quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Alegria no trabalho

A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: “O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.”

Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe…
Os motivos de sofrimento no trabalho têm sido alvo da atenção do professor Christophe Dejours. Em muitos casos, a pressão da avaliação, a precariedade dos contratos de trabalho, o assédio por parte de colegas ou superiores, o boato, a inveja e a injustiça levam as pessoas a um desespero de tal dimensão que, em casos mais graves pode provocar o suicídio.

Toda a entrevista vale a pena ser lida, mas chamou-me a atenção a questão da avaliação, hoje em dia muito discutida, em especial nas carreiras dependentes do Estado. Não sou contra a avaliação, antes pelo contrário, acho que devia ser ainda mais rigorosa, porque rigor é precisamente o que falta aos modelos aplicados no nosso país.

Os locais de trabalho têm vindo a degradar-se, tornando-se autênticos campos de batalha. A estratégia, que deveria ser produzir mais e melhor, impulsionando o serviço para uma evolução positiva, é antes a de bajular o chefe e, de caminho, denegrir ou prejudicar colegas que possam ser concorrentes. O plano de acção não é desenvolver trabalho, mas sim negociar objectivos que permitam atingir níveis de classificação positivos com o mínimo de esforço.

Conceitos como dedicação, brio profissional, zelo, responsabilidade e respeito desapareceram. Hoje cumprem-se os requisitos mínimos e demarcam-se áreas de responsabilidade às quais todos são alheios. Assiste-se de camarote ao falhanço estrondoso de um colega a quem, sorrateiramente, se estendeu a armadilha. Esquecem-se prazos e relaxam-se procedimentos que acabam sempre por prejudicar alguém. A montante ou a jusante, alguém pagará a factura dos erros, porque é aí que reside sempre, sempre, a culpa pelo que corre mal.

1 comentário:

  1. Os bajuladores hierarquicamente mal posicionados ficam, realmente, na posição(corporal)mais ingrata.
    Já o Honoré de Balzac dizia que a partir da categoria de chefe de divisão já não existem funcionários. Como isto já foi referido no século XIX em relação aos funcionários públicos do Estado francês, não se prevê melhorias significativas no funcionalismo público português, nas próximas décadas...

    BB

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