sábado, 14 de agosto de 2010

Um instante de claridade

No dia em que o meu clube vai iniciar a época 2010/2011, e como prometido, aqui fica a crónica de Manuel António Pina sobre o futebol e sobre nós, escrita em Julho de 2004. O Campeonato Europeu de Futebol tinha terminado havia menos de um mês. Durão Barroso emigrara e deixara o seu pequeno trono aos herdeiros mais inesperados. Este era (é?) o nosso país e explica bem porque dedico tanta atenção ao futebol.




Quarta-feira de cinzas


Obrigado, futebol, por tudo o que nos deste, pelo vinho e pela cicuta (e pelo esquecimento).

Obrigado pelos dias desordenados e pelas noites transbordantes, obrigado por não teres cabido em nós e por nós não termos cabido em nós, obrigado pelas lágrimas e pelo riso, pelas cataratas de cantos, pelo incêndio das bandeiras, pelo amarelo e pelo azul, pelo oiro e pela tempestade, obrigado pelo escândalo ruidoso da alegria, obrigado pelo regozijo e pela esperança, pelos muros efemeramente derrubados, por todos os abismos que, por um momento, se fecharam entre nós.

Agora que partiste, voltaram eles, saídos da sombra, os dos discursos, os das promessas, os economistas, os usurários, os eunucos («os eunucos devoram-se a si mesmos / lambuzam de saliva os maiorais…», cantava, recordas-te? o Zeca Afonso), os meros aldrabões. As palavras deixaram de ser límpidas e sonoras, e servem de novo, não para iluminar, mas para confundir, e as mãos para mistificar e para ocultar. Aqueles desconhecidos que ainda ontem abraçávamos na rua olhamo-los agora com estranheza e com desconfiança e, se vêm na nossa direcção, viramos a cara para o lado e apressamos o passo.

Que nos aconteceu, que ficámos sós?

De repente fez-se um grande silêncio: copos vazios, papéis pelo chão, realidade, sujidade. De que falaremos agora? Que diremos uns aos outros? Olha para nós, cabisbaixos como essas bandeiras pendendo ainda das últimas janelas, destroços cansados de um passado quase perfeito. As ruas estão de novo desertas e já ninguém passa de automóvel gritando e saudando-nos com os braços imensamente abertos.

Agora ligamos a TV e temos apenas motivos de dor e de vergonha. Sophia morreu, Maria de Lourdes Pintasilgo morreu, Carlos Paredes morreu. Restam aqueles homens hirtos, de fatos às riscas, e aquelas mulheres prosaicas, de risos afectados, tresandando a eau de parfum, repartindo atabalhoadamente títulos e pastas governamentais como os soldados romanos a túnica de Cristo, personagens de uma opereta triste montada por um presidente pusilânime (que, no entanto, elegemos para ser forte e para ser fiel): toma lá a Secretaria de estado das Artes e Espectáculos que o teu pai e o teu avô eram artistas e espectadores: toma lá o Ministério da Defesa e dos Assuntos do Mar porque tens comércio com Nossa Senhora (assim a Santa continuará a proteger-nos e a empurrar as catástrofes e as maldições para a ímpia Galiza); e tu, toma lá o Ministério do Ambiente que deitaste uma vez uma garrafa de whisky num vidrão (…).

Obrigado futebol, por os teres tirado, a esses e a outros (…) da nossa frente durante algum tempo, por pouco que tivesse sido, os pobres esquecidos da pobreza, os humilhados da humilhação de cada dia sem trabalho e sem esperança, desatados os sentidos, o coração erguendo-se até aos mais altos ramos, o sangue correndo precipitadamente nas veias.

Agora que tudo voltou a ser lento, sórdido e obscuro, obrigado, futebol, por nos teres permitido um instante de claridade.

Visão, 29 de Julho de 2004, p. 91

  

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