que votámos nele?) jamais atingirão as pensões e os salários, e nunca se traduzirão em agravamento de impostos sobre o rendimento. O único agravamento que perspectiva é o aumento do IVA, porque se trata de um imposto sobre o consumo, para 24 ou até 25%.

Ora, vamos por partes.

1. Os impostos sobre o rendimento, em escala proporcional ao valor do rendimento (mais altos para reendimentos maiores, mais baixos ou nulos para rendimentos menores) são a única forma de garantir alguma justiça social. Alegar que não agravará impostos sobre o rendimento para proteger as pensões e os salários mais baixos é demagogia ou ignorância.

2. O IVA é um imposto cego. Penaliza o consumidor, quer seja rico ou pobre, quer compre champanhe ou leite. Agravar para 25% o IVA sobre os bens agora taxados a 23% poderá significar para muitas famílias, por exemplo, a impossibilidade de manter as crianças e jovens a estudar, e tornará alguns bens alimentares básicos um luxo comparável ao caviar. É claro que sempre podem distrair a fome com umas tacadas de golfe, mas mesmo assim...

Por enquanto, e considerando que estava a falar em Bruxelas, o que me leva a pensar que fez a viagem durante a noite ou de madrugada, vou atribuir esta "argolada" ao jet-lag. Mas convém que o PSD constitua um gabinete de crise para não o deixar esticar-se. E já agora, ensinem-lhe inglês, porque o que eu lhe ouvi hoje era... técnico, muito técnico.
                

6 comentários:

  1. Permites-me que discorde do teu ponto de vista? Passemos à frente do Passos Coelho, que eu não vou perder tempo com as propostas dos socialistas versão light, que ainda não chegaram ao governo. Vamos antes falar de coisas sérias, como economia.
    1-O IVA não é um imposto injusto, por ser cego, é precisamente justo, eu não ganho sequer o suficiente para pagar o IVA de um Ferrari, mas pago IVA à mesma taxa numa camisa, quem ganha mais, eventualmente comprará uma camisa melhor, logo em termos líquidos contribuirá mais. Quando o Estado introduz taxas e escalões, distorce o mercado, tira ao A para dar ao B, o que constitui a meu ver uma prática inaceitável, desde logo porque não é sequer quantificável a taxa de esforço, o mérito.
    2-Em impostos sobre rendimentos, não concordo com a existência de escalões, nas fronteiras dos mesmos, a injustiça é gritante, por exemplo, sabes que quem estiver a 500 Euros por exemplo de subir de escalão, recebe provavelmente mais em termos líquidos, que um colega que ultrapassa o mesmo escalão em 500 Euros? Mais uma conta que alguns fazem, e não é por acaso que eu já recusei trabalhar por prémios que fossem pagos em dinheiro, se ganhasse perdia dinheiro, o que é um absurdo. Quanto menos escalões, maior a justiça fiscal, poderemos discutir depois a percentagem, é outra discussão, mas não conheço nada mais justo que uma flat tax. Poderei admitir eventualmente um imposto negativo, para escalões mais baixos, seria uma forma de atribuir subsídios com uma fórmula rigorosamente proporcional aos rendimentos. Para resposta a um post, não é fácil desenvolver muito mais, mas penso que me fiz entender.
    Estou-me nas tintas para o Passos Coelho, sempre é melhor que o Sócrates, mas ainda assim, será certamente muito fraquinho...

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  2. E isto ainda antes de conhecer a fundo o estado das contas públicas...
    A ideia do gabinete de crise é boa mas deve haver tantos colegas do seu partido que gostariam de o ver esticar-se... ao comprido.
    Quanto ao inglês, bem, no meio de tantas mudanças, e para não baralhar tanto os parceiros europeus é bom que alguma coisa se mantenha igual. :)

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  3. Vá lá entender...!
    “PSD só admitiria mexer em impostos sobre o consumo, excluindo mexer em impostos sobre os rendimentos e nas pensões e reformas”.
    Aumentando o IVA não diminuem pensões e salários? Se o custo de vida sobe pelo aumento de impostos, diminui o poder aquisitivo do povo.
    Estamos mal, por o andar da carruagem, puxada por teimosos burros velhos, moucos e birrentos, estamos a ir para o brejo. Meu pai tinha um burro que, quando cismava parar (empacar), nada, mas nada o fazia mover-se, a solução era dar um tempo. Estamos com tempo para esperar?
    Carlos - RJ

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  4. António, em teoria podes ter razão, mas na prática as coisas são bem diferentes. 2% a mais de IVA sobre bens essenciais é demasiado para quem só ambiciona comer. E acredita que há cada vez mais gente nessas condições...

    Ana, lúcida como sempre :)

    Carlos, antes de mais, deixe-me cumprimentá-lo e manifestar o meu agrado pelas suas visitas desde o outro lado do Atlântico. Muito obrigada!
    Não, não me parece que tenhamos muito tempo, mas o que nos falta em tempo sobra-nos em paciência e sobretudo, em preguiça de nos envolvermos, de tomarmos o destino nas nossas mãos. É mais confortável esperar que alguém resolva e entretanto, ir criticando tudo o que mexe...

    Um abraço.

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  5. Zélia Parreira
    Eu é que agradeço poder desfrutar deste sítio inteligente, legal e Leão.
    Cumprimentos leoninos
    Carlos - RJ

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  6. Zélia, supostamente os bens essenciais beneficiam de taxa reduzida. Em parte alguma li que esta também viesse a ser actualizada. Mas é fundamental perceber o todo e não analisar ideias avulsas descontextualizadas...

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