sábado, 18 de junho de 2011

Sopa de espinafres

Ela chegou primeiro, de mão dada com a filha. Vinha da caminhada, equipamento desportivo, calças justas e t-shirt a deixar ver o umbigo. A menina, que soube mais tarde chamar-se Inês, tinha aquele corpo rechonchudinho próprio dos seus 7 ou 8 anos, óculos e um equipamento cor-de-rosa.

A mãe olhava em volta sem parar, enquanto passava as mãos pelo cabelo. Sentou-se numa mesa e foi nessa altura que ele apareceu. Certificou-se que estacionava no lugar que lhe permitia dar o menor número de passos possível até chegar à mesa, abriu a porta traseira e deixou sair dois miúdos, rapazes.

O comportamento dela, típico de uma fêmea à procura de acasalamento, fez-me pensar que era uma nova família em constituição. Ela com a filha dela, ele com os filhos dele, numa acção de charme infantil, sexta-feira ao final da tarde na esplanada do McDonald´s. Mas rapidamente percebi que não. A cabeça dela continuava à roda como um cata-vento e ele emitia pouco mais que monossílabos. Afinal eram um casal em final de viagem, a tentar desesperadamente ter um jantar vagamente semelhante ao de uma família feliz.

- Já pediste?
- Eu não. Achas que tenho carteira?

São como cristal, as palavras. Algumas, um punhal*, cortam até o ar que se respira. Ele estendeu-lhe a carteira como se fosse um ramo de oliveira, mas só conseguiu fermentar a agressividade.

- Toma.
- Eu é que vou pedir? Eu???!!! Nem fui eu que quis vir aqui. Olha, vou-me calar que já estou a falar alto.
- Ok. O que querem?

Pedidos anotados, surge o primeiro problema: Havia dois tipos de sopa. A menina cor-de-rosa ainda veio com ar doce "Mãe, o pai pergunta que sopa é que queres? Há de espinafres e de..."

- De espinafres! Parece impossível, o teu pai ainda não sabe que eu quero espinafres?

As mãos de unhas vermelhas passam nervosamente pelos cabelos enquanto o olhar continua a procura incessante. Ao lado os miúdos ainda ensaiam umas brincadeiras, mas a mãe não está disposta a ouvi-los.

O pai chegou, com os tabuleiros. Fez várias viagens, mais ninguém se levantou da mesa.

Os miúdos começam a comer mas a mãe insiste em lhes gritar permanentemente "Come!", enquanto lhes dá palmadas nos braços. "Aloooô...! Come! Já me estás a irritar!" Por fim, dirige todo o seu ódio ao verdadeiro alvo.

- Viver contigo é horrível, percebes? O ambiente onde quer que tu estejas, é horrível. Não aguento mais, estou farta!
- Tu é que és horrível, cala-te.

Os miúdos já se calaram. Mastigam em silêncio e de cabeça baixa.

Apeteceu-me levantar da mesa e ir lá dizer-lhes que a vida não tem de ser assim.

A vida não precisa de ser isto. Os vossos filhos têm o direito de viver numa casa onde as conversas não sejam sinónimo de agressão. Têm direito a viver em paz com as pessoas de quem gostam. Têm direito a estar com os pais sem que estes estejam permanentemente a agredir-se, insultar-se, humilhar-se. A vida pode ser muito mais do que uma eterna discussão porque o outro ainda não sabe que a sopa preferida é de espinafres.
                         
* Eugénio de Andrade, As Palavras

2 comentários:

  1. Pois é, prima, mas o que se continua a discutir é o número de divórcios, e o casamento dos homosexuais, e (cruzes canhoto!) a adopção de crianças...

    É a sociedade que temos...

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  2. Pelos visto é a que queremos.

    Ser feliz afinal, nem é difícil, só é preciso encarar as verdades de frente e não insistir em vier com hipocrisias. Mas as pessoas preferem assim, acham que é mais confortável.

    Ainda me hão-de explicar onde está o conforto de uma vida vivida em tensão constante, em guerrilha constante, em agressão constante.

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